A  passagem para o outro lado do espelho, seja ele representado como um mundo abstrato e onírico, como acontece em LE SANG D’UN POÈTE, de Jean Cocteau, seja uma representação do inferno e do reino dos mortos, como em ORPHÉE, ou seja ainda uma realidade como a descrita pelo grande clássico da literatura de Lewis Carroll, tantas vezes adaptado ao cinema, é sempre uma viagem para um mundo paralelo.

O filme que assombra e está na base deste Ciclo é uma dessas versões de Alice, tantas vezes visto e revisto em criança, filme mudo projetado em Super8, que tão magicamente retratava a passagem de Alice para o outro lado do espelho. Não está cá este filme, mas está a versão da Disney, em que Alice contempla o seu reflexo na água. Por outro lado, também não está a primeira longa-metragem produzida por esses mesmos estúdios, mas está o BRANCA DE NEVE de João César Monteiro.

Entre “clássicos” e algumas raridades – vários títulos de cariz mais experimental, em que se inclui um núcleo de filmes de João Maria Gusmão e Pedro Paiva, inéditos na Cinemateca –, este programa composto por vinte e sete sessões, mas necessariamente muito incompleto, dada a extensão e o poder deste motivo, dá conta de múltiplas aceções e de usos do espelho no cinema, objeto que funciona como metáfora do próprio cinema, simultaneamente pelos espelhos que presidem à constituição de toda a câmara de filmar e pelos mundos paralelos que criam, reflexos do nosso próprio mundo, que estilhaçam ou desmultiplicam.

Se a imagem cinematográfica e a imagem especular podem ser confundidas, não é a mesma coisa pensar a realidade e o seu reflexo. A perturbação que se sente diante dessa imagem invertida é fonte de tantas histórias fantásticas e de uma inquietante estranheza, de tantos regressos ao passado e de saltos no espaço e no tempo, como provam estes e muitos outros filmes em que os espelhos e as superfícies espelhadas, nas suas múltiplas aceções, têm um papel essencial.


Segunda-feira [01] 21:45 | Esplanada

THE LADY FROM SHANGHAI

A Dama de Xangai
de Orson Welles
com Orson Welles, Rita Hayworth, Everett Sloane, Glenn Anders, Ted de Corsia
Estados Unidos, 1948 – 87 min / legendado eletronicamente em português | M/12

4-THE LADY FROM SHANGHAI

A quinta longa-metragem de Orson Welles inscreve-se, à sua maneira, no contexto do “filme negro”, que estava então no apogeu, género de que uma das características são as tramas narrativas pouco límpidas, no qual a ação nunca tem causas claras. Neste filme, Welles é um marinheiro em terra conquistado pela beleza de Rita Hayworth, que o arrasta para uma intriga de sexo e crime que culmina numa das mais famosas sequências da história do cinema: o frente a frente das três personagens principais na Casa dos Espelhos do Luna Park, como tubarões que se devoram, segundo a fábula que Welles conta no filme. A exibir em cópia digital.


Terça-feira [02] 19:00 | Sala M. Félix Ribeiro

ESPELHO MÁGICO

de Manoel de Oliveira
com Ricardo Trêpa, Leonor Silveira, Marisa Paredes, Leonor Baldaque, Glória de Matos, Lima Duarte, Michel Piccoli, Luis Miguel Cintra, Duarte de Almeida
Portugal, 2005 ­– 137 min | M/12

espelho

Baseado no romance de Agustina Bessa­‑Luís A Alma dos Ricos, ESPELHO MÁGICO reencontra várias personagens de O PRINCÍPIO DA INCERTEZA. Um elenco sumptuoso, composto por “oliveirianos” assíduos ou ocasionais, num filme que suscitou enorme entusiasmo dada a sua extrema singularidade. O espelho é a metáfora apropriada para abordar a relação entre o passado e o presente, a aparição e a desaparição, a realidade e o seu reflexo numa incursão extremamente livre sobre os mistérios da carne, a vida e a morte.


Quarta-feira [03] 19:00 | Sala M. Félix Ribeiro

ORPHÉE

Orfeu
de Jean Cocteau
com Jean Marais, Maria Casarès, François Périer
França, 1950 – 112 min / legendado eletronicamente em português | M/12

3-ORPHÉE

ORPHÉE, fabuloso “sonho” construído a partir de diversos cruzamentos da mitologia e do fantástico, contém toda a capacidade inventiva e poética que fez de Cocteau um enorme cineasta. Em ORPHÉE atravessam-se espelhos de várias formas diferentes, e os espelhos estão investidos do poder de vida e de morte das personagens, prolongando-se o exímio uso que Cocteau fez destes objetos em LE SANG D’UN POÈTE (1930) ou LA BELLE ET LA BÊTE (1946). Os espelhos como lugar de passagem entre a vida e a morte, em que a sua transição poderá significar uma descida ao inferno. A exibir em cópia digital.


Quinta-feira [04] 19:00 | Sala M. Félix Ribeiro

L’ANNÉE DERNIÈRE À MARIENBAD 

O Último Ano em Marienbad
de Alain Resnais
com Delphine Seyrig, Giorgio Albertazzi, Sacha Pitoëff
França, 1961 – 93 min / legendado eletronicamente em português | M/12

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Em L’ANNÉE DERNIÈRE À MARIENBAD Resnais volta a colaborar intimamente com um escritor. Alain Robbe-Grillet, nome mais célebre do nouveau roman francês, sucede a Duras para HIROSHIMA MON AMOUR. O resultado é um filme inclassificável, reflexão sobre o tempo e o espaço que recusa todos os códigos clássicos (e reconhecíveis) da dramaturgia, e que marca um dos momentos em que o cinema mais se aproximou da pura abstração. Tudo se passa num jogo entre a memória e a sugestão, a mentira e a verdade, quase no domínio da alegoria, num jogo de reflexos em que os espelhos disseminados por todo o espaço desempenham um papel essencial.


Sexta-feira [05] 19:00 | Sala M. Félix Ribeiro

DER STUDENT VON PRAG

“O Estudante de Praga”
de Stellan Rye, Paul Wegener
com Paul Wegener, John Gottowt, Grete Berger

Alemanha, 1913 – 85 min / mudo, intertítulos em alemão traduzidos eletronicamente em português | M/12

com acompanhamento ao piano por João Paulo Esteves da Silva

5-DER STUDENT VON PRAG

De Wegener e Rye, baseado num conto de Edgar Allan Poe (William Wilson), DER STUDENT VON PRAG aborda o tema do duplo, o “doppelgänger”, tão caro ao romantismo alemão. Em Praga (filmada em Berlim), um estudante com pouco dinheiro aceita vender a sua imagem a um bruxo, também para conquistar o coração de uma Condessa: torna-se célebre, mas desgraça-se pela perseguição do seu duplo espectral. As sobreposições, o duplo ecrã, o uso criativo da fotografia fazem do filme um prodígio. “Atualmente a poesia do cinema tem que estar na câmara” (Paul Wegener). Foi refeito em 1926 por Henrik Galeen, num dos clássicos do chamado cinema expressionista.


Segunda-feira [08] 21:45 | Esplanada

THE SERVANT

O Criado
de Joseph Losey
com Dirk Bogarde, James Fox, Sarah Miles, Catherine Lacey
Reino Unido, 1963 – 115 min / legendado em português | M/12

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O mais famoso filme inglês de Joseph Losey, adaptado do romance de Robin Maugham, sobre um jovem aristocrata que regressa da Índia para ocupar a sua mansão londrina e acaba joguete de um criado corrupto e vicioso, numa inversão que é uma metáfora sobre a luta de classes. Losey, amante confesso do uso dos espelhos, filma a intrusão do criado com recurso a estes objetos, que assim ocupa o intervalo dos planos e se inscreve literalmente entre o casal em questão, quando os espelhos que o refletem dominam frequentemente o quadro. A exibir em cópia digital.


Terça-feira [09] 19:00 | Sala M. Félix Ribeiro

BRANCA DE NEVE

de João César Monteiro
com as vozes de Maria do Carmo, Reginaldo da Cruz, Ana Brandão, Luis Miguel Cintra,
Diogo Dória, João César Monteiro
Portugal, 2000 – 72 min | M/12

7-BRANCA DE NEVE

A BRANCA DE NEVE de João César Monteiro adapta uma peça de Robert Walser que retoma o conto dos irmãos Grimm: salva pelo beijo do Príncipe ao sono das trevas, Branca de Neve confronta a madrasta e o caçador que esta incita a apunhalar a enteada. João César Monteiro deixou a tela quase sempre negra, com raras imagens de outra cor – o azul do céu, o preto e branco das fotografias,… – e as imagens sonoras (as vozes dos atores). A BRANCA DE NEVE de Walser/César Monteiro que necessariamente alude à BRANCA DE NEVE dos grandes clássicos Grimm/Disney.


Quarta-feira [10] 18:00 | Sala M. Félix Ribeiro

YI YI 

Yi Yi
de Edward Yang
com Nin-Jen Wu, Elaine Jin, Issey Ogata
Taiwan, 2000 – 173 min / legendado em português | M/12

8-YI YI

YI YI foi o primeiro filme de Edward Yang a ser comercialmente estreado em Portugal. Prémio de Melhor Realização em Cannes, trata-se de um belíssimo filme coral sobre uma família em momento de crise, onde se reconhecem algumas características dominantes do estilo de Yang, e da chamada “escola de Taiwan”, como o recurso sistemático ao plano-sequência. Aqui as superfícies espelhadas têm um papel central no modo como sobrepõem camadas e mesclam interior e exterior, refletindo-se a cidade no quotidiano dos seus habitantes.


Quinta-feira [11] 19:00 | Sala M. Félix Ribeiro

ZERKALO

“O Espelho”
de Andrei Tarkovski
com Margarita Terlhova, Ignat Danilcev, Larissa Tarkovskaia
URSS, 1975 – 100 min / legendado eletronicamente em português | M/12

9-zerkalo

A quarta longa-metragem de Tarkovski é um dos pontos culminantes de toda a sua obra. Trata-se de um filme sobre a memória e sobre a palavra, em que um homem prestes a morrer lembra-se da sua infância, que surge diante da sua memória, como um espelho. Tarkovski assim resumiu o filme: “Os destinos de duas gerações sobrepõem-se no encontro entre a realidade e as lembranças: o do meu pai, do qual se ouvem poemas, e o meu. As imagens de atualidades do tempo de guerra, as cartas de amor do meu pai para a minha mãe, são documentos que moldaram a história da minha vida”. O filme mais pessoal e íntimo de Andrei Tarkovski. A exibir em cópia digital.


Sexta-feira [12] 21:45 | Esplanada

TAXI DRIVER

Taxi Driver
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e Martin Scorsese
com Robert De Niro, Cybill Shepherd, Jodie Foster, Harvey Keitel, Peter Boyle
Estados Unidos, 1976 – 110 min / legendado eletronicamente em português | M/16

14-TAXI DRIVER

Um dos filmes fundamentais da década de 70, dirigido por Scorsese segundo um argumento de Paul Schrader. TAXI DRIVER é uma obra profundamente pessimista, sobre um ex-veterano do Vietname, marcado e traumatizado pelo drama que viveu e que percorre, de noite, em deambulações pela cidade, outro “inferno”: o submundo de Nova Iorque. O percurso de Travis (De Niro) culmina num massacre que se pretende redentor. Num dos momentos mais emblemáticos do filme, a personagem insiste em perguntar à sua imagem refletida num espelho: “Are you talking to me?”. Monólogo e momento inspirado numa inolvidável performance de Marlon Brando em REFLECTIONS IN A GOLDEN EYE (1968), de John Huston. 


Terça-feira [16] 21:45 | Esplanada

PEGGY SUE GOT MARRIED

Peggy Sue Casou-se
de Francis Ford Coppola
com Kathleen Turner, Nicolas Cage, Barry Miller, Catherine Hicks
Estados Unidos, 1986 – 103 min / legendado em português | M/12

11-PEGGY SUE GOT MARRIED

Kathleen Turner é Peggy Sue, uma mulher de 40 e poucos anos que, à beira do divórcio, faz uma viagem no tempo regressando aos anos 60 e aos tempos de juventude para poder decidir se voltaria a dar os mesmos passos, e a casar com o mesmo homem. Um conto moderno imbuído de romantismo em que Coppola usa a ironia e o humor para contrariar a nostalgia de uma impossibilidade de regresso à adolescência. As sequências da abertura e do final revelam como tudo se trata de um jogo de espelhos em que mesmo estes são simulacros (os espelhos reais dão lugar a falsos reflexos construídos com recurso a duplos).


Quarta-feira [17] 19:00 | Sala M. Félix Ribeiro

EIN LICHTSPIEL SCHWARZ-WEISS-GRAU

“Jogo de Luz Preto-Branco-Cinzento”
de László Moholy-Nagy
Alemanha, URSS, 1930 – 6 min / mudo, sem intertítulos

LA GLACE À TROIS FACES

de Jean Epstein
com René Ferre, Jeanne Helbling, Suzy Pierson, Olga Day
França, 1927 – 45 min / mudo, intertítulos em francês, legendados eletronicamente em português

SIX ET DEMI ONZE

de Jean Epstein
com Edmond Van Daële, Suzy Pierson, Nino Constantini
França, 1927 – 65 min / mudo, intertítulos em francês, legendados eletronicamente em português

duração total de projeção: 116 minutos | M/12

12-LA GLACE À TROIS FACES
LA GLACE À TROIS FACES

“JOGO DE LUZ PRETO-BRANCO-CINZENTO” é dos mais conhecidos trabalhos em filme do fotógrafo László Moholy–Nagy, em que a abstração das imagens no jogo de luz proposto tem o referente concreto do Modulador Espaço–Luz, também conhecido como acessório luminoso para um cenário elétrico, escultura motorizada de metal e vidro que produz uma multiplicação de reflexos e perspetivas numa dança de luz no espaço. A sessão prossegue com um díptico formado pelos dois filmes mais importantes do período de vanguarda de Jean Epstein. LA GLACE À TROIS FACES antecipa diversas soluções visuais e narrativas de L’ANNÉE DERNIÈRE À MARIENBAD, para abordar as aventuras de um homem com três mulheres diferentes, misturando o passado e o presente. É um dos pontos culminantes da “vanguarda narrativa”. SIX ET DEMI ONZE (alusão ao formato do negativo de um filme: 6,5 x 11) radicaliza as opções do realizador, com elegantes cenários, sobreposições e o uso de espelhos, para contar a história de uma mulher que tem um caso com o irmão do falecido amante. Os filmes de Epstein serão exibidos em cópias digitais.


Quinta-feira [18] 21:45 | Esplanada

THE WOMAN IN THE WINDOW

Suprema Decisão
de Fritz Lang
com Edward G. Robinson, Joan Bennett, Raymond Massey, Dan Duryea
Estados Unidos, 1944 – 99 min / legendado eletronicamente em português | M/12

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Um dos filmes de que Fritz Lang mais gostava, e o que mais se coloca sob a instância psicanalítica, na manifestação do sonho como reflexo de culpas não assumidas. Todo o filme é uma construção onírica sobre um homem convencional que se deixa envolver nas teias de uma mulher fatal que o conduzem ao crime. É famosa a sequência em que Edward G. Robinson para em frente a uma montra para contemplar um quadro e é surpreendido pelo seu duplo, numa fusão entre retrato e reflexo. Um filme que multiplica os jogos de espelhos que em parte evocam a duplicidade das próprias personagens.


Sexta-feira [19] 19:00 | Sala M. Félix Ribeiro

THE PICTURE OF DORIAN GRAY

O Retrato de Dorian Gray
de Albert Lewin
com Hurd Hatfield, George Sanders, Angela Lansbury
Estados Unidos, 1945 – 110 min / legendado eletronicamente em português | M/12

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A mais famosa adaptação da história de Oscar Wilde, realizada por esse singularíssimo cineasta que foi Albert Lewin. Hurd Hatfield compõe um soberbo Dorian Gray, e George Sanders, no máximo da sua cínica elegância, interpreta Lord Henry. O “retrato” propriamente dito abre o filme e volta, “metamorfoseado” e a cores, para o fechar, numa visão de puro horror. A exibir em cópia digital.


Sábado [20] 21:45 | Esplanada

THE LADY IN THE LAKE

A Dama do Lago
de Robert Montgomery
com Robert Montgomery, Audrey Totter, Lloyd Nolan
Estados Unidos, 1947 – 98 min / legendado eletronicamente em português | M/12

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Este célebre filme negro leva ao extremo o princípio da câmara subjetiva. À exceção do prólogo e do epílogo, tudo é visto pelos olhos do protagonista (o célebre detetive privado Philip Marlowe, dos romances de Raymond Chandler), cujo papel é encarnado pelo realizador. Ou seja, o ponto de vista do realizador e o do protagonista é literalmente o mesmo. Como sempre no filme negro, a trama (uma história de desaparecimento, substituição de pessoas e morte) é complexa e pouco clara: tudo se passa na criação do ambiente, na fotografia a preto e branco e no desempenho dos atores. Por ser inteiramente filmado em câmara subjetiva, apenas nos apercebemos do protagonista através dos seus reflexos em espelhos. 


Segunda-feira [22] 21:45 | Esplanada

SUNSET BOULEVARD

O Crepúsculo dos Deuses
de Billy Wilder
com Gloria Swanson, William Holden, Erich von Stroheim
Estados Unidos, 1950 – 110 min / legendado eletronicamente em português | M/12

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O filme que mudou a imagem de Hollywood no cinema. Billy Wilder “ressuscitou” Gloria Swanson retirada há muitos anos, para um papel que podia ser o dela própria (uma diva do mudo num patético comeback), num retrato negro da cidade dos sonhos. Stroheim, que a dirigiu em QUEEN KELLY (filme cuja projeção caseira dá azo a uma das mais emocionantes cenas de SUNSET BOULEVARD), interpreta o seu fiel mordomo. Cecil B. DeMille, Buster Keaton e Hedda Hopper aparecem brevemente, nos seus próprios papéis. No final, Norma Desmond contempla o seu rosto, escondido durante muito tempo. Um espelho longamente evitado que é a prova inclemente do fracasso da perpetuação do passado.


Terça-feira [23] 19:00 | Sala M. Félix Ribeiro

INDIA SONG 

India Song
de Marguerite Duras
com Delphine Seyrig, Matthieu Carrière, Michel Lonsdale
França, 1975 – 118 min / legendado em português | M/12

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INDIA SONG é uma inesquecível experiência que conta a história “de um amor vivido na Índia, nos anos 30, numa cidade super-povoada à beira do Ganges” (Duras), filmada nos arredores de Paris, que circula por entre personagens silenciosas, enquanto em off se ouvem as confissões envolvidas numa música embriagante, do argentino Carlos d’Alessio. Um filme encantatório e mágico que forma um par com SON NOM DE VENISE DANS CALCUTTA DÉSERT, a mesma história vista por Duras numa outra dimensão. Um espelho imenso reforça a indecisão entre os planos da realidade e do imaginário, ajudando a criar desorientação no espectador.


Terça-feira [23] 21:45 | Esplanada

LE MIROIR DE CAGLIOSTRO

de Georges Méliès
França, 1899 – 5 min / mudo

LE MIROIR MAGIQUE

anónimo, produção Gaumont
França, 1909 – 4 minutos / mudo

DUCK SOUP

Os Grandes Aldrabões
de Leo McCarey
com Groucho, Chico, Harpo e Zeppo Marx, Margaret Dumont
Estados Unidos, 1933 – 68 min / legendado eletronicamente em português

duração total da projeção: 77 minutos | M/12

14-DUCK SOUP

Uma sessão que abre com um filme mágico de Méliès assente nas suas trucagens e efeitos especiais. Ao espelho de Cagliostro sucede um espelho mágico de uma produção Gaumont atribuída por uns historiadores a Louis Feuillade e por outros a Étienne Arnaud ou a Émile Cohl. Dois títulos que reenviam para usos cómicos dos espelhos num cinema produzido como espetáculo de feira. DUCK SOUP representa a arte do burlesco levada aos limites do absurdo na mais delirante incursão dos Irmãos Marx no cinema, que é também uma das mais virulentas sátiras à política do seu tempo (o começo da década de 30 do século passado), com a incursão na guerra de um pequeno país onde os Marx governam. Delirante, para muitos o melhor filme dos Irmãos (aqui dirigidos pela magistral mão de Leo McCarey), DUCK SOUP é tudo menos inocente, como não é inocente o gag do espelho, em que se iludem as aparências. A exibir em cópias digitais. LE MIROIR DE CAGLIOSTRO é apresentado pela primeira vez na Cinemateca.


Quarta-feira [24] 19:00 | Sala M. Félix Ribeiro

FILM

de Samuel Beckett, Alan Schneider
com Buster Keaton, Nell Harrison, James Karen
Estados Unidos, 1965 – 20 min / mudo, sem diálogos

LES YEUX SANS VISAGE

de Georges Franju
com Pierre Brasseur, Alida Valli, Edith Scob
França, 1959 – 87 min / legendado em português

Duração total da projeção: 107 minutos | M/12

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LES YEAU

Dois filmes de espelhos escondidos para ocultar rostos que não se querem ver, espelhos presentes pela sua ausência. FILM resulta da colaboração de Samuel Beckett com o encenador teatral Alan Schneider e com um convidado de peso, o envelhecido Buster Keaton, para uma fascinante revisão do burlesco. Uma obra única na história do cinema. LES YEUX SANS VISAGE é um dos melhores filmes fantásticos franceses em que Franju recupera o espírito dos grandes filmes em episódios de Feuillade e a sombria poesia dos filmes mudos de Fritz Lang, numa história de terror aparentada com o tema de Frankenstein. Um médico famoso atrai uma série de raparigas para as matar, de forma a aproveitar a pele dos rostos para reconstituir o da filha, desfigurada num acidente. O final é marcado por um onirismo surrealizante, raras vezes visto em cinema. A exibir em cópias digitais.


Quinta-feira [25] 19:00 | Sala M. Félix Ribeiro

LA SOURIANTE MADAME BEUDET

de Germaine Dulac
com Germaine Beudoz, Alexandre Arquillère, Madeleine Guitry
França, 1923 – 54 min / mudo, intertítulos em francês, legendados eletronicamente em português

LE SANG D’UN POÈTE

de Jean Cocteau
com Enrique Rivero, Pauline Carton, Odette Talazac
França, 1930 – 55 min / mudo, intertítulos em francês, legendados eletronicamente em português

Duração total da projeção: 109 minutos | M/12

com acompanhamento ao piano por Filipe Raposo
21-LA SOURIANTE MADAME BEUDET
LA SOURIANTE MADAME BEUDET

Germaine Dulac (1882-1942) foi uma forte personalidade, feminista militante, organizadora de cineclubes e uma presença marcante do cinema francês “de vanguarda” ou “impressionista” dos anos 20. LA SOURIANTE MADAME BEUDET é um clássico do período que aborda a história de uma mulher infeliz no casamento, cujo marido costuma brincar com um revólver vazio. Um dia, ela põe uma bala no revólver, mas sucede algo inesperado. Um espelho trifacetado reflete Madame Beudet e a sua existência. Em LE SANG D’UN POÈTE o protagonista está fechado numa divisão onde não há porta, mas apenas um espelho, “restando-lhe apenas entrar no vidro e passear-se”, transformando-se o espelho em água, que o deixa mergulhar e descobrir um novo mundo. Como é frequente na obra de Cocteau, é um filme cujos espelhos são filmados de frente, um paradoxo irresolúvel que nos reenvia para o mundo dos falsos espelhos.


Sexta-feira [26] 19:00 | Sala M. Félix Ribeiro

MIRROR WORLD

de Abigail Child
Estados Unidos, 2006 – 12 min / som, sem diálogos

JALSAGHAR

“O Salão de Música”
de Satyajit Ray
com Chabi Biswas, Padma Devi, Gangapada Basu, Bishmillah Khan
Índia, 1959 – 95 min / legendado eletronicamente em português | M/12

duração total de projeção: 107 minutos | M/12

31-JALSAGHAR

Uma sessão introduzida por MIRROR WORLD, trabalho experimental de Abigail Child que prolonga as estratégias de apropriação bem presentes numa outra sessão deste programa. A reflexão e a refração são aqui usadas para uma reconfiguração de um admirável clássico do cinema de Bollywood, AAN / PRESTÍGIO REAL (1953), de Mehboob Khan. “O SALÃO DE MÚSICA” é um dos filmes mais belos e célebres do grande mestre indiano e foi também o filme através do qual toda uma geração de espectadores europeus o descobriu. Realizado com o habitual requinte de Ray nesta fase da sua obra, o filme conta a história de um aristocrata sem descendência, que desbarata a fortuna realizando sumptuosos espectáculos musicais privados. À beira da ruína, prepara uma derradeira soirée, destinada a ultrapassar em extravagância todas as anteriores. O filme contou com a participação de alguns dos mais notáveis músicos e dançarinos indianos da época. Um grande espelho confere profundidade ao salão assim como espelha o passar do tempo e os acontecimentos trágicos que testemunhou. A exibir em cópias digitais.


Sábado [27] 19:00 | Sala M. Félix Ribeiro

THE CIRCUS

O Circo
de Charles Chaplin
com Charles Chaplin, Allan Garcia, Merna Kennedy
Estados Unidos, 1927 – 70 min / mudo, intertítulos em inglês, legendados eletronicamente em português | M/6

2-O Circo
THE CIRCUS

Charlot, o vagabundo, vai trabalhar num circo por acaso e torna-se uma vedeta. Como o título e o argumento o indicam, THE CIRCUS é uma homenagem ao circo pelo mais sublime palhaço de todos os tempos. Estranha e injustamente, esta obra de maturidade nunca foi considerada uma das maiores obras-primas de Chaplin. E no entanto, na opinião de Jean Mitry, autor de um clássico estudo sobre Chaplin, “de todos os grandes filmes de Charlot, THE CIRCUS talvez seja o mais equilibrado. A sua construção é rigorosa, tem um movimento ascendente e cai bruscamente no final”. Um dos momentos mais sublimes é aquele em que Chaplin aterra num labirinto de espelhos. A exibir em cópia digital.


Segunda-feira [29] 19:00 | Sala M. Félix Ribeiro

ALICE IN WONDERLAND 

Alice no País das Fadas
de Clyde Geronimi, Hamilton Luske, Wilfred Jackson
com Kathryn Beaumont, Ed Wynn, Richard Haydn, Sterling Holloway (vozes)
Estados Unidos, 1951 – 74 min / versão dobrada em português do Brasil | M/6

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São hoje muitas as adaptações ao cinema do grande clássico da literatura de Lewis Carroll, mostrando nós neste Ciclo de espelhos a da Disney. Numa tarde de sol Alice confronta-se com o seu reflexo e avista o célebre Coelho Branco, que desaparece enfiando-se furtivamente numa toca ali perto. Alice vai atrás dele e cai no buraco, uma mágica entrada para o País das Maravilhas. Canções memoráveis entram na viagem de Alice, que culmina num encontro com a Rainha de Copas e o seu exército de cartas de jogar.


Segunda-feira [29] 21:45 | Esplanada

MADAME DE…

Madame De…
de Max Ophuls
com Danielle Darrieux, Charles Boyer, Vittorio de Sica
França, 1953 – 96 min / legendado em português | M/12

Madame De

Esta obra-prima de Ophuls forma como que uma trilogia com dois outros filmes do realizador sobre amores femininos fracassados, LIEBELEI e LETTER FROM AN UNKNOWN WOMAN, dos quais são retomadas algumas situações idênticas. Baseado num romance de Louise de Vilmorin e situado em fins do século XIX, o filme conta a história de um triângulo amoroso e de um par de brincos oferecidos pelo marido à mulher, que os vende e, mais tarde, os recebe como prenda do amante, que de nada sabia. Um filme barroco de superfícies espelhadas. A exibir em cópia digital.


Terça-feira [30] 19:00 | Sala M. Félix Ribeiro

PARTE I - FILMES DE JOÃO MARIA GUSMÃO E PEDRO PAIVA

THE THROW 1
THE THROW 2
ESSAY ON A LIQUID SCULPTURE 
HEAT RAY 
DREAM OF A RAY FISH
3 SUNS
SOLAR, THE BLINDMAN EATING A PAPAYA
A DAY WITHOUT FILMING  
PROJECTOR (CAMERA TEST) 

de João Maria Gusmão, Pedro Paiva
Portugal, 2006-2016 – 21 minutos | 16mm, mudos

PARTE II - APROPRIAÇÃO, MANIPULAÇÃO 

GHOST IMAGE, VISUAL ESSAYS N°4

de Al Razutis
Canadá, 1976-1979 – 10 min / 16mm, som, sem diálogos 

THE GEORGETOWN LOOP

de Ken Jacobs
Estados Unidos, 1997 – 11 min / 16mm, mudo 

LA PLAGE

de Patrick Bokanowski
França, 1991 – 14 min / 35mm, som, sem diálogos

MIRROR MECHANICS

de Siegfried Alexander Fruhauf
Áustria, 2005 – 8 min / 35mm, som, sem diálogos 

duração total de projeção: 64 minutos | M/12

26-heat ray
HEAT RAY

João Maria Gusmão e Pedro Paiva iniciaram a sua colaboração em 2001 e durante duas décadas criaram um conjunto de curtas-metragens filmadas maioritariamente em 16mm que nos devolvem um mundo mudo ao ralenti, a que já chamaram “ficções poético-filosóficas”. Filmes que apontam para a complexidade dos mecanismos de produção de imagens e para mundos extraordinários que desafiam as leis da gravidade e contribuem para uma expansão da nossa perceção do real, onde os poderes das superfícies espelhadas nas suas várias vertentes estão bem presentes, de modo literal ou figurado: as propriedades reflexivas da água, a capacidade dos espelhos em estilhaçar o quadro, mas também as metáforas implícitas em filmes como HEAT RAY ou SOLAR, THE BLINDMAN EATING A PAPAYA. A segunda parte da sessão é votada a outras práticas experimentais em que a manipulação e apropriação de imagens estão bem presentes. Al Razutis, num dos seus conhecidos ensaios visuais interroga a tradição dos filmes fantásticos, revisitando clássicos conotados com o surrealismo, o expressionismo, o realismo poético e o próprio cinema de terror, mediante um princípio formal que consiste numa “imagem-espelho” que subverte o eixo do ecrã. Um procedimento semelhante enforma THE GEORGETOWN LOOP em que Ken Jacobs se apropria de um filme de 1905 que regista uma viagem de comboio através de montanhas rochosas, imprimindo lado a lado a imagem original e o seu duplo espelhado, produzindo um efeito caleidoscópico. Em MIRROR MECHANICS uma jovem olha-se ao espelho, situação que é desnaturalizada quando Fruhauf submete o material de base a transformações complexas, operações diferentes daquelas a que Patrick Bokanowski submete as suas imagens, que adquirem uma plasticidade própria. Primeiras exibições na Cinemateca com exceção de THE GEORGETOWN LOOP.


Quarta-feira [31] 19:00 | Sala M. Félix Ribeiro

MALINA 

Malina
de Werner Schroeter 
com Isabelle Huppert, Mathieu Carrière, Can Togay 
Alemanha, 1991 – 125 min / legendado em português | M/16 

7-MALINA

MALINA adapta um livro de Ingeborg Bachman, escritora e poeta austríaca, comentadora e leitora de Wittgenstein e de Heidegger, que é uma obra sobre os limites da linguagem. Atravessado por uma interpretação extraordinária de Isabelle Huppert no papel de uma escritora, o filme de Schroeter, no mesmo sentido, é um filme sobre os limites do cinema: o indizível e o invisível. Na sequência final os espelhos prolongam o estado psicológico da protagonista. 


Quarta-feira [31] 21:45 | Esplanada

VERTIGO 

A Mulher Que Viveu Duas Vezes
de Alfred Hitchcock
com James Stewart, Kim Novak, Barbara Bel Geddes, Tom Helmore
Estados Unidos, 1958 – 128 min / legendado em português | M/12

11-VERTIGO

Duas mulheres que são uma só e um homem que numa procura recriar a imagem que tem da “outra”. Diz-se que Hitchcock só filmou histórias de amor. Se dúvidas houvesse, VERTIGO dissipava-as. Algumas das mais extasiantes cenas de VERTIGO passam-se dentro de um museu, com Kim Novak inebriada diante do quadro que a obceca fazendo de James Stewart um espectador inebriantemente obcecado por ela. Os duplos e os espelhos desempenham um papel central nesta obra maior de Hitchcock, tal como desempenharão em PSYCHO.