Talvez não tenha havido no cinema europeu, pelo menos desde Anna Magnani, uma atriz com tamanha força elegíaca. Uma intensidade dramática como que esculpida no rosto, na pose e nos gestos calculados, eivados de gravitas. Irene Papas (1929-2022) corporizou o legado clássico do teatro no cinema, transformando a sua carreira numa permanente conquista de novas terras e novos mares, mas sem nunca trair as raízes gregas. É justo o epíteto de maior atriz mediterrânica, já que trabalhou na sua Grécia materna, adaptando as tragédias gregas que os seus pais, ambos professores, lhe ensinaram a amar, nomeadamente protagonizando, pela mão de Michael Cacoyannis, entre 1962 e 1976, a Trilogia de Eurípedes, ao passo que em Itália, uma espécie de “segundo país” para a atriz, colaborou com Alberto Lattuada, Elio Petri, Mario Monicelli e Riccardo Freda, só para citar alguns exemplos. Com o produtor e realizador líbio Moustapha Akkad percorreu a história do Islão no Magrebe, em produções de grande monta, THE MESSAGE e LION OF THE DESERT, contracenando em ambos com Anthony Quinn. E, claro, em Portugal, dirigida por Manoel de Oliveira, participou em três filmes: PARTY, INQUIETUDE e fez desaguar a sua longa viagem no cinema em UM FILME FALADO, conclusão de carreira muito lógica, por se tratar de uma obra que navega pela história europeia ligada ao Mediterrâneo, “a matriz da civilização de que vivemos os dias finais”, como lhe chamou João Bénard da Costa.

Acompanhou a carreira do compatriota Costa-Gavras em França, tendo coprotagonizado, ao lado de Yves Montand e Jean-Louis Trintignant, o thriller político Z, mas, antes disso, beneficiou do convite de Cacoyannis para entrar no clássico, de produção internacional, ZORBA THE GREEK, com Anthony Quinn, ator com quem contracenara pela primeira vez no filme de aventuras da Segunda Guerra Mundial, ambientado na Grécia, THE GUNS OF NAVARONE, ainda com Gregory Peck e David Niven no elenco. Do outro lado do Atlântico, desta feita no México, destaca-se também a sua participação na adaptação de um conto de Gabriel García Márquez pelo cineasta luso-brasileiro Ruy Guerra, ERENDIRA, no papel de uma avó que explora a neta por causa dos seus “poderes místicos”.

Todos estes filmes contribuíram para a projeção de Papas no panorama internacional, dando conta da sua versatilidade consubstanciada numa grande disponibilidade para testar línguas, linguagens e paisagens diferentes a cada novo passo que dava. Explicou o seu “ecletismo” da seguinte forma: “gosto de fazer toda a gama de teatro e, se estiver nas minhas mãos, todas as formas de expressão artística. A alma de uma pessoa é multidimensional. E a arte não tem, como a sociedade, as suas hierarquias estabelecidas. A arte é um país sem classes.” De NAVARONE a Oliveira, Papas percorreu o mundo, carregando consigo, no rosto e na pose, a elegância e a solenidade do espírito helénico.


Quarta-feira [02] 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro

ERENDIRA

de Ruy Guerra
com Irene Papas, Claudia Ohana, Michael Londsdale, Oliver Wehe
México, França, Alemanha, 1982 – 100 min / legendado em francês | M/16

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Com ERENDIRA, Ruy Guerra dava início a uma nova fase da sua obra, substituindo os argumentos originais por adaptações literárias. ERENDIRA adapta fielmente o espírito e a letra de uma novela de Gabriel García Márquez, procurando um equivalente cinematográfico para o chamado “realismo mágico” literário. O filme constituiu o começo de uma colaboração artística que se tornaria regular entre o escritor e o realizador. Irene Papas interpreta a “avó desalmada” (como é descrita no subtítulo da novela) da personagem-título.


Quarta-feira [02] 19h30 | Sala Luís de Pina

UM FILME FALADO

de Manoel de Oliveira
com Leonor Silveira, Catherine Deneuve, Irene Papas, Stefania Sandrelli, John Malkovich
Portugal, França, 2003 – 96 min / legendado em português | M/12

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Uma das atrizes fetiche de Oliveira, Leonor Silveira, rodeada por outros nomes de eleição da sua “família” cinematográfica – John Malkovich, Catherine Deneuve, Irene Papas, a que se junta, aqui, Stefania Sandrelli, reunidos numa viagem às origens da civilização pelo Mediterrâneo.


Quarta-feira [02] 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Sexta-feira [04] 19h30 | Sala Luís de Pina

ZORBA THE GREEK

Zorba, o Grego
de Michael Cacoyannis
com Anthony Quinn, Alan Bates, Lila Kedrova, Irene Papas
Estados Unidos, Grécia, 1964 – 146 min / legendado eletronicamente em português | M/12

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Um dos maiores êxitos de bilheteira dos anos sessenta. Zorba, o camponês grego, pletórico de vida, símbolo de um povo criado pelo escritor Nikos Kazantzakis, tornou-se a personagem arquetípica de Anthony Quinn, que voltou a interpretá-la 20 anos depois num musical da Broadway. A fabulosa fotografia a preto e branco de Walter Lassally ganhou um Oscar, assim como Lila Kedrova no papel da prostituta moribunda. Música de Mikis Theodorakis. A apresentar em cópia digital.


Sábado [05] 19h30 | Sala Luís de Pina

PARTY

de Manoel de Oliveira
com Irene Papas, Michel Piccoli, Leonor Silveira, Rogério Samora
Portugal, França, 1996 – 93 min / legendado em português | M/12

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Durante a festa do décimo aniversário de casamento, um casal encontra um outro casal mais velho, com o qual se entrega a um estranho jogo de sedução, que é mais pela posse das almas do que pela dos corpos. A grande comédia humana num confronto em que se escalpelizam as suas paixões e desejos. Diálogos de Agustina Bessa-Luís.


Segunda-feira [07] 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro

LE FARÒ DA PADRE

La Bambina – Uma Nova Forma de Amor
de Alberto Lattuada
com Gigi Proietti, Teresa Ann Savoy, Irene Papas, Isa Miranda
Itália, 1974 – 107 min / legendado em português | M/12

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Um empresário ambicioso à procura de capital para uma estância de férias, compromete-se a casar com a filha de uma viúva rica. Mas a jovem sofre de perturbações mentais e o homem planeia fazê-la raptar e violar para se libertar do compromisso. Lattuada de novo às voltas com o sul da Itália e com vetustos códigos de honra.


Segunda-feira [07] 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro

INQUIETUDE

de Manoel de Oliveira
com José Pinto, Luis Miguel Cintra, Isabel Ruth, Leonor Silveira, Irene Papas, Ricardo Trêpa, Leonor Baldaque
Portugal, França, Espanha, Suíça, 1998 – 114 min | M/12

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Aparentemente construído em sketches, INQUIETUDE é um filme surpreendente em que os diferentes episódios comunicam entre si de forma original. A peça Os Imortais, de Prista Monteiro, em que José Pinto e Luis Miguel Cintra se enfrentam, revela-se uma encenação a que assiste a personagem de Suzy, na segunda história, adaptada de António Patrício, da qual surge, como um rio, a narrativa lendária da Mãe de um Rio, escrita por Agustina Bessa-Luís e interpretada por Irene Papas.


Terça-feira [22] 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Quarta-feira [30] 15h30 |Sala M. Félix Ribeiro

ILEKTRA

“Electra”
de Michael Cacoyannis
com Irene Papas, Giannis Fertis, Aleka Katselli
Grécia, 1962 – 110 min / legendado eletronicamente em português | M/12

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Possivelmente a melhor adaptação ao cinema da famosa tragédia grega, com Irene Papas na figura de Elektra que, com o irmão Orestes, vinga o assassinato do pai Agamenon pela mulher Clitemnestra e o amante Egisto.

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