“O cinema tem uma história. Dos irmãos Lumière, que encenavam o «real», a Méliès, que encenava a «fantasia», as imagens movem-se diante de nós há muito mais de um século. Estes filmes, que agora vos proponho em ordem cronológica da sua existência são os que a cada momento me abalaram e construíram o meu desejo de cinema, ajudando o meu modo de filmar. E tantos que eu tenho de deixar injustamente de lado, que a lista é extensa. Infelizmente hoje, neste combate sem tréguas entre «arte» e negócio, ganhou o dinheiro. Se a memória existe, vamos a ela, para que não se perca tudo. Viva o cinema!” (João Botelho).


Sexta-feira [02] 21:30 | Sala M. Félix Ribeiro

WAY DOWN EAST

As Duas Tormentas
de D.W. Griffith
com Lillian Gish, Richard Barthelmess, Mrs. David Landau, Lowell Sherman
Estados Unidos, 1920 – 148 min / mudo, intertítulos em inglês legendados eletronicamente em português | M/12

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Uma das grandes obras-primas de Griffith e do cinema mudo, realizada no apogeu da arte do realizador, filmada em cenários naturais, longe de Hollywood. Um argumento extremamente vitoriano (uma mãe solteira, um rapaz que se apaixona por ela) resultou num filme poderoso, que justifica o comentário de Léon Moussinac, nos anos 20: ”Com Griffith, o “fait-divers” eleva-se à altura da tragédia”. As sequências finais da tempestade de neve e da salvação de Lillian Gish são inesquecíveis e influenciariam Pudovkine na sua obra-prima, A MÃE, realizada em 1926.


Segunda-feira [05] 19:00 | Sala M. Félix Ribeiro

THE NAVIGATOR

O Navegante
de Buster Keaton e Donald Crisp
com Buster Keaton, Kathryn McGuire, Frederick Vroon
Estados Unidos, 1924 – 60 min / intertítulos em inglês legendados electronicamente em português | M/6

com acompanhamento ao piano por Filipe Raposo

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THE NAVIGATOR foi realizado no período em que Buster Keaton fez as suas maiores obras-primas e, segundo alguns testemunhos, era o seu filme preferido. Desta vez, Buster é um ricaço que, ao cabo de algumas peripécias, vai parar a um navio, no alto mar, cuja única passageira é uma jovem. Como sempre no cinema de Buster Keaton, grande parte do humor vem da luta permanente entre o protagonista e os objetos, que podem não ser menos perigosos do que os canibais que habitam a ilha onde o navio acaba por chegar.


Terça-feira [06] 21:30 | Sala M. Félix Ribeiro

YOUNG MR. LINCOLN

A Grande Esperança
de John Ford
com Henry Fonda, Alice Brady, Marjorie Weaver, Donald Meek, Ward Bond
Estados Unidos, 1939 – 100 min / legendado em português | M/12

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Inspirando-se num episódio da vida de Abraham Lincoln no começo da sua carreira de advogado, John Ford dirige um dos filmes maiores da sua obra e um dos mais pessoais, com uma visão bastante peculiar da História. Para alguns esta é a sua obra-prima absoluta. Eisenstein referiu-se a YOUNG MR. LINCOLN como o filme que gostaria de ter feito.


Quarta-feira [07] 19:00 | Sala M. Félix Ribeiro

BLACK NARCISSUS

Quando os Sinos Dobram
de Michael Powell, Emeric Pressburger
com Deborah Kerr, Sabu, Jean Simmons, Flora Robson
Reino Unido, 1946 – 99 min / legendado em português | M/12

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O mais demencial dos filmes de Powell e Pressburger, perturbante interrogação sobre a influência que um lugar exerce sobre as pessoas que o habitam, neste caso um grupo de freiras numa isolada mansão dos Himalaias transformada em convento. Um clima denso e sensual (reforçado por uma deslumbrante fotografia a cores e magníficos cenários de estúdio) que, a pouco e pouco, vai desequilibrando as personagens até as colocar à beira da loucura.


Quinta-feira [08] 15:30 | Sala M. Félix Ribeiro

THE RIVER

O Rio Sagrado
de Jean Renoir
com Adrienne Corri, Patricia Walter, Nora Swinburne, Radha Shri Ran, Esmond Knight
França, Índia, Estados Unidos, 1951 – 99 min / legendado eletronicamente em português | M/12

The River

THE RIVER marca o início da fase final da carreira de Renoir. Filmado na Índia, a cores, o filme conta a história de uma família inglesa e a “ação” resume-se ao facto de nascer, morrer e amar pela primeira vez. O rio do título é ao mesmo tempo físico (o Ganges) e metafísico (a vida, o tempo). Um dos filmes mais celebrados de Renoir, imbuído de uma grande serenidade.


Sábado [10] 21:30 | Sala M. Félix Ribeiro

TOKYO MONOGATARI 

Viagem a Tóquio
de Yasujiro Ozu
com Chishu Ryu, Chieko Higashiyama, Setsuko Hara
Japão, 1953 ­‑ 135 min / legendado em português | M/12

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Este foi o filme através do qual os espectadores ocidentais descobriram tardiamente o cinema de Ozu, em meados dos anos 70. Um casal idoso vai visitar os filhos em Tóquio, mas estes não têm tempo para lhes dar atenção. Este é o pretexto para Ozu abordar o tema central do seu cinema na fase final da sua obra, a dissolução de uma família, a separação dos membros que a compõem, a resignação diante daquilo que muda. Um momento sublime de cinema, um cineasta no apogeu da sua arte. A apresentar em cópia digital.


Segunda-feira [12] 21:30 | Sala M. Félix Ribeiro

VIAGGIO IN ITALIA

Viagem em Itália
de Roberto Rossellini
com Ingrid Bergman, George Sanders, Maria Mauban, Anna Proclemer
Itália, 1953-1954 – 84 min / legendado em português | M/12

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VIAGGIO IN ITALIA é muito possivelmente o filme maior de Roberto Rossellini. A crise de um casal numa viagem por Itália, a perda e a reconquista da fé, que é o milagre interior que acompanha aquele a que o par assiste durante uma procissão. O filme que, como escreveu Jacques Rivette na sua célebre Lettre sur Rossellini, abriu “uma brecha por onde todo o cinema moderno deve obrigatoriamente passar”. A apresentar em cópia digital.


Terça-feira [13] 21:30 | Sala M. Félix Ribeiro

PICKPOCKET

O Carteirista
de Robert Bresson
com Martin Lassalle, Marika Green, Pierre Leymarie
França, 1959 – 74 min / legendado em português | M/12

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PICKPOCKET, obra-prima de Robert Bresson, é o filme em que o seu estilo peculiar se afirma de modo definitivo. O seu filme mais austero e depurado, mas também o mais misterioso, feito essencialmente de gestos, os gestos do carteirista como metáfora de todos os gestos de posse e de revolta. Mas também de amor, que a personagem descobrirá ao fim de um doloroso percurso.


Quarta-feira [14] 15:30 | Sala M. Félix Ribeiro

NORTH BY NORTHWEST

Intriga Internacional
de Alfred Hitchcock
com Cary Grant, Eva Marie Saint, James Mason, Leo G. Carroll
Estados Unidos, 1959 – 136 min / legendado em português | M/12

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NORTH BY NORTHWEST, um dos filmes mais célebres de Hitchcock, é um prodígio de construção de suspense, com algumas das cenas mais famosas do mestre (a perseguição do avião, a corrida no monte Rushmore). O filme também é um autêntico repositório de todos os seus temas e obsessões, de todos os seus “jogos” e alusões eróticas e da exploração do tema do “falso culpado”, que está no cerne da sua obra.


Sexta-feira [16] 21:30 | Sala M. Félix Ribeiro

EL ÁNGEL EXTERMINADOR

O Anjo Exterminador
de Luis Buñuel
com Claudio Brook, Enrique Rambal, Jacqueline Andere, Silvia Pinal
México, Espanha, 1962 – 92 min / legendado em português | M/12

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A melhor explicação para EL ÁNGEL EXTERMINADOR é que, racionalmente, não tem nenhuma”. Assim “explica” Luis Buñuel a sua obra-prima e o penúltimo filme que dirigiu no México, fábula feroz sobre a burguesia presa dos seus conceitos, preconceitos e ideias feitas, onde um grupo de pessoas é misteriosamente impedido de sair de um jantar. A apresentar em cópia digital.


Segunda-feira [19] 22:00 | Sala M. Félix Ribeiro

CHRONIK DER ANNA MAGDALENA BACH

A Pequena Crónica de Anna Magdalena Bach
de Jean-Marie Straub
com Gustav Leonhardt, Christiane Lang
República Federal da Alemanha, 1967-68 – 93 min / legendado em português | M/12

3-CHRONIK DER ANNA MAGDALENA BACH

Primeira longa-metragem de Jean-Marie Straub, que assinou o filme sozinho e não em parceria com Danièle Huillet. O filme foi recebido com uma gigantesca pateada no Festival de Berlim, mas tornou o nome de Straub conhecido internacionalmente. Ao filmar uma história de amor que não se parece com nenhuma outra (uma mulher fala do marido que amou até à morte), o realizador fez com que verdadeiros músicos executassem a música de Bach em som direto, o que era uma novidade absoluta e um exemplo que não foi seguido por muitos. Por isto, “a música de Bach não é um acompanhamento nem um comentário, mas a matéria-prima” do filme.


Segunda-feira [26] 15:30 | Sala M. Félix Ribeiro

AMARCORD

Amarcord
de Federico Fellini
com Bruno Zanin Magali Noel, Pupella Maggio
Itália, 1973 –  127 min / legendado em português | M/12

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AMARCORD é o filme que reconcilia todos os espectadores à volta de Fellini: os que apreciam a sua obra e os que não a apreciam, os que gostam do seu primeiro período e os que preferem os filmes que realizou nos anos 60 e que uma fórmula jornalística definiu como “barrocos”. As novas gerações recebem o filme com o mesmo prazer do que aqueles que o viram quando este foi distribuído. “Recordo-me” é o que quer dizer a expressão que dá o título a um dos mais belos filmes de Fellini, que é uma incursão na memória, com imagens transfiguradas pela distância e pela imaginação poética da infância do realizador, com a presença dos personagens singulares que ressuscitam a cada um dos seus filmes.


Terça-feira [27] 15:00 | Sala M. Félix Ribeiro

AMOR DE PERDIÇÃO

de Manoel de Oliveira
com Cristina Hauser, António Sequeira Lopes, Elsa Wallenkamp, Ruy Furtado
Portugal, 1978 – 261 min | M/12

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O Amor de Perdição de Camilo Castelo Branco por Manoel de Oliveira, num dos seus mais extraordinários filmes, realizado com imensas dificuldades. Foi este filme que tornou internacionalmente conhecido o nome de Manoel de Oliveira, ao ser apresentado em Paris na Semana dos Cahiers du Cinéma e fez com que ele começasse, aos setenta anos, uma nova e prolífica carreira. A adaptação de Oliveira respeita o texto de Camilo quase na íntegra. “AMOR DE PERDIÇÃO é um dos filmes mais espetaculares que existem no sentido mais genuíno da palavra.  A cada elemento narrativo é permitido o seu próprio espetáculo, fugindo ao hábito de pô-los de acordo, dissolvidos no espetáculo global. É pois o próprio cinema que aqui se exibe cinematograficamente ao encenar-se deste modo a própria representação. E a tensão, ao longo de quatro horas de filme nunca cessa de se adensar até ao despedaçamento dos seres” (José Navarro de Andrade).


Quarta-feira [27] 21:30 | Sala M. Félix Ribeiro

PASSION, LE TRAVAIL ET L’AMOUR: INTRODUCTION À UN SCÉNARIO, OU TROISIÈME ÉTAT DU SCÉNARIO DU FILM PASSION

de Jean-Luc Godard
com Jean-Luc Godard e os atores de PASSION
Suíça, 1982 – 54 minutos / legendado eletronicamente em português

JLG PAR JLG

de Jean Luc Godard
com Jean-Luc Godard, Geneviève Pasquier, Denis Jadot
França, 1994 – 62 min / legendado em português

duração total da projeção: 116 min | M/12

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PASSION foi o segundo filme realizado por Godard depois do seu regresso aos circuitos comerciais no anterior, com SAUVE QUI PEUT (LA VIE). Na sequência do filme, Godard realizou um documentário SCÉNARIO DU FILM PASSION e um ensaio INTRODUCTION AU SCÉNARIO DU FILM PASSION, que permanece uma das suas obras menos vistas e comentadas. Quando o filme foi apresentado na Cinemateca, no longínquo ano de 1985, João Lopes observou: “Quase sempre esperamos dos cineastas que nos digam o que está nos seus filmes, que nos decifrem o que para nós permanece obscuro. Godard sempre foi alguém com muito para dizer sobre os seus filmes, antes e depois deles. Assim acontece com este modo peculiar de reescrever a memória de PASSION. O projeto é muito simples: descrever como o cineasta viu, não as imagens do seu filme, mas o argumento”. Em JLG/JLG, “Auto-retrato em Dezembro”, Godard encena a sua própria solidão, a partir do local escolhido para o seu exílio voluntário: a sua casa na Suíça. Trata-se de um trabalho de uma beleza assombrosa, feito de uma tristeza pontualmente cortada por assomos luminosos e marcada por uma inquietante lucidez.

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