A Cinemateca com a Festa do Cinema Francês

Apesar da sua celebridade, de ter sido premiado em importantes festivais e de ter trabalhado com algumas grandes vedetas, Louis Malle (1932-1995) é até certo ponto um cineasta injustiçado. Pelo facto da sua vasta obra ser extremamente variada (“muitas vezes, faço um filme em reação ao que fizera logo antes”) e pelo facto de ser originário da alta burguesia (uma família de industriais do açúcar, que nunca financiou um só dos seus filmes), muitos julgaram e afirmaram durante anos que não tinha personalidade definida, que era um diletante para quem o cinema era um hobby e que buscava temas escandalosos para chamar a atenção. No entanto, basta examinar os seus filmes para constatar que estes em nada são inferiores ao que pode haver de melhor nos de um François Truffaut ou um Claude Chabrol, para compararmos o comparável. Extremamente culto, Malle tinha interesses variados e grande curiosidade intelectual. Além de dezanove longas-metragens de ficção, realizou ao longo da sua carreira sete documentários sobre variados temas (se considerarmos os sete episódios de L’INDE FANTÔME como um único filme), em França, na Tailândia, na Índia e nos Estados Unidos. Pertencendo à mesma geração que os membros da Nouvelle Vague, de quem foi companheiro de viagem quando esta surgiu em 1959-60, Malle foi um dos muitos novos nomes a terem surgido no cinema francês naquele período de grandes mudanças e troca de guarda. Mas contrariamente aos membros do grupo da Nouvelle Vague, que reivindicavam um certo “amadorismo” na maneira de filmar e produzir, Malle diplomou-se pelo IDHEC (Instituto de Altos Estudos Cinematográficos, ancestral da atual FEMIS), cujo ensino detestou. Como os seus companheiros de geração, era profundamente cinéfilo, com especial devoção por Robert Bresson e Jean Renoir, mas contrariamente aos demais nunca exerceu o ofício de crítico e tinha uma sólida formação técnica. A sua primeira experiência no cinema foi como assistente do Comandante Jacques-Yves Cousteau para um filme sobre a fauna e a flora marinhas do Mediterrâneo, que foi o seu trabalho de diploma no IDHEC. Cousteau e Malle entenderam-se bem e o Comandante convidou-o para uma nova colaboração num filme industrial sobre a extração do petróleo nas águas do Golfo Pérsico e em duas curtas-metragens sobre a vida marinha no Oceano Índico. A seguir convidou-o para ser correalizador da longa-metragem LE MONDE DU SILENCE, que obteria a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1956, filme sobre o qual Malle sempre foi bastante crítico: “eu não iria ao ponto de dizer que foi ensaiado, mas trata-se essencialmente de um documentário reconstituído”.
Depois desta estreia pouco convencional na realização, Malle trabalhou de modo ininterrupto durante cerca de quarenta anos, em quatro grandes etapas. Na primeira, que vai de 1957 a 1967, destacam-se ASCENSEUR POUR L’ÉCHAFAUD/FIM-DE-SEMANA NO ASCENSOR, filme negro à francesa, com técnicas inovadoras para a rodagem noturna nas ruas de Paris e música de Miles Davis, que improvisou diante de um ecrã em que o filme era projetado; LES AMANTS, em que usou mais uma vez a música (neste caso, Brahms) como elemento propulsor das cenas centrais; ZAZIE DANS LE MÉTRO, anárquica comédia, que adapta o romance epónimo de Raymond Queneau; as suas duas obras-primas deste período, FEU-FOLLET/”O FOGO FÁTUO” e LE VOLEUR/O LADRÃO DE PARIS, o primeiro um périplo a preto e branco em Paris por um homem que se vai suicidar, o segundo um vibrante filme de época, a cores. A segunda etapa da carreira de Malle consiste na extraordinária série de documentários que fez na Índia em 1968 (a longa-metragem CALCUTTA e sete episódios de cerca de uma hora, agrupados sob o título L’INDE FANTÔME), com uma equipa limitada a ele, um operador de câmara e um técnico de som. Consciente de que ele e os seus colaboradores eram “intrusos”, Malle mostra sem pretender demonstrar: “em vez de perder tempo a tentar perceber, decidi que iríamos deambular pela Índia e deixar que as coisas acontecessem, sem plano de trabalho, sem guião, sem material de iluminação, sem nenhuma espécie de compromisso no que refere a distribuição”. A terceira etapa do seu percurso, que vai de 1971 a 1975, consiste em duas longas-metragens de ficção, que formam um díptico do ponto de vista formal, LE SOUFFLE AU COEUR/SOPRO NO CORAÇÃO (que causou um ligeiro escândalo, devido ao tema do incesto) e LACOMBE LUCIEN/LACOMBE LUCIEN, O COLABORACIONISTA, que causou grande polémica devido ao ainda explosivo tema da “colaboração” de muitos franceses com as forças e ocupação nazis durante a Segunda Guerra Mundial; dois documentários, feitos sobre o mesmo princípio de mostrar sem querer demonstrar que adotara na Índia: HUMAIN TROP HUMAIN, sobre o trabalho numa fábrica de automóveis, e PLACE DE LA RÉPUBLIQUE, sobre um logradouro parisiense; e pelo filme mais atípico do seu percurso atípico, BLACK MOON. Desejoso de não se tornar “um cineasta francês provinciano”, Malle mudou-se em 1976 para os Estados Unidos, onde realizou boa parte dos filmes da quarta e última etapa do seu percurso. Como na sua primeira etapa francesa, Malle alternou no seu período americano ficções extremamente diferentes (PRETTY BABY/MENINA BONITA e MY DINNER WITH ANDRÉ) e esplêndidos documentários, GOD’S COUNTRY e …AND THE PURSUIT OF HAPPINESS. Uma derradeira incursão profissional ao seu país natal resultou no seu maior êxito de bilheteira, AU REVOIR, LES ENFANTS/ADEUS, RAPAZES e num dos seus filmes mais livres, MILOU EN MAI/OS MALUCOS DE MAIO. Depois de DAMAGE/RELAÇÕES PROIBIDAS, realizado em Londres, Malle fechou a sua carreira em Nova Iorque, com um filme de teor quase experimental, VANYA ON 42ND STREET, em que capta, num teatro em ruínas, uma leitura/encenação de Tio Vânia, de Tchékov.
No estudo mais vasto e completo a ter sido publicado à data de hoje sobre o seu trabalho, o crítico Pierre Billard definiu Malle como um rebelde solitário.  Num texto de 1948, Henri Langlois observara que “o cinema são os filmes. Para escrever a sua História é preciso tê-los visto”. E ver ou rever os filmes de Louis Malle é constatar não apenas a sua grande variedade, mas aquilo que os une: a sua alta qualidade.
Infelizmente, não poderemos apresentar ASCENSEUR POUR L’ÉCHAFAUD/FIM-DE-SEMANA NO ASCENSOR (1957) o filme de estreia de Louis Malle e uma das suas obras mais importantes (por sinal, o título do realizador mais vezes exibido pela Cinemateca), por vontade expressa da Leopardo Filmes, atual detentora dos direitos de exibição deste filme em Portugal.
Será publicado um pequeno volume sobre Louis Malle, primeiro de uma nova série de publicações da Cinemateca, destinado a acompanhar alguns grandes ciclos de autor.


Quarta-­feira [02] 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Sexta­-feira [04] 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro

LE FEU FOLLET

“O Fogo Fátuo”
de Louis Malle
com Maurice Ronet, Jeanne Moreau, Ursula Kubler
França, 1963 ­ – 110 min / legendado eletronicamente em português | M/16

sessão de dia 2 com apresentação 

1_1-The Fire Within

LE FEU FOLLET é unanimemente considerado como um dos pontos culminantes da obra de Louis Malle. Em adolescente, Malle fora marcado pela frase de abertura de O Mito de Sísifo, de Albert Camus: “O único problema filosófico realmente sério é o suicídio”. Filmado com grande elegância em cenários naturais, inclusive os interiores, num magnífico preto e branco, o filme narra o périplo de um homem desencantado, que percorre diversos bairros de Paris numa visita de despedida à cidade e aos seus amigos, que desconhecem a sua intenção. Magnífico desempenho de Maurice Ronet. Este foi talvez o meu primeiro filme em que realmente controlei tudo. Em termos de estilo, foi com LE FEU FOLLET que realmente descobri o que me parecia acertado, a melhor maneira de expressar o que tinha em mente”. O filme não teve distribuição em Portugal à época e, muito mais tarde, seria apresentado na televisão com o título CHAMA FATAL. A apresentar em cópia digital.


Quinta­-feira [03] 19h30 | Sala Luís de Pina
Terça­-feira [08] 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro

LES AMANTS

Os Amantes
de Louis Malle
com Jeanne Moreau, Jean­Marc Bory, Alain Cuny
França, 1958 ­ – 88 min / legendado eletronicamente em português | M/16

2_2-LES AMANTS

Nas palavras de Malle, a ação de LES AMANTS resume-­se “à história de uma noite de amor”. Situado nos meios da alta burguesia, o filme tem como ponto central a descoberta do êxtase afetivo e erótico por uma mulher (Jeanne Moreau, que tem aqui um dos seus mais belos desempenhos num papel escrito sob medida para ela) que vive um casamento convencional e indiferente e tem uma aventura noturna com um homem que ela e o marido hospedam na sua elegante casa de campo, que resulta numa “noite maravilhosa”, que a fará deixar o marido “sem nenhum remorso”. Assim como utilizara a música de Miles Davis para acompanhar a deambulação noturna de Jeanne Moreau pelas ruas de Paris em ASCENSEUR POUR L’ÉCHAFAUD, Malle utiliza com extrema habilidade um sexteto de cordas de Brahms para transmitir a idílica fusão afetiva e erótica do par de LES AMANTS. O filme causou algum escândalo à época pelo facto de representar, com elegância, o prazer feminino. Do ponto de vista estilístico, caracteriza-­se pela presença de longos planos-­sequência e o uso da imagem panorâmica.


Quinta­-feira [03] 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Quarta­-feira [09] 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro

ZAZIE DANS LE MÉTRO

de Louis Malle
com Catherine Demongeot, Philippe Noiret, Vittorio Caprioli
França, 1960 – 92 min / legendado eletronicamente em português | M/12

3_2-ZAZIE DANS LE MÉTRO

A passagem de LES AMANTS para ZAZIE DANS LE MÉTRO marca uma das guinadas estilísticas mais nítidas no percurso de Malle. Depois de um elegante filme a preto e branco, realiza uma alegre e anárquica comédia a cores, baseada no então recente romance epónimo de Raymond Queneau sobre uma garota de província que vem passar trinta e seis horas em Paris e está ansiosa por conhecer o metro, que infelizmente está em greve. Queneau joga e brinca alegremente com a língua francesa e Malle julgou que “o desafio de adaptar o livro permitir-­me­-ia explorar a linguagem cinematográfica. O que há de brilhante no livro é o inventário das mais diversas formas literárias e, claro, também há muitos «pastiches». Pareceu­-me que seria interessante fazer o mesmo com a linguagem cinematográfica”. O filme reata com o cinema burlesco do período mudo, numa sucessão de peripécias levadas rapidamente ao absurdo, num autêntico fogo de artifício. A apresentar em cópia digital.


Sexta­-feira [04] 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Quinta-­feira [10] 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro

VIE PRIVÉE

de Louis Malle
com Brigitte Bardot, Marcello Mastroianni, Nicolas Bataille
França, 1961 – 103 min / legendado eletronicamente em português | M/16

4_1-VIE PRIVÉE

VIE PRIVÉE foi um filme de encomenda e ilustra a impossibilidade de uma vedeta de cinema ter um mínimo de privacidade. O argumento foi escrito sob medida para Brigitte Bardot, então no auge da glória, não apenas como estrela de cinema, mas também como símbolo da libertação sexual da mulher, o que fazia dela um objeto do assédio permanente dos jornais de escândalo e dos paparazzi e também de pouca estima de algumas mulheres que a consideravam “imoral”. Malle tentou “recriar o estranho fenómeno social em que Bardot se transformara”: não se trata de uma obra sobre o mundo do cinema mas sobre uma vedeta imolada no altar da fama. Tudo começa como um moderno conto de fadas em Genebra, que continua em Paris e chega ao fim em Spoleto quando a mulher, que entretanto se afastara do cinema devido à pressão mediática, volta a ser vítima da sua celebridade.


Sábado [05] 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Segunda­-feira [14] 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro

VIVA MARIA!

Viva Maria
de Louis Malle
com Jeanne Moreau, Brigitte Bardot, Georges Hamilton, Claudio Brook
França, 1965 ­ 115 min / legendado eletronicamente em português | M/16

5_1-VIVA MARIA

Depois da gravidade de LE FEU FOLLET, Malle sentiu a necessidade de fazer “um grande espetáculo, em Cinemascope e a cores” e o resultado foi VIVA MARIA! Para este filme, inteiramente rodado no México, Malle reuniu as duas mais célebres vedetas femininas do cinema francês de então, Jeanne Moreau e Brigitte Bardot, que em tudo diferem: aspeto físico, porte, capacidades de atriz. A ideia foi fazer um pastiche dos “filmes de compinchas” de Hollywood (o modelo foi VERA CRUZ, de Robert Aldrich), porém com protagonistas femininas, ambas chamadas Maria. Num ambiente próximo do western e dos filmes situados durante a revolução mexicana, o filme de Malle é um divertimento, com alguns gags próximos da banda desenhada. As duas amigas atravessam incólumes as situações mais perigosas, em meio a eternos combates armados, sem nunca perderem a boa disposição. A apresentar em cópia digital.


Segunda­-feira [07] 19h30 | Sala Luís de Pina

VIVE LE TOUR!

França, 1962 – 18 min

BONS BAISERS DE BANGKOK

França, 1964 – 30 min

WILLIAM WILSON

de Louis Malle
com Alain Delon, Brigitte Bardot
França, 1967 –  ­ 40 min

duração total da projeção: 88 minutos
legendados eletronicamente em português | M/12

6-VIVE LE TOUR
VIVE LE TOUR!

Este programa começa com um magnífico documentário sobre a Volta à França, que foi filmado em ordem cronológica, num total de dezassete horas de rushes, que resultaram num filme de quarenta e cinco minutos, reduzidos depois para dezoito e Malle consegue transmitir ao espectador uma sintética visão de conjunto. Longe de embelezar o que vira, Malle, que ficara “impressionado com o confronto e a violência” do Tour de France, quis mostrar “os acidentes, as quedas, o esforço nas ascensões”, antes da chegada dos vencedores a Paris, mostrada sem nenhuma ênfase. Segue­-se uma reportagem feita para a televisão francesa sobre Banguecoque, em que Malle satiriza hábil e discretamente a pretensão destas reportagens de querer tudo explicar sobre um país longínquo em apenas vinte ou trinta minutos. A fechar a sessão, WILLIAM WILSON, um dos três episódios, baseados em contos de Edgar Allan Poe, de HISTÓRIAS EXTRAORDINÁRIAS (os outros dois foram realizados por Federico Fellini e Roger Vadim). Malle escolheu William Wilson, história de um homem que encontra alguém que parece ser o seu duplo.VIVE LE TOUR! e BONS BAISERS DE BANGKOK são primeiras apresentações na Cinemateca.


Segunda­-feira [07] 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Segunda­-feira [21] 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro

LE VOLEUR

O Ladrão de Paris
de Louis Malle
com Jean­-Paul Belmondo, Julien Guiomar, Geneviève Bujold, Marie Dubois
França, 1967 ­ – 120 min / legendado eletronicamente em português | M/16

7_2-LE VOLEUR

Estranhamente esquecido, LE VOLEUR é um dos melhores momentos de toda a obra de Louis Malle, que obteve um magnífico desempenho de Jean-­Paul Belmondo, muitos anos antes deste se estereotipar em medíocres “filmes de ação”. A ação tem lugar em fins do século XIX, com excelentes “valores de produção” (cenários, fatos e adereços) e o protagonista é um homem da alta burguesia que, depois de ter sido despojado da sua herança pelo tio que era seu tutor, torna-­se assaltante profissional, sem deixar de ser um dandy, para gozar da riqueza e contestar, à sua maneira, a ordem social. O seu mestre na senda do crime é um padre, que lhe ensina as técnicas de assalto “como quem ensina o catecismo”. A narrativa é um constante corrupio e Malle declarou que este foi o filme em que conseguiu com os atores o melhor desempenho de conjunto de toda a sua obra. A apresentar em cópia digital.


Terça­-feira [08] 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Terça­-feira [22] 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro

LE SOUFFLE AU COEUR

Sopro no Coração
de Louis Malle
com Benoît Ferreux, Léa Massari, Daniel Gélin, Michael Lonsdale
França, 1971 – ­ 110 min / legendado eletronicamente em português | M/16

8_1-LE SOUFFLE AU COEUR

Um dos mais conhecidos e apreciados filmes de Louis Malle, que também gozou de um sucesso de escândalo pela forma natural como expôs no cinema um tabu: o incesto. Situado no meio da burguesia de província francesa em 1954, LE SOUFFLE AU COEUR começa quase como uma comédia de costumes, antes de mudar de tom no seu terço final. É a história de um adolescente extremamente inteligente que, ao ser-­lhe diagnosticado um “sopro no coração”, é levado pela mãe para uma estância de tratamento, onde a relação extremamente próxima que têm resultará num único encontro sexual.


Terça­-feira [08] 19h30 | Sala Luís de Pina

L’INDE FANTÔME

episódios 1 (La Caméra Impossible) e 2 (Choses vues à Madras)
de Louis Malle
França, 1968 ­ – 54 e 54 min

duração total da projeção: 108 minutos
legendados eletronicamente em português | M/12

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L’INDE FANTÔME episódio 1 (La Caméra Impossible)

Malle descobriu a Índia ao ser convidado para ali apresentar uma série de filmes franceses recentes e ficou tão impressionado com o país que permaneceu durante mais seis semanas a observar o que o cercava, porém sem filmar. Regressou dois meses depois e com uma equipa reduzida a ele, um operador de câmara e um técnico de som filmou a esmo cerca de trinta horas de material, que resultaram na longa­-metragem CALCUTTA e num documentário em sete episódios, destinado à televisão mas que também teve distribuição nas salas de cinema, intitulado L’INDE FANTÔME. Longe de ser uma reportagem, trata-­se de um exemplo do cinema direto, que Malle define assim: “completamente improvisado, não se tenta organizar a realidade, tenta­-se apenas descobrir para onde o nosso interesse e a nossa curiosidade nos levam, tenta­-se filmar aquilo que parece interessante ou surpreendente e depois tenta-­se dar sentido a tudo isto na mesa de montagem”. Ciente de que ele e os seus dois colaboradores nada percebiam daquilo que viam, Malle nada quis “explicar” e ciente também que eram intrusos no país, observa no comentário do primeiro episódio, significativamente intitulado A CÂMARA IMPOSSÍVEL: “por toda a parte onde vamos, a primeira coisa que vemos são os olhos, os olhares. Vimos aqui para vê­-los e são eles que nos olham. Decido filmá-­los tal como são, com os seus olhos enormes virados para nós, para o olho único da câmara”. Um conceito claro de cinema e um profundo respeito pelo “outro” resultaram em quase sete horas de cinema que são um dos pontos altos do documentário dos anos 60. Primeira apresentação na Cinemateca.


Terça­-feira [08] 21:30 | Sala Félix Ribeiro
Quarta-­feira [23] 21:30 | Sala Félix Ribeiro

LACOMBE LUCIEN

Lacombe Lucien, o Colaboracionista
de Louis Malle
com Pierre Blaise, Holger Löwenadler, Aurore Clément
França, 1974 – 137 min / legendado eletronicamente em português | M/12

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LACOMBE LUCIEN tem muitas semelhanças formais e narrativas com LE SOUFFLE AU COEUR: uma narrativa em estilo direto e a presença de um adolescente no papel principal. Situado no sudoeste de França durante a Segunda Guerra Mundial, o filme mostra a maneira como um jovem camponês se torna colaborador das forças de ocupação nazis e dos colaboracionistas franceses. O rapaz acaba por se apaixonar por uma jovem judia refugiada na região. Segundo Malle, um dos pontos de partida do filme foi a sua vontade de explorar os mecanismos da banalidade do mal, segundo a célebre fórmula de Hannah Arendt: o que leva um indivíduo qualquer a tornar­-se cúmplice de uma gigantesca máquina criminosa como foi o nazismo. O filme causou violentas polémicas em França e L’Humanité, o jornal oficial do Partido Comunista, afirmou que nunca um filho das classes trabalhadoras poderia colaborar com as forças de ocupação.


Quarta­-feira [09] 19h30 | Sala Luís de Pina

L’INDE FANTÔME

episódios 3 (La Religion) e 4 (La Tentation du Rêve)
França, 1968 – ­ 54 e 54 min

duração total da projeção: 108 minutos
legendados eletronicamente em português | M/12

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L’INDE FANTÔME – episódio 3 (La Religion)

Quarta­-feira [09] 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Quinta­-feira [24] 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro

BLACK MOON

de Louis Malle
com Cathryn Harrison, Thérèse Giehse, Alexandra Stewart, Joe Dalessandro
França, 1975 ­ – 100 min / legendado eletronicamente em português | M/12

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BLACK MOON é um objeto totalmente isolado na obra de Malle. Quase desprovido de diálogos, trata­se de um moderno conto de fadas, com reminiscências de Alice no País das Maravilhas, em que para fugir da guerra que se declarara entre homens e mulheres uma jovem refugia-­se numa casa isolada. Ali terá alguns insólitos encontros com pessoas e animais, entre os quais um unicórnio. Ao escrever o argumento Malle tentou “trabalhar a partir de sonhos e livres associações”, tentando aplicar a técnica da “escrita automática” dos surrealistas à rodagem e o resultado foi “um filme feito de uma série de momentos visuais”. Magnífica fotografia de Sven Nykvist, colaborador habitual de Ingmar Bergman, a quem Malle pediu uma luz fria. Toda a banda sonora foi feita em estúdio, para evitar sons realistas.


Quinta-­feira [10] 19h30 | Sala Luís de Pina

L’INDE FANTÔME

episódios 5 (Regard sur les Castes) e 6 (Les Étrangers en Inde)
França, 1968 – ­ 54 e 54 min

duração total da projeção: 108 minutos
legendados eletronicamente em português | M/12

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L’INDE FANTÔME episódio 5 (Regard sur les Castes)

Sexta­-feira [11] 19h30 | Sala Luís de Pina

L’INDE FANTÔME

episódio 7 (Bombay)

CALCUTTA

Calcutá
França, 1968 – ­ 54 e 105 minutos

duração total da projeção: 159 minutos
legendados eletronicamente em português | M/12

13-CALCUTTA
CALCUTTA

No início do seu périplo pela Índia, Malle e os seus dois colaboradores permaneceram durante três semanas em Calcutá, filmando a vasta metrópole com os mesmos princípios expostos acima na nota sobre L’INDE FANTÔME. Ao começar a desbravar as trinta horas que filmara (e cujo resultado só conheceu ao fim da rodagem), Suzanne Baron, a sua montadora, sugeriu que começassem por extrair um filme do material filmado na metrópole do Bengala. O resultado foi uma longa­-metragem, o único filme que Malle trouxe da Índia a ter um teor genérico, ao passo que os episódios que formam L’INDE FANTÔME abordam motivos específicos. As imagens e a narração de CALCUTTA não pretendem explicar uma cidade e uma realidade que o realizador tem consciência de não perceber, limitam-se a dar exemplos, pontos de referência, nos antípodas da busca do insólito ou da arrogante vontade de “tudo explicar pelo colonialismo e a religião”.


Sexta­-feira [11] 22h00 | Sala M. Félix Ribeiro     
Sexta­-feira [25] 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro

PRETTY BABY

Menina Bonita
de Louis Malle
com Brooke Shields, Keith Carradine, Susan Sarandon

Estados Unidos, 1978 ­ – 110 min / legendado eletronicamente em português | M/16

14_1-PRETTY BABY

PRETTY BABY é o filme que inaugura o período americano da carreira de Malle e tem como protagonista Brooke Shields, então com apenas doze anos. A ação é situada em 1917 num bordel na Nova Orleães, onde a protagonista vive com a sua mãe que ali exerce a mais antiga profissão do mundo, à qual ela própria será iniciada. Malle organizou o filme à volta de três eixos: o bordel; a presença do jazz, que nasceu na Nova Orleães na passagem do século XIX para o século XX; a presença de um fotógrafo, inspirado na figura real de um profissional que fotografara as prostitutas da cidade e se apaixona pela garota. Isto dá uma dimensão suplementar ao filme, que vai além da mera descrição daquele meio: a sobreposição e a troca de olhares, o de um fotógrafo que capta o de uma garota que, por sua vez, olha para o espectador. Primeira apresentação na Cinemateca.


Sábado [12] 19h30 | Sala Luís de Pina

HUMAIN, TROP HUMAIN

de Louis Malle
França, 1972 ­ – 75 min / legendado eletronicamente em português | M/12

15-HUMAIN TROP HUMAIN

HUMAIN TROP HUMAIN é um dos dois documentários realizados por Malle em França no início dos anos 1970 (o outro é PLACE DE LA RÉPUBLIQUE). Malle mostra o trabalho numa fábrica de automóveis e, fiel aos seus métodos, limita­se a mostrar sem querer demonstrar: o filme é desprovido de entrevistas, comentário em off e diálogos entre os operários e operárias. Malle optou por planos longos, para que o espectador possa captar o aspeto repetitivo, mecânico, daquele trabalho e dividiu o filme em três partes: as máquinas e o fabrico de um automóvel; o Salão do Automóvel, para onde vão os carros; as pessoas, operários e operárias que os fabricam. Um filme feito em surdina, sem o alarido e as certezas do cinema militante, que mostra com clareza a condição operária numa fábrica específica de um país específico.


Sábado [12] 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Segunda­-feira [28] 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro

ATLANTIC CITY

Atlantic City, U.S.A.
de Louis Malle
com Burt Lancaster, Susan Sarandon, Michel Piccoli

Estados Unidos, 1980 ­ – 105 min / legendado eletronicamente em português | M/12

16_2-ATLANTIC CITY

Neste seu segundo filme americano, Malle, fiel a si mesmo, muda totalmente de registo em relação a PRETTY BABY. Depois de realizar em estúdio um filme “de época”, realizou um filme situado no presente, filmado in loco, numa cidade então em plena transformação, devido à legalização do jogo, que desencadeou um frenesim de demolições e construções de hotéis e casinos, com todas as negociatas e violências que isto implica. Neste mundo caótico em que reina a ganância e em que todos roubam o próximo sem remorsos, sobressaem dois personagens: uma jovem aspirante a croupière (Susan Sarandon) e um velho jogador que ali vive (fabulosa interpretação de Burt Lancaster), sustentado por uma mulher velha e refilona. Depois de um breve romance entre os dois, há um nada sentimental desenlace feliz. Um filme a redescobrir. A apresentar em cópia digital.


Segunda­-feira [14] 19h30 | Sala Luís de Pina
Segunda­-feira [21] 19h30 | Sala Luís de Pina

PLACE DE LA RÉPUBLIQUE

de Louis Malle
França, 1972 – ­ 92 min / legendado eletronicamente em português | M/12

17_1-PLACE DE LA RÉPUBLIQUE

Realizado no mesmo impulso cinematográfico que HUMAIN, TROP HUMAIN, este documentário sobre um conhecido logradouro parisiense em tudo difere daquele filme, o que era inevitável pois aquilo que se passa numa fábrica é predeterminado, ao passo que o que se passa num espaço público é, por definição, imprevisível. O gesto cinematográfico de Malle nestes noventa e dois minutos sobre uma praça parisiense é semelhante ao que tivera na Índia ­ pousar a câmara e observar, sem “guião” preestabelecido, descobrir coisas ao acaso ­ com a diferença fundamental de que na Índia ele confrontava-­se a um mundo do qual tinha consciência que nada percebia, ao passo que em Paris tinha perfeita consciência cultural daquilo que via. Contrariamente a HUMAIN, TROP HUMAIN, há muitos monólogos e diálogos em PLACE DE LA RÉPUBLIQUE, que também é um filme de “personagens”, que ali trabalham ou transitam diariamente por aquele espaço. Primeira apresentação na Cinemateca.


Quinta­-feira [17] 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Sábado [19] 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro

ALAMO BAY

A Baía do Ódio
de Louis Malle
com Amy Madigan, Ed Harris, Ho Nguyen
Estados Unidos, 1985 – ­ 99 min / legendado eletronicamente em português | M/12

18_1-ALAMO BAY

Baseado em factos reais recentes, ALAMO BAY mostra o conflito entre pescadores texanos brancos e um grupo de vietnamitas, competentes e organizados, que começa a fazer­-lhes concorrência. Malle interessou­-se por uma situação em que devido a acontecimentos históricos as pessoas são levadas a comportamentos que normalmente não teriam, que são criados pelas circunstâncias. Subitamente as pessoas mudam, descobrem quem são e às vezes revelam o seu lado pior”. Malle filmou este filme de ficção como se fosse um documentário e misturou atores profissionais e amadores, utilizando para os papéis secundários pescadores da região, autênticos rednecks que “representaram algumas cenas com uma intensidade um pouco estranha”. Primeira exibição na Cinemateca. A apresentar em cópia digital.


Quinta­-feira [17] 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Sexta­-feira [18] 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro

MY DINNER WITH ANDRÉ

de Louis Malle
com Wallace Shawn, André Gregory
Estados Unidos, 1981 – ­ 111 min / legendado eletronicamente em português | M/12

19_1-MY DINNER WITH ANDRÉ

MY DINNER WITH ANDRÉ marca uma rutura radical de Malle com os filmes que realizara até então nos Estados Unidos, todos com uma narrativa estruturada em três partes, que se estende no tempo. Trata­-se de uma autêntica aposta cinematográfica: dois amigos que não se veem há algum tempo, encontram-se num restaurante e todo o filme consiste num longo diálogo entre os dois, à mesa. Rodado em 16 mm, como um documentário, o filme foi um desafio lançado a Malle pelo dramaturgo André Gregory e pelo ator Wallace Shawn, que observou que “Malle conseguiu hipnotizar os espectadores e levá-­los com ele ao longo de todo o filme devido à maneira como usou o ritmo cinematográfico e também pelos seus sentimentos calorosos em relação às duas personagens”. À época, MY DINNER WITH ANDRÉ tornou-­se um autêntico filme de culto nos Estados Unidos. Primeira exibição na Cinemateca. A apresentar em cópia digital.


Sexta-­feira [18] 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro

CRACKERS

de Louis Malle
com Donald Sutherland, Sean Penn, Wallace Shawn, Christine Baranski
Estados Unidos, 1983 – ­ 92 min / legendado eletronicamente em português | M/12

20-CRACKERS

CRACKERS foi uma encomenda feita por um produtor americano a Malle. Trata-­se de um remake de um clássico da comédia italiana, I SOLITI IGNOTI/GANGTERS FALHADOS (1958), de Mario Monicelli, em que um bando de bandidos incompetentes tenta assaltar uma casa de penhores e fracassa. Este foi o único dos filmes realizados nos Estados Unidos por Louis Malle em que este se viu às voltas com violentas pressões da produção (o comanditário do projeto foi demitido e substituído) e da equipa técnica, no que veio a ser um clássico episódio de um autor europeu às voltas com a brutalidade da máquina industrial americana. Primeira exibição na Cinemateca. A apresentar em cópia digital.


Segunda­-feira [21] 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro

LE MONDE DU SILENCE

O Mundo do Silêncio
de Jacques­-Yves Cousteau, Louis Malle
França, 1956 – ­ 86 min / legendado eletronicamente em português | M/12

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Depois de colaborar com o Comandante Jacques-­Yves Cousteau num filme industrial e em três curtas­-metragens sobre a vida marinha, Malle foi convidado para ser correalizador daquela que viria a ser a primeira longa-­metragem do célebre oceanógrafo, LE MONDE DU SILENCE, que teve enorme êxito. Este filme marca, no entanto, uma viragem definitiva no trabalho de Cousteau: até então, ele filmava reportagens destinadas a documentar as suas incursões submarinas. Doravante, em vez de mergulhar e filmar, Cousteau mergulhará para filmar, passando “da pesquisa ao espetáculo”, como observou Pierre Billard. Malle teve consciência disso ainda na etapa da rodagem e da montagem e nos documentários que faria adotou uma atitude inteiramente oposta. A apresentar em cópia digital.


Segunda-­feira [21] 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro

AU REVOIR, LES ENFANTS

Adeus, Rapazes
de Louis Malle
com Gaspard Manesse, François Fetjö, Philippe Morrier­Genoud
França, 1987 ­ – 103 min / legendado em português | M/12

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De regresso ao cinema francês, ao cabo de quase dez anos nos Estados Unidos, Louis Malle obteve com AU REVOIR, LES ENFANTS o maior êxito comercial da sua carreira. O filme retraça um terrível episódio vivido por ele aos onze anos de idade, em fevereiro de 1944, quando a presença de três rapazes judeus acolhidos num internato católico é denunciada e eles e o padre que dirigia a instituição são deportados para os campos da morte. Malle conseguiu excelentes desempenhos dos dois jovens atores principais (um dos quais é o alter ego dele em jovem e o outro um dos alunos judeus) e a trama narrativa avança por pequenas etapas, fazendo com que o espectador descubra os factos ao mesmo tempo que o protagonista.


Terça-­feira [22] 19h30 | Sala Luís de Pina
Segunda-­feira [28] 19h30 | Sala Luís de Pina

GOD’S COUNTRY

de Louis Malle
Estados Unidos, 1985 ­- 99 min / legendado eletronicamente em português | M/12

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GOD’S COUNTRY é um documentário feito no Minnesota, no qual Malle soube utilizar a seu favor as dificuldades da produção. A rodagem começou em 1979, numa pequena localidade de cinco mil habitantes, onde não havia nenhum cinema, mas existiam nove igrejas (duas católicas e sete protestantes). Malle realizou uma primeira montagem, mas a produção foi interrompida por razões orçamentais, sendo, no entanto, retomada seis anos depois. Malle decidiu filmar novo material, para constatar o que havia ou não mudado naquele ínterim. Fiel aos seus métodos, trabalhou com uma equipa reduzida e deu forma ao filme a partir das pessoas que encontrou, ao invés de usá-­las como exemplos de uma análise predeterminada, conseguindo assim dar uma visão geral do vilarejo e uma visão específica de alguns dos seus habitantes. Primeira apresentação na Cinemateca.


Quinta­-feira [24] 19h30 | Sala Luís de Pina
Terça­-feira [29] 19h30 | Sala Luís de Pina

…AND THE PURSUIT OF HAPPINESS

de Louis Malle
Estados Unidos, 1986 – ­ 80 min / legendado eletronicamente em português | M/12

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O título deste documentário cita uma das mais célebres frases da Declaração de Independência dos Estados Unidos, que menciona “a busca da felicidadecomo um dos direitos inalienáveis do homem. Realizado por ocasião do centenário da Estátua da Liberdade, o filme aborda as novas migrações para os Estados Unidos, que não são formadas por populações europeias como no início do século XX, mas sobretudo por asiáticos, latino­-americanos e africanos. Consciente da sua própria condição de “imigrante de luxo” e de que os Estados Unidos “não são um melting pot e sim uma Torre de Babel”, pois as diversas comunidades coabitam sem se misturarem, Malle filma pessoas de origens diversas, algumas com a situação profissional estabilizada, outras que vão recomeçar do nada. Contrariamente ao que se passa em GOD’S COUNTRY, em que voltamos reiteradamente a algumas pessoas, em …AND THE PURSUIT OF HAPPINESS vemos apenas uma vez, ainda que demoradamente, cada um destes novos americanos. Primeira apresentação na Cinemateca.


Quinta­-feira [24] 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro

MILOU EN MAI

Os Malucos de Maio
de Louis Malle
com Michel Piccoli, Miou­-Miou, Michel Duchaussoy, Dominique Blanc, Paulette Dubost
França, 1989 ­ – 108 min / legendado eletronicamente em português | M/12

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Este filme, que veio a ser a despedida de Louis Malle ao cinema francês, é um dos mais livres e alegres da sua obra. A ação decorre numa casa de campo, onde vivem a personagem-­titular (Michel Piccoli, num dos seus grandes desempenhos) e a sua mãe idosa (Paulette Dubost, imortalizada no papel da criada em A REGRA DO JOGO, de Jean Renoir). Esta morre subitamente e os demais membros da família chegam para o funeral e sobretudo para a partilha dos bens da morta. Mas estamos em Maio de 1968 e a França está em greve geral, o que torna impossível o enterro da senhora, cuja cadáver é respeitosamente guardado na sua cama, enquanto os seus filhos, genros e noras (além de alguns netos) ajustam velhas contas, discutem política e vivem, naquele reduzido espaço, algumas das utopias e ideias daquele famoso mês de maio. No desenlace, como numa screwball comedy americana, género com o qual MILOU EN MAI tem semelhanças, tudo volta (quase) ao normal.


Sexta­-feira [25] 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro

DAMAGE

Relações Proibidas
de Louis Malle
com Jeremy Irons, Juliette Binoche, Miranda Richardson, Rupert Graves
Grã­-Bretanha, 1992 – ­ 110 min / legendado em português | M/16

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Realizado em Londres, DAMAGE adapta o primeiro romance de uma produtora de teatro, que Malle considerou medíocre do ponto de vista literário, mas cuja trama central o interessou: a violenta paixão sexual entre um homem de meia­idade e a noiva do seu filho. A rodagem teve lugar em condições desfavoráveis, parcialmente devidas à degradação do estado de saúde de Malle e sobretudo à arrogante atitude de Jeremy Irons, que não considerou Juliette Binoche digna de contracenar com ele e só moderou um pouco a sua hostilidade depois de Malle lhe mostrar algumas rushes. O filme conta ainda com uma excelente presença de Leslie Caron, como guest star no papel da elegante mãe da personagem feminina.


Sábado [26] 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Quarta­-feira [30] 19h30 | Sala Luís de Pina

VANYA ON 42nd STREET

de Louis Malle
com Wallace Shawn, Julianne Moore, Brooke Smith, Larry Pine
Estados Unidos, 1994 – ­ 119 min / legendado eletronicamente em português | M/12

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VANYA ON 42nd STREET veio a ser o último trabalho de Malle e foi um dos que lhe deu maior satisfação. Como MY DINNER WITH ANDRÉ tratou-­se de um convite de André Gregory e Wallace Shawn, que tinham adaptado Tio Vânia de Tchékov, numa montagem-­leitura inicialmente destinada a não ser apresentada em público e que depois o foi para plateias de no máximo vinte e cinco pessoas, num teatro em semi­-ruínas. A ideia foi perpetuar num filme o espetáculo e por este motivo VANYA ON 42nd STREET pode ser considerado um documentário sobre esta montagem. Como o palco do teatro estava em demasiado mau estado, a peça tem lugar noutros espaços do edifício e Malle não adota o ponto de vista de um espectador de teatro, põe a câmara em movimento e usa com mestria a escala de planos. Peter Brook declarou que VANYA ON 42nd STREET “é um filme essencial na história da maneira de representar, uma verdadeira encruzilhada em tudo o que refere as relações entre o palco e o cinema”