Ao organizar esta retrospetiva, acompanhada por uma carta branca ao realizador e pela publicação de um catálogo, a Cinemateca Portuguesa torna possível uma visão de conjunto de uma das obras mais vastas do cinema português, que se estende por quarenta anos e reúne, à data de hoje, mais de trinta trabalhos, entre longas e curtas-metragens.

Dez anos mais novo do que João César Monteiro (cujo primeiro filme data de 1969) e dez anos mais velho do que Pedro Costa (cujo primeiro filme data de 1989), João Botelho pertence à geração que chegou ao cinema logo a seguir ao 25 de Abril e, no seu caso pessoal, devido ao 25 de Abril. Embora cinéfilo, ao ponto de passar frugais férias em Paris para devorar filmes na Cinemateca Francesa, João Botelho não se destinava a uma carreira no cinema. Em Abril de 1974, aos vinte e cinco, ele concluía o curso de Engenharia Mecânica no Porto quando a Revolução dos Cravos causou uma revolução na sua vida. Abandonou então os estudos e abalou para Lisboa. Entrou para a Escola de Cinema, “onde ensinaram­‑nos que só havia dois cineastas dignos de interesse: Jean­‑Marie Straub e Jean­‑Luc Godard”. Desde a sua primeira longa­‑metragem, CONVERSA ACABADA (1982), sobre a correspondência entre Fernando Pessoa e Mário de Sá­‑Carneiro,  cujas opções formais são radicais e anticonvencionais, Botelho situa­‑se entre os cineastas do tempo e não do movimento, profundamente convencido de que “o como é mais importante do que o quê”, o que reflete no título deste ciclo, que foi por ele escolhido. Os anos 80, quando Manoel de Oliveira começou tardia e verdadeiramente a sua carreira, foram anos de afirmação do cinema português posterior ao 25 de Abril e também foram anos de afirmação do cinema de João Botelho, com UM ADEUS PORTUGUÊS (o primeiro filme a abordar os efeitos da guerra colonial) e TEMPOS DIFÍCEIS. A especificidade do seu cinema confirma­‑se nos anos 90, quando ele também se diversifica (TRÊS PALMEIRAS, em que a narrativa central é ladeada por narrativas menores, TRÁFICO, uma sátira cruel). Com QUEM ÉS TU?, Botelho buscou a autonomia e além de realizador foi produtor deste filme, o primeiro em que o seu cinema se associa a outras figuras da literatura portuguesa do que Fernando Pessoa, que ele abordara no seu filme de estreia. Depois de Almeida Garrett, Botelho transporá para o cinema textos de Miguel Torga, Agustina Bessa­‑Luís, Eça de Queirós, Fernão Mendes Pinto, José Saramago e Alexandre O’Neill, além de voltar à figura de Fernando Pessoa, com FILME DO DESASSOSSEGO, em que ele filma o “infilmável” Livro do Desassossego. Além destas figuras da literatura (e de incontáveis alusões à pintura), Botelho também prestou homenagem a Manoel de Oliveira, em O CINEMA, MANOEL DE OLIVEIRA E EU, filme que tem algo de um balanço das suas ideias e vivências. Longe de serem ilustrações dos livros que transpõem para o cinema, estes filmes dialogam com a literatura e a História de Portugal, em cuja descendência Botelho insere o seu cinema.

Paralelamente às suas longas­‑metragens e contrariamente à maioria dos cineastas cuja carreira atingiu uma velocidade de cruzeiro, João Botelho realizou a partir de SE A MEMÓRIA EXISTE (1999) uma série de curtas­‑metragens de teor extremamente variado: o 25 de Abril contado a uma criança, incursões ao âmago de certos espaços portugueses, um filme destinado a uma encenação teatral, um passeio pessoano por Lisboa, uma apresentação de Carminho, entre outros. Botelho observa que “uma coisa maravilhosa em Portugal, um luxo de pobres, é que se pode fazer um filme como quem escreve ou quem pinta, mas na verdade é um pouco mais caro” e a vasta e variada obra que ele construiu em quarenta anos é a prova disso. E apesar desta obra vasta e coerente nos diversos períodos que atravessou, o percurso de cineasta de João Botelho está longe de ter chegado ao fim e ele tem diversos filmes em preparação: “Eu não sei fazer filmes policiais franceses ou comédias espanholas, muito menos cinema de entretenimento americano, sei fazer cinema português. Cinema do tempo e não do movimento, da composição e do plano, da luz e das sombras”.

Além da apresentação quase integral da obra de João Botelho (os poucos filmes que ficaram de fora foram por decisão do realizador), este ciclo é completado por uma carta branca a este cineasta cinéfilo, com catorze filmes de mestres do cinema clássico e moderno que fazem parte das suas grandes admirações, realizados entre 1920 (WAY DOWN EAST, de David W. Griffith) e 1994 (JLG Par JLG, de Jean­‑Luc Godard).

Além de cineasta, João Botelho tem uma atividade paralela de gráfico e foi inclusive responsável pela concepção gráfica de três catálogos da Cinemateca (Cem Dias, Cem Filmes; Jean Renoir e Jean­‑Marie Straub/Danièle Huillet). Por este motivo, o grafismo do catálogo que a Cinemateca Portuguesa publica por ocasião deste ciclo é do próprio João Botelho.


Quinta-feira [01] 21:30 | Sala M. Félix Ribeiro

TRÁFICO

de João Botelho
com Rita Blanco, Adriano Luz, Canto e Castro, Maria Emília Correia, São José Lapa
Portugal, 1998 – 110 min | M/12

com a presença de João Botelho

1-trafico

Recebido com alguma irritação à época, TRÁFICO é uma feroz e divertida sátira ao novo-riquismo que assolou Portugal e os portugueses depois da entrada do país para o clube dos ricos da União Europeia. O filme também prefigura a transformação do país num vasto espaço de ócio e especulação com a futura explosão do turismo. Filmado com cores deliberadamente berrantes, longe do tom soturno de tantos filmes portugueses, TRÁFICO tem como fio narrativo central a saga de uma família pequeno-burguesa que fica rica por milagre, ao encontrar um tesouro numa praia onde passa férias. Em paralelo são mostradas diversas vinhetas que mostram uma sociedade onde tudo se trafica e onde os valores puramente mercantis passaram a reinar e na qual não se faz guerra à pobreza mas aos pobres. No filme, são estes que representam os valores “antigos” e a cultura e o filme chega ao fim com dois mendigos, num monturo, a recitarem trechos da Condessa de Ségur.


Sexta-feira [02] 19:30 | Sala Luís de Pina

UM FILME EM FORMA DE ASSIM

de João Botelho
com Pedro Lacerda, Inês Castel-Branco, Cláudio da Silva
Portugal, 2022 – 101 min | M/12

2-umfilme

O dispositivo formal do filme mais recente de Botelho, feito à volta de Alexandre O’Neill (o título joga com o de um livro de contos do escritor, Uma Coisa em Forma de Assim) tem alguma semelhança com o de FILME DO DESASSOSSEGO. A ação deste filme “organizado como um sonho e pensado como um musical”, consiste num périplo noturno por uma Lisboa reconstituída em estúdio, em apenas quatro cenários, em que as aventuras se desdobram e se encadeiam. Todos os diálogos e todas as partes cantadas são tirados da obra de O’Neill, cuja figura Botelho dividiu em alguns heterónimos na sua “tentativa de alcançar parte do que o inalcançável Alexandre O’Neill nos deixou”. Primeira apresentação na Cinemateca.


Sábado [03] 21:30 | Sala M. Félix Ribeiro

ALEXANDRE E ROSA

de João Botelho e Jorge Alves da Silva
com Luís Lucas, Teresa Madruga, João Perry
Portugal, 1978 – 20 min

CONVERSA ACABADA

de João Botelho
com Fernando Cabral Martins, André Gomes, Jorge Silva Melo, Juliet Berto
Portugal, 1981 – 104 min

duração total da projeção: 124 minutos | M/12

3-Conversa-Acabada
CONVERSA ACABADA

Depois de realizar para a televisão, em 1976, três documentários de curta-metragem que não quis incluir nesta retrospetiva (OS BONECOS DE SANTO ALEIXO, UM PROJETO DE EDUCAÇÃO POPULAR e O ALTO DO COBRE), João Botelho correalizou ALEXANDRE E ROSA com Jorge Alves da Silva. Rodado no Porto, o filme tem uma narrativa de fundo policial e também marca a estreia no cinema de Luís Lucas e Teresa Madruga nos papéis principais. CONVERSA ACABADA assinala a verdadeira estreia de Botelho no cinema, no momento em que o reconhecimento do trabalho de Manoel de Oliveira abrira possibilidades para a existência de um cinema português exigente, baseado na palavra e não na narração de uma “história”. Inicialmente previsto como um documentário sobre a correspondência entre Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, o filme transformou-se em algo totalmente diverso. À exceção de alguns planos feitos nas ruas de Lisboa e de Paris, tudo foi feito em estúdio e em planos fixos, com os atores a dizerem os textos das cartas diante de uma grande tela sobre a qual são projetadas variadas imagens.


Segunda-feira [05] 21:30 | Sala M. Félix Ribeiro

O SOM DA PRATA

Portugal, 2015 – 5 min

UM ADEUS PORTUGUÊS

de João Botelho
com Isabel de Castro, Ruy Furtado, Maria Cabral, Fernando Heitor
Portugal, 1985 – 85 min

duração total da projeção: 90 minutos | M/12

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UM ADEUS PORTUGUÊS

O SOM DA PRATA resultou de uma encomenda da marca Topázio a João Botelho para filmar a fábrica onde a arte e o design da prata ganham forma pela mão dos seus artesãos. Os efeitos da Guerra Colonial naquele que foi o primeiro filme português a abordar este tema, dez anos depois da libertação das ex-colónias. Estas marcas são dadas pela ausência de um soldado morto na guerra, através de um reencontro familiar doze anos passados sobre a sua morte. Por detrás da cortesia, as pessoas nada têm a dizer umas às outras. Com sequências a preto e branco na África portuguesa em 1973 e sequências a cores em Portugal em 1985, a segunda longa-metragem de João Botelho é uma história de guerra e também de resignação e fatalismo.


Terça-feira [06] 19:00 | Sala M. Félix Ribeiro

TEMPOS DIFÍCEIS

de João Botelho
com Luís Estrela, Julia Britton, Isabel de Castro, Ruy Furtado, Inês de Medeiros
Portugal, 1988 – 95 min | M/12

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Na sua terceira longa-metragem, João Botelho adaptou o romance homónimo de Charles Dickens, transpondo-o para a realidade portuguesa. Num lugarejo, o Poço do Mundo, que é um microcosmo social, convivem a riqueza e a pobreza mais extremas, a cultura e a ignorância, a perversidade e a inocência. De Dickens a Botelho, o filtro é de David W. Griffith, com um rosto feminino, Julia Britton, que parece saído de um dos melodramas do mestre americano. Depois de rever muitos filmes clássicos na fase de preparação da rodagem, Botelho decidiu-se por uma imagem naquele estilo e Elso Roque conseguiu, nas palavras do realizador, “uma fotografia magnífica, com um preto e branco clássico, chiaroscuro e profundidade”.


Quarta-feira [07] 21:30 | Sala M. Félix Ribeiro

NO DIA DOS MEUS ANOS

de João Botelho
com Jessica Weiss, João Lagarto, André Costa, Madalena Rodrigues
Portugal, 1988 – 65 min

TRÊS PALMEIRAS

de João Botelho
com Teresa Roby, Pedro Hestnes, Rita Lopes Alves, Isabel de Castro, Canto e Castro
Portugal, 1994 – 67 min

duração total da projeção: 132 min | M/12

3-palmeiras
TRÊS PALMEIRAS

NO DIA DOS MEUS ANOS faz parte de um filme em episódios, um “género” muito frequente no cinema europeu nos anos 60 e 70, tendo como tema condutor os quatro elementos. João César Monteiro ilustrou a água, Joaquim Pinto o fogo, João Mário Grilo a terra e João Botelho o ar. O realizador explica que “este não era o meu elemento preferido, teria preferido a terra, mas o ar dava-me mais luta”, o que era vantajoso para um cineasta que não gosta da facilidade. Como em outros filmes de Botelho deste período, à volta de uma história central há outras histórias, pontuadas pela presença constante do mais impalpável dos elementos, o ar. TRÊS PALMEIRAS também fez parte de um filme em episódios (os outros dois foram realizados por Edgar Pêra e Eduardo Guedes), 24 HORAS, em que cada episódio cobre um período de oito horas em Lisboa. À volta de uma história central (um casal, em que a mulher está prestes a dar à luz), Botelho mostra diversas vinhetas lisboetas em várias tonalidades cinematográficas, inclusive um trecho musical. Depois do desenlace, o filme tem um surpreendente epílogo a preto e branco.


Quinta-feira [08] 21:30 | Sala M. Félix Ribeiro

AQUI NA TERRA

de João Botelho
com Luis Miguel Cintra, Pedro Hestnes, Isabel de Castro, Jessica Weiss, Rita Dias
Portugal, 1993 – 115 min | M/12

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AQUI NA TERRA

Duas histórias que se passam “aqui na Terra”, se bem que em lugares opostos. Uma história urbana, sobre um economista que depois da morte do pai entra “num labirinto de medos, barulhos e solidão absoluta” até encontrar “uma luz – a Luz que o faz vacilar e cair numa vertigem irremediável”. E uma história rural, algures em terras altas, onde dois jovens vivem um crime e a sua expiação. Luis Miguel Cintra é o protagonista da primeira delas, no filme do seu encontro com João Botelho. Cabe-lhe o papel do Miguel economista lisboeta de sucesso em momento depressivo com manifestações físicas alucinatórias.


Sexta-feira [09] 19:30 | Sala Luís de Pina

QUEM ÉS TU?

de João Botelho
com Patrícia Guerreiro, Suzana Borges, Rui Morrison, Rogério Samora
Portugal, 2001 – 112 min | M/12

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Produzido pelo próprio Botelho, QUEM ÉS TU? é baseado em Frei Luís de Sousa de Almeida Garrett, precedido por um prólogo, Sonhos e Pesadelos Sebastianistas.  Inteiramente feito em espaços interiores, à exceção de um plano que evoca a batalha de Alcácer-Quibir, repleto de alusões à pintura na sua magnífica imagem em chiaroscuro, este é um filme da palavra e esta foi muito trabalhada pelos atores, porém sem a pompa de um teatro oficial. O filme revisita o mito do sebastianismo, que Botelho define como “uma abdicação da História e uma prova póstuma da nacionalidade” e o texto de Garrett o atraiu porque “nele está a ideia de Portugal, que é a única que me interessa”. QUEM ÉS TU? não é visto na Cinemateca desde o longínquo ano de 2008.


Segunda-feira [12] 19:30 | Sala Luís de Pina

SE A MEMÓRIA EXISTE

de João Botelho
com as presenças de Joana Botelho, Vasco Gonçalves, Otelo Saraiva de Carvalho, Vasco Lourenço
Portugal, 1999 – 25 min

A LUZ DA RIA FORMOSA

de João Botelho
Portugal, 2005 – 50 min

VIAGEM AO CORAÇÃO DO DOURO, A TERRA ONDE NASCI

de João Botelho
Portugal, 2002 – 30 min

duração total da projeção: 105 min | M/12

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SE A MEMÓRIA EXISTE

Realizado por ocasião do 25º aniversário do 25 de Abril, SE A MEMÓRIA EXISTE aborda o tema da memória coletiva, a memória da História e o risco permanente da sua deformação e do seu desaparecimento. Cada um por sua vez, diversos Capitães de Abril contam a uma criança de sete anos “como era” Portugal antes daquela data. O tom falsamente ingénuo do filme põe cada espectador na posição da criança que não sabe aquilo que tem a obrigação de saber. Embora separados por três anos, os dois filmes-ensaio que completam a sessão formam um díptico, tendo por tema central respetivamente a luz e a pedra. Em A LUZ DA RIA FORMOSA Botelho não se limita a prestar homenagem a uma região, também evoca outra luz, a do conhecimento, através da leitura de uma carta de Séneca ao seu discípulo Lucílio, sobre a necessidade de ler e escrever. VIAGEM AO CORAÇÃO DO DOURO, A TERRA ONDE NASCI mistura lembranças da infância do realizador, impressões de viagem e textos de diversos autores que cantaram “este rio demente” e os homens que à custa de enorme trabalho fizeram ali nascer o vinho. A LUZ DA RIA FORMOSA e VIAGEM AO CORAÇÃO DO DOURO… são apresentados na Cinemateca pela primeira vez.


Terça-feira [13] 19:00 | Sala M. Félix Ribeiro

A MULHER QUE ACREDITAVA SER PRESIDENTE DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA

de João Botelho
com Alexandra Lencastre, Rita Blanco, Laura Soveral
Portugal, 2003 – 114 min | M/12

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Com um elenco exclusivamente feminino, A MULHER QUE ACREDITAVA SER PRESIDENTE DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA forma uma espécie de díptico com TRÁFICO, na medida em que também é uma sátira filmada com cores berrantes. Mas aqui a fantasia é mais desabrida, pois, não se contentando em ser loira e devota do consumismo à americana, a protagonista, uma pequeno-burguesa lisboeta, sonha que é presidente do país mais poderoso do mundo. Botelho desenvolve com imaginação e fantasia uma fábula sobre o poder, os seus perigos e os seus ridículos, num filme que com o passar dos anos tornou-se premonitório. Primeira apresentação na Cinemateca.


Quarta-feira [14] 19:30 | Sala Luís de Pina

O FATALISTA

de João Botelho
com Rogério Samora, André Gomes, Rita Blanco, Patrícia Guerreiro, Teresa Madruga
Portugal, 2005 – 102 min | M/12

7-fatalista

O FATALISTA adapta para o Portugal do século XXI o romance Jacques Le Fataliste de Denis Diderot, uma das grandes figuras do Iluminismo do século XVIII, filósofo, enciclopedista, romancista e dramaturgo. No romance (do qual um dos episódios foi adaptado por Robert Bresson em LES DAMES DU BOIS DE BOULOGNE), cuja narrativa é constantemente interrompida por comentários e digressões, o protagonista, o criado Jacques, que é fatalista (“tudo o que acontece estava escrito lá em cima”), viaja com o seu patrão por diversas regiões e cada peripécia é objeto de comentários e reflexões. No filme, a situação é a mesma, numa narrativa on the road, em que se destaca o episódio com Mme. de la Pommeraye, o mesmo que foi filmado por Bresson.


Quinta-feira [15] 19:30 | Sala Luís de Pina

A TERRA ANTES DO CÉU

de João Botelho
com José Pinto
Portugal, 2007 – 60 min

PARA QUE ESTE MUNDO NÃO ACABE!

de João Botelho
com Marcello Urgeghe, Maria Archer, João Poças
Portugal, 2009 – 54 min

duração total da projeção: 114 min | M/12

12-A-Terra-antes-do-Céu
A TERRA ANTES DO CÉU

Esta sessão reúne as duas primeiras partes do que veio a ser uma trilogia sobre Trás-os-Montes (sendo a terceira formada por ANQUANTO LA LHÉNGUA FUR CANTADA). A TERRA ANTES DO CÉU presta homenagem a Miguel Torga, que em Portugal definiu Trás-os-Montes como “um reino maravilhoso”. Torga surge com a figura de José Pinto e Botelho filma o trabalho de alguns compositores que puseram em música textos seus e também “a alma das pedras e dos montes e os olhos dos homens e dos animais que Torga inventa”. Botelho descreve PARA QUE ESTE MUNDO NÃO ACABE! como um filme sobre “um território de picos agrestes e vales férteis, de climas extremos, habitados por dramáticas gentes que transportaram até hoje saberes, costumes e comportamentos comunitários notáveis e únicos”. Primeiras apresentações na Cinemateca.


Sexta-feira [16] 15:30 | Sala M. Félix Ribeiro

A CORTE DO NORTE

de João Botelho
com Ana Moreira, Ricardo Aibéo, Rogério Samora, Laura Soveral
Portugal, 2008 – 122 min | M/12

7-A CORTE DO NORTE

A adaptação do romance epónimo de Agustina Bessa-Luís era um projeto de José Álvaro de Morais, que faleceu antes de poder levá-lo a cabo. João Botelho retomou o projeto e alterou substancialmente o argumento de modo a reduzir os custos de produção. Esta também foi a sua primeira longa-metragem filmada em suporte digital e a fotografia de João Ribeiro é magistral. Situado na Madeira num período de cem anos, de meados do século XIX a meados do século XX, o filme acompanha uma mulher que busca a verdade sobre várias gerações de mulheres da sua família e os seus amores frustrados. Todas estas personagens,  num total de sete, são representadas por Ana Moreira. Realizado com grande apuro visual e repleto de referências à pintura, A CORTE DO NORTE tem uma estrutura narrativa mais “clássica” do que os filmes realizados até então por Botelho.


Sexta-feira [16] 19:30 | Sala Luís de Pina

OH LISBOA MEU LAR

com Fernando Cabral Martins, Constança Villaverde Rosado, Graciano Dias
Portugal, 2010 – 22 min

ANQUANTO LA LHÉNGUA FUR CANTADA

com Catarina Wallenstein, Gabriel Gomes
Portugal, 2012 –  50 min

LA VALSE

com Nuno Vieira de Almeida, Joana Gama, João Ricardo, Maria Tengarrinha
de João Botelho
Portugal, 2014 – 22 min

duração total da projeção: 94 min | M/12

14-la valse
LA VALSE

O programa desta sessão ilustra a variedade do trabalho recente de João Botelho no domínio da não-ficção. Em OH LISBOA MEU LAR seguimos o percurso do famigerado elétrico 28, da Graça ao Cemitério dos Prazeres, percorrendo diversos sítios ligados a Fernando Pessoa em Lisboa. Num gesto autorreferencial, Fernando Cabral Martins, que encarnara Pessoa na primeira longa-metragem de Botelho (CONVERSA ACABADA), segue este percurso, como um espectro do poeta. ANQUANTO LA LHÉNGUA FUR CANTADA é um filme sobre o mirandês, mais exatamente sobre canções mirandesas, partindo da ideia contida no título: uma língua não morre enquanto for cantada, mesmo que seja pouco falada. LA VALSE foi realizado em colaboração com a Companhia Nacional de Bailado, a partir de uma coreografia de Paulo Ribeiro para o poema coreográfico epónimo composto por Maurice Ravel em 1920 como uma homenagem e um epitáfio à Viena que precedeu a Primeira Guerra Mundial. A gravação utilizada é a de Pedro de Freitas Branco, que colaborou pessoalmente com Ravel. Mantendo-se fiel à ideia de Ravel sobre a decadência da Europa naquele período, a coreografia transpõe a ação para a atualidade. Primeiras apresentações na Cinemateca.


Sábado [17] 19:30 | Sala Luís de Pina

NOS CAMPOS EM VOLTA

com Margarida Vila-Nova
Portugal, 2015 – 12 min

CARMINHO NO LUX

de João Botelho
Portugal, 2011 – 43 min

duração total da projeção: 55 min | M/12

15-NOS CAMPOS EM VOLTA
NOS CAMPOS EM VOLTA

NOS CAMPOS EM VOLTA “escava” os campos em volta de Serpa, em busca de vestígios das sucessivas civilizações que habitaram aquela planície fértil nas margens do antigo Ana (hoje, Guadiana). CARMINHO NO LUX fixa um recital de Carminho, que teve lugar apenas uma vez e no qual o realizador e a cantora buscaram “a verdade do fado”. O cenário é composto por três ilhas onde a cantora e os seus músicos (Diogo Clemente, Luís Guerreiro, José Manuel Neto) se apresentam, cercados de público por todos os lados, além de projeções com imagens captadas em direto. Primeiras apresentações na Cinemateca.


Terça-feira [20] 19:00 | Sala M. Félix Ribeiro

FILME DO DESASSOSSEGO

de João Botelho
com Cláudio da Silva, Pedro Lamares, Catarina Wallenstein, Ricardo Aibéo
Portugal, 2010 – 90 min | M/12

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Uma das propostas mais ousadas e mais conseguidas da obra de João Botelho. 28 anos depois de CONVERSA ACABADA, ele volta a Fernando Pessoa, porém numa ótica muito diferente, quase “narrativa”, que acarreta o envolvimento emocional do espectador. Tudo começa num bar na Lisboa do século XXI, onde se cruzam Fernando Pessoa e o seu heterónimo Bernardo Soares. A partir daí o filme é um périplo, sobretudo noturno pela Lisboa contemporânea, a partir do Livro do Desassossego, a série de magníficos fragmentos em prosa de Pessoa, que só foi revelada ao público em 1982. Todos os diálogos e monólogos do filme são extraídos do livro e a sua sobreposição às vivências quotidianas cria um efeito extraordinário neste filme em que o verbo torna-se literalmente matéria. A evocação da literatura e da pintura, tão marcantes no cinema de Botelho, une-se aqui à urgência de saber e viver. Primeira apresentação na Cinemateca.


Quarta-feira [21] | 18:00 | Sala M. Félix Ribeiro

OS MAIAS: CENAS DA VIDA ROMÂNTICA

de João Botelho
com Graciano Dias, Maria Flor, Pedro Inês, João Perry
Portugal, 2014 – 189 min | M/12

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A adaptação da obra-prima de Eça de Queirós por João Botelho (que também elaborou uma versão para a televisão em quatro partes) teve imenso êxito de público e no entanto nada tem de tradicional, é próxima do cinema português dos anos 80 e distante de uma versão académica. Diante da necessidade de condensar um romance tão vasto, Botelho soube fazer muito com pouco e concentrou-se nos dois temas principais do livro, um de teor coletivo e o outro individual: a feroz crítica às elites portuguesas e os amores, que se revelam incestuosos, entre os dois protagonistas. O filme é extremamente estilizado, com cenários exteriores compostos por telas pintadas de João Queiroz e este artificialismo, que reduz o aspeto descritivo, ressalta as relações entre os personagens. O filme será exibido na versão longa de 189 minutos e não na versão de 139 minutos que foi estreada comercialmente. Primeira apresentação na Cinemateca.


Segunda-feira [26] 18:00 | Esplanada

CONVERSA COM JOÃO BOTELHO

Quase a fechar o Ciclo dedicado pela Cinemateca à obra de João Botelho e aproveitando o lançamento do respetivo catálogo, o programador Antonio Rodrigues conduz uma conversa com o realizador.


Segunda-feira [26] 19:30 | Sala Luís de Pina

A ARTE DA LUZ TEM 20.000 ANOS

com as presenças de Cláudio da Silva, Joana Botelho, Ricardo Aibéo, António Martinho Baptista
Portugal, 2014 – 55 min

QUATRO

de João Botelho
com João Queiroz, Jorge Queiroz, Pedro Tropa, Francisco Tropa
Portugal, 2014 – 100 min

duração total da projeção: 155 min | M/12

19-A ARTE DA LUZ TEM 20.000 ANOS
A ARTE DA LUZ TEM 20.000 ANOS

A ARTE DA LUZ TEM 20.000 ANOS nasceu do impacto que teve sobre João Botelho a descoberta das gravuras rupestres de Vila Nova da Foz Côa. Pouco espetaculares para o leigo, devido à ausência de cor e à sua dimensão modesta, estas gravuras são extraordinários objetos visuais, pois muitas delas reproduzem o movimento dos animais e mostram o domínio da perspetiva que tinham os nossos ancestrais há milhares de anos. Em QUATRO Botelho reúne quatro artistas, dois pares de irmãos, João e Jorge Queiroz, Pedro e Francisco Tropa (respetivamente pintor, desenhista, fotógrafo e escultor): “Filmei-os a trabalhar, filmei a criação das suas obras. Amigos, cúmplices, diferentes, mas todos obcecados na aventura estranha que é a produção artística nesta confuso início do século”, declarou o realizador. A ARTE DA LUZ TEM 20.000 ANOS é apresentado na Cinemateca pela primeira vez.


Terça-feira [27] 19:30 | Sala Luís de Pina

O CINEMA, MANOEL DE OLIVEIRA E EU

de João Botelho
com Mariana Dias, Maria João Pinho, Leonor Silveira, Marcello Urgeghe
Portugal, 2016 – 80 min | M/12

20-O CINEMA, MANOEL DE OLIVEIRA E EU

“Uma fotografia velha, de 36 anos. A mão dele no meu ombro. Bênção, dádiva. Depois, uma longa história de mais de quatro décadas de amizade, admiração e aprendizagem. Uma viagem ao cinema de Oliveira, ao seu método, ao seu modo de filmar, às suas prodigiosas invenções cinematográficas. Mais de um século de vida, mais de um século de cinema, todo o cinema. A sorte e o saber dele, a minha sorte. E como, para ele, e agora para mim, documentário e ficção vão de par, de cinema se trata, atrevi-me a filmar uma história magnífica que o Manoel amava mas que nunca filmou, que deixou para trás, como se a mão dele e os seus olhos lá perto de Deus, ou no meio dos Deuses, me conduzissem e, que ainda hoje, ele possa através de mim continuar a filmar” (João Botelho).


Quarta-feira [28] 21:30 | Sala M. Félix Ribeiro

A PEREGRINAÇÃO

de João Botelho
com Cláudio da Silva, Catarina Wallenstein, Martins Barbeiro, Marcello Urgeghe
Portugal, 2017 – 108 min | M/12

21-A PEREGRINAÇÃO

Na revisitação a figuras clássicas da literatura portuguesa que tem empreendido nos últimos anos, João Botelho não se ficou pelo século XX. A PEREGRINAÇÃO baseia-se no relato homónimo de Fernão Mendes Pinto, escrito em fins do século XVI e só publicado em 1614, trinta anos depois da morte do seu autor. Trata-se de um textos mais famosos da literatura dos Descobrimentos, mas também dos mais polémicos, pois nele parecem coabitar a relação fiel dos factos e uma desabrida fantasia literária. Botelho acrescentou trechos do romance O Corsário dos Sete Mares – Fernão Mendes Pinto, de Deana Barroqueiro e filmou diversos planos na Ásia, em sítios onde Fernão Mendes Pinto esteve, usando-os como um fundo visual nesta obra feita em estúdio e no qual convergem as aventuras reais e imaginárias do narrador, num eco à aventura dos Descobrimentos. Primeira apresentação na Cinemateca.


Quinta-feira [29] 19:00 | Sala M. Félix Ribeiro

O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS

de João Botelho
com Chico Diaz, Luís Lima Barreto, Catarina Wallenstein, Victoria Guerra
Portugal, 2020 – 129 min | M/12

22-O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS

As incursões de João Botelho no mundo de Fernando Pessoa fizeram um desvio pela obra de José Saramago, especificamente o romance por ele publicado em 1984 e que dá título ao filme. Ricardo Reis, um dos heterónimos de Fernando Pessoa, regressa a Lisboa (em 1935, o ano da morte de Pessoa) depois de uma longa ausência e observa os sinistros acontecimentos que têm lugar em Portugal e na Europa. Botelho teve uma atitude radical ao transcrever o romance e baseou o seu filme inteiramente no verbo, fiel ao “cinema do tempo” e não ao “cinema do movimento”. Primeira apresentação na Cinemateca.


Sexta-feira [30] 19:00 | Sala M. Félix Ribeiro

A BALEIA BRANCA – UMA IDEIA DE DEUS

com as presenças de Graciano Dias, João Barbosa, José Airosa, Maria Rueff
Portugal, 2007 – 55 min

O JOVEM CUNHAL

de João Botelho
com Hugo Mota Amaro, Jaime Baeta, João Barbosa
Portugal, 2022 – 75 min

duração total da projeção: 130 min | M/12

23-O JOVEM CUNHAL

O mais recente filme de Botelho aborda uma figura central da segunda metade do século XX português: Álvaro Cunhal. Mas como indica o título, nesta biografia filmada Botelho aborda Cunhal antes dele se tornar Cunhal, narra os anos de juventude do futuro líder comunista, sobre quem o cineasta se exprime nos seguintes termos: “Gosto do personagem do jovem Cunhal, a resistência vinda da figura da mãe, a consciência vinda da figura do pai. O jovem Cunhal passou dezenas de anos na prisão, torturado violentamente, esteve anos isolado e nunca falou. Escreveu textos importantes, A Superioridade Moral dos Comunistas, a tese de formatura sobre o direito ao aborto das mulheres trabalhadoras, o célebre Se Fores Preso, Camarada. Traduziu na prisão, em dois anos, O Rei Lear. Foi sempre um patriota”. A abrir a sessão,  A BALEIA BRANCA – UMA IDEIA DE DEUS, destinado a ser inserido numa montagem de Moby Dick, encenada por António Pires no Teatro do Bairro. Este foi o primeiro trabalho de Botelho feito em suporte digital e a também a sua primeira colaboração com o diretor de fotografia João Ribeiro, que a partir de então seria o responsável pela imagem de quase todos os seus filmes. Primeiras apresentações na Cinemateca.