Prosseguindo uma série iniciada em 2019 com o melodrama, a revisitação pela Cinemateca dos grandes géneros em 2020 é dedicada à comédia. Inicialmente concebido em três andamentos para serem apresentados ao longo do ano, o Ciclo teve início em janeiro deste ano e é retomado em setembro (dois meses mais tarde do que estava previsto),  num mundo bastante diferente daquele que existia quando ele arrancou mas no qual a comédia é porventura ainda mais necessária (Aristóteles definiu a comédia enquanto arte poética que trata das baixezas do Homem sem provocar nem terror nem piedade, o que, no actual cenário pandémico, serve de alívio e se agradece).

No andamento inicial fizemos uma aproximação histórica ao género, canonicamente entendido (e por isso essa primeira parte se intitulava “Os Reis da Comédia”), vimos as principais figuras criadoras do género (e criadas pelo género), desde os primórdios aos nossos dias, entre cineastas e atores, entre figuras únicas e avulsas e variações que se transformaram em subgéneros ou “correntes” e consubstanciaram um entendimento preciso e historicamente definido da comédia cinematográfica (como por exemplo a screwball ou a “comédia à italiana”).

Como anunciávamos já na apresentação do Ciclo em Janeiro, este segundo andamento procurará os caminhos mais excêntricos da comédia. Seja geograficamente, olhando para as cinematografias fora do eixo euro-americano que ainda forma a base do “cânone”, seja estilisticamente, olhando para autores que, sem serem de todos cineastas identificados com o género, importaram para os seus universos autorais elementos e procedimentos derivados da comédia. Em setembro é, portanto, o momento de procurar a comédia fora da comédia no seu sentido estrito ou mais tradicional. Afastamo-nos da matriz popular que foi a base do nascimento e do desenvolvimento do género e que esteve no centro da primeira parte do Ciclo para mostrar abordagens mais inesperadas ou improváveis do uso do humor como lente por onde se vê o mundo. Filmes em que a comédia resulta do desencontro entre o ponto de vista e a situação narrativa (comédias negras – negríssimas – como THE TROUBLE WITH HARRY, DR. STRANGELOVE ou BRIGANDS, CHAPITRE VII), comédias de autores que sem deixarem de levar a comédia a sério (passe o paradoxo) preferem “desacelerá-la” (Kaurismäki, Moullet), intelectualizá-la (Vera Chytilova) ou aproximá-la do realismo (Moretti, Akerman, Solondz, Leigh), entre outras formas de desconstrução e revisitação modernas de um género cinematográfico impuro e permanentemente em aberto. Incluímos também no Ciclo um pequeno pólo português (com filmes de Artur Semedo, João César Monteiro e João Nicolau), bem distante da tradição da “comédia à portuguesa”, mas capaz de manter acesa a chama do género numa cinematografia tida por muito mais sisuda do que muitas vezes foi e é.

Para data ainda incerta fica prometido o terceiro andamento do Ciclo, que isolará um elemento crucial do código cómico: o riso (dentro e fora do ecrã).


Terça-feira [8 de setembro] 15:00 | Sala M. Félix Ribeiro ATENÇÃO AO HORÁRIO

IT’S A MAD, MAD, MAD, MAD WORLD

O Mundo Maluco
de Stanley Kramer
com Spencer Tracy, Milton Berle, Sid Caesar, Buddy Hackett, Ethel Merman, Mickey Rooney
Estado Unidos, 1963 – 193 min / legendado electronicamente em português | M/12

Nome associado a dramas sérios, de forte mensagem social ou política, Stanley Kramer liderou uma produção recheada de estrelas que aspirava a ser uma comédia para acabar com todas as comédias. Depois de saber da existência de 350 000 dólares enterrados algures em Santa Rosita, um grupo de motoristas parte à procura da fortuna roubada. Eis uma chase comedy épica (em Cinerama, com mais de três horas), que redundou num gigantesco sucesso popular e que envolveu exuberantes meios de produção. Trata-se também de uma homenagem à grande comédia slapstick americana, assinalada pelas presenças no elenco, entre outros, de Buster Keaton e dos Three Stooges (conhecidos em Portugal como “Os Três Estarolas”). Bosley Crowther, do New York Times, apelidou-a de “uma parada de celebridades”. A apresentar em cópia digital. Primeira exibição na Cinemateca.


Terça-feira [8 de setembro] 21:30 | Esplanada

SEDMIKRASKY

Jovens e Atrevidas
de Vera Chytilová
com Jitka Cerhová, Ivana Karbanová
Checoslováquia, 1966 – 75 min / legendado em português | M/12

Um dos grandes clássicos das novas vagas europeias dos anos sessenta. Duas belas jovens chamadas Marie atravessam diversas aventuras, em que fazem tudo para se divertir. Vão a piscinas públicas, a night clubs, provocam os homens, destroem tudo durante um banquete. “Já que o mundo destrói tudo, destruamos o mundo!”. Segundo a realizadora, trata-se de “uma comédia bizarra, com elementos de sátira e sarcasmo em relação às duas protagonistas”. Com cores fortes, este talvez seja o filme mais pop da “outra Europa”.


Quarta-feira [9 de setembro] 15:30 | Sala M. Félix Ribeiro

CARO DIARIO

Querido Diário
de Nanni Moretti
com Nanni Moretti, Giovanna Bozzolo, Sebastiano Nardone, Antonio Petrocelli
Itália, França, 1993 – 100 min / legendado em português | M/12

Este é o filme em que Moretti circula por Roma na sua vespa, insurgindo-se contra a destruição do espírito da cidade que se perdeu na vulgarização de subúrbios dormitório, para desembocar numa peregrinação-tributo a Pasolini. O primeiro episódio de CARO DIARIO, “Na Vespa” é sucedido de “As Ilhas” (por onde paira a referência a Rossellini) e do mais burlesco “Os Médicos”. CARO DIARIO é um olhar morettiano sobre a Itália dos anos noventa e possivelmente o filme mais popular do realizador.


Quinta-feira [10 de setembro] 21:30 | Esplanada
Segunda-feira [14 de setembro] 15:30 | Sala M. Félix Ribeiro

DR. STRANGELOVE OR HOW I LEARNED TO STOP WORRYING AND LOVE THE BOMB

Dr. Estranhoamor
de Stanley Kubrick
com Peter Sellers, George C. Scott, Sterling Hayden, Keenan Wynn
Reino Unido, 1964 – 93 min / legendado eletronicamente em português | M/12

Peter Sellers, mestre do disfarce, campeão na arte de acumular personagens num só filme. Aqui são quatro, incluindo uma das mais famosas de toda a sua carreira: a do Doutor Strangelove, o cientista ex-nazi que dá o título ao filme de Kubrick. DR. STRANGELOVE, de resto, é provavelmente a mais corrosiva paródia dos tempos da guerra fria, realizada na ressaca da “crise dos mísseis”, e onde o pessimismo kubrickiano se manifesta num registo quase burlesco, com uns toques de nihilismo. A apresentar em cópia digital resultante do restauro produzido pelo laboratório Cineric para a Sony Pictures Entertainment.


Sábado [12 de setembro] 15:30 | Sala M. Félix Ribeiro
Quarta-feira [16 de setembro] 19:00 | Sala M. Félix Ribeiro

THE KING OF COMEDY

O Rei da Comédia
de Martin Scorsese
com Robert De Niro, Jerry Lewis, Dianne Abbott, Sandra Bernhard
Estados Unidos, 1982 – 107 min / legendado em português | M/6

Um filme singular marcado pelo cruzamento de dois universos criativos: o de Martin Scorsese e o de Jerry Lewis, onde os gags clássicos do último surgem sublinhados a negro com a perspetiva inquieta de Scorsese. Lewis é um famoso comediante que é raptado por um admirador (De Niro) que apenas deseja a sua oportunidade para chegar ao “show biz”. A apresentar em cópia digital.


Sábado [12 de setembro] 21:30 | Esplanada

DEMAIN ON DÉMÉNAGE

Amanhã Mudamos de Casa
de Chantal Akerman
com Sylvie Testud, Aurore Clément, Jean-Pierre Marielle, Lucas Belvaux
França, Bélgica, 2004 – 110 min / legendado em português | M/12

Depois da morte do marido, Catherine (música) vai viver com a filha, Charlotte (escritora) no seu duplex. A dada altura, Charlotte pensa vender o apartamento para se instalar, com a mãe, numa casa de campo. É então que agentes imobiliários e potenciais compradores entram de rompante na vida das duas mulheres. “A personagem de Charlotte está próxima de mim. Saber como viver num lugar, falar a toda a gente, a desordem, a relação com os objetos, tudo isso se parece comigo” (Chantal Akerman).


Segunda-feira [14 de setembro] 19:00 | Sala M. Félix Ribeiro

HAPPINESS

Felicidade
de Todd Solondz
com Philip Seymour Hoffman. Dyfan Baker. Ben Gazzara
Estados Unidos, 1988 – 139 min / legendado em português | M/16

Improvável encontro entre o espírito da sitcom e a herança de John Cassavetes, HAPPINESS é um retrato do lado escuro do quotidiano da classe média americana. Completamente desesperado, mas capaz de viver o desespero com um sorriso (mesmo que cínico) nos lábios e sempre de forma saudavelmente pagã, o filme de Solondz torna-se por isso uma espécie do comédia negra onde se cristalizam sonhos e frustrações como se fossem apenas duas faces da mesma moeda.


Segunda-feira [14 de setembro] 21:30 | Esplanada
Sexta-feira [18 de setembro] 15:30 | Sala M. Félix Ribeiro

THE HONEY POT

O Perfume do Dinheiro
de Joseph L. Mankiewicz
com Rex Harrison, Susan Hayward, Cliff Robertson, Capucine, Maggie Smith, Edie Adams, Adolfo Celi
Estados Unidos, 1967 – 131 min / legendado eletronicamente em português | M/12

Um jogo de enganos é o que se desenvolve em THE HONEY POT, adaptação moderna da peça Volpone de Ben Johnson (1606) num argumento que parte ainda da peça de Fredrick Knott, Mr. Fox of Venice, e do romance de Thomas Sterling, The Evil of the Day. Rex Harrison é Cecil Fox, a “raposa” (fox) que convida quatro ex-amantes para a sua mansão, informando-as de que está a morrer, a fim de observar as respetivas reações. Talvez seja um dos Mankiewicz menos vistos, sendo um filme cheio de subtilezas a redescobrir.


Terça-feira [15 de setembro] 15:30 | Sala M. Félix Ribeiro
Quarta-feira [30 de setembro] 19:00 | Sala M. Félix Ribeiro

THE TROUBLE WITH HARRY

O Terceiro Tiro
de Alfred Hitchcock
com Edmund Gwenn, Shirley MacLaine, John Forsythe, Mildred Natwick, Mildred Dunnock, Royal Dano, Jerry Mathers
Estados Unidos, 1955 – 99 min / legendado eletronicamente em português | M/12

THE TROUBLE WITH HARRY é um Hitchcock diferente… o reverso dos outros filmes de Hitchcock: ao mundo da culpa contrapõe-se o mundo onde ela não existe. Porque é que esse universo nos faz rir tanto? Talvez convenha, depois de rirmos, pensar nesta pergunta. Talvez Harry seja muito mais perturbante do que alguma vez pensámos. Talvez THE TROUBLE WITH HARRY seja não só o mais inquietante mas também o mais amoral dos filmes de Hitchcock. A apresentar em cópia digital.


Terça-feira [15 de setembro] 21:30 | Esplanada

FÖR ATT INTE TALA OM ALLA DESSA KVINOR

A Força do Sexo Fraco
de Ingmar Bergman
com Jarl Kuhle, Eva Dahlbeck, Bibi Andersson, Harriet Anderson, Gertrud Fridh
Suécia, 1964 – 78 min / legendado em português | M/12

O título original deste Bergman significa aproximadamente “E Agora Falemos destas Mulheres”, mas os distribuidores portugueses não tiveram medo do ridículo. Trata-se de um Bergman bastante atípico, das poucas comédias que realizou, em que o realizador talvez ajuste contas com a crítica. Um grande violoncelista fecha-se com sete mulheres numa vivenda, onde recebe a visita de um crítico interesseiro e oportunista. Grande diretor de atores e habituado a trabalhar com grandes atores, Bergman fez deste divertimento um objeto absolutamente perfeito.


Quarta-feira [16 de setembro] 15:30 | Sala M. Félix Ribeiro
Terça-feira [29 de setembro] 21:30 | Esplanada

SERIAL MOM

Mãe Galinha
de John Waters
com Kathleen Turner, Sam Waterston, Ricki Lake, Matthew Lillard
Estados Unidos, 1994 – 95 min / legendado electronicamente em português | M/12

O “campeão do mau gosto” regressava em 1994 para assinar o terceiro filme da sua fase mais mainstream, também precipitada pelo desaparecimento da diva do underground, o drag Divine. A estrela Kathleen Turner ter-se-á deixado seduzir pela estranheza do projecto, aceitando interpretar uma mãe galinha programada para matar, pouquíssimo tolerante com todos aqueles que se interpõem entre a sua família e um “sonho americano” que parece ter saído de um anúncio de eletrodomésticos dos anos 50. A história desta serial killer de Baltimore foi o produto de um fascínio antigo de Waters por julgamentos muito mediatizados – seguiu religiosamente os de Charles Manson e Patty Hearst –, resultando, nas palavras do crítico J. Hoberman, numa provocadora “reflexão sobre o crime e a celebridade”. O filme não é visto na Cinemateca desde 1996.


Quinta-feira [17 de setembro] 15:30 | Sala M. Félix Ribeiro
Quarta-feira [23 de setembro] 21:30 | Esplanada

BRIGANDS, CHAPITRE VII

Bandidos
de Otar Iosseliani
com Amiran Amiranashvili, Dato Gogibedashvili, Ghio Tzintsadze, Keti Kapanadze, Alexi Giakeli
França, Rússia, 1996 – 120 min / legendado em português | M/12

Em BANDIDOS um grupo de censores visiona um filme recente, mas a projecção é feita com bobines trocadas, que condicionam a história a saltos pouco canónicos. É este o ponto de partida de um filme em que o poder é revisitado em três épocas, com os mesmos actores e as mesmas personagens, sublinhando a ideia de que a História tem tendência a repetir-se e a ser esquecida. “BANDIDOS é um caleidoscópio que multiplica alegremente os saltos temporais, compara uma personagem ao seu reflexo deformado, segue a linha do destino dos lugares e objectos, está ligado a todo um mundo de tráficos e de torturas, de esperanças loucas e de infelicidades incontáveis. Porém, é também uma comédia, muito divertida, muito desesperada” (Frédéric Bonnaud, Les Inrockuptibles).


Quinta-feira [17 de setembro] 21:30 | Esplanada

QUE HE HECHO YO PARA MERECER ESTO?

Que Fiz Eu Para Merecer Isto?
de Pedro Almodóvar
com Carmen Maura, Ángel de Andrés López, Chus Lampreave
Espanha, 1984 – 101 min / legendado em português | M/16

A quinta longa-metragem de Pedro Almodóvar fecha o que podemos considerar o primeiro período da sua obra: o da Espanha frenética da movida, com filmes pensados para o mercado interno. Com o êxito internacional, que surgiu logo a seguir, Almodóvar teria tendência a transformar num sistema o que fazia até então com espontaneidade. Em QUE HE HECHO YO PARA MERECER ESTO? (o realizador espanhol sempre teve muito humor na escolha de títulos) vemos uma daquelas famílias disfuncionais como só Almodóvar e John Waters, um dos seus mestres inconfessos, sabem mostrar. Um filme delirante e divertido.


Sexta-feira [18 de setembro] 21:30 | Esplanada
Quarta-feira [23 de setembro] 15:30 | Sala M. Félix Ribeiro

THE FEARLESS VAMPIRE KILLERS-DANCE OF THE VAMPIRES

Por Favor Não Me Mordas o Pescoço
de Roman Polanski
com Jack MacGowran, Roman Polanski, Alfie Bass, Sharon Tate
Grã-Bretanha, 1967 – 107 min / legendado eletronicamente em português | M/12

Apesar de não ter sido um grande sucesso de bilheteira quando se estreou, THE FEARLESS VAMPIRE KILLERS tornou-se um dos mais populares filmes de Polanski e um objeto de culto entre os cinéfilos. Se os filmes de vampiros já tinham sido, até então, alvo de algumas paródias, Polanski renova completamente o género introduzindo uma série de elementos novos e provocantes, marcados pelo absurdo, como o vampiro judeu sobre o qual o crucifixo não tem “efeito”, outro sugador de sangue homossexual, etc. Um verdadeiro delírio.


Sábado [19 de setembro] 19:00 | Sala M. Félix Ribeiro

MACUNAÍMA

de Joaquim Pedro de Andrade
com Grande Otelo, Paulo José, Dina Sfat, Milton Ribeiro
Brasil, 1969 – 108 min | M/12

Baseado no romance homónimo de Mário de Andrade (1928), que transpõe de modo libérrimo, MACUNAÍMA costuma ser considerado a obra-prima de Joaquim Pedro de Andrade. É um filme divertidíssimo e literalmente fabuloso: pela imaginação delirante que revela e por contar a fábula de um negro que nasce numa tribo de índios, torna-se branco por milagre, emigra para a grande cidade e acaba por voltar à selva. Tudo isso num tom esfuziante. “Trata-se, nem mais nem menos, de um retrato de todo o Brasil, dos começos na selva aos dias contemporâneos, através de uma reflexão e uma representação sobre a sua cultura e a sua sociedade” (Antonio Rodrigues).


Segunda-feira [21 de setembro] 15:30 | Sala M. Félix Ribeiro

MALTESES, BURGUESES E ÀS VEZES

de Artur Semedo
com Artur Semedo, Yola, Pedro Pinheiro, Nicolau Breyner
Portugal, 1973 – 105 min | M/12

Parcialmente rodado em 1973 em Angola, a comédia de Artur Semedo retrata mordazmente a burguesia colonial pondo em cena a aventureira história de um engajador de imigrantes que muda os seus negócios para Angola onde se envolve num obscuro ambiente social e político. Obscuro tornou-se entretanto o próprio filme, por ser uma obra pouco conhecida e sobretudo pouco vista. Estreado no Avis a 11 de abril de 1974, com distribuição Doperfilme.


Segunda-feira [21 de setembro] 21:30 | Esplanada

RECORDAÇÕES DA CASA AMARELA

de João César Monteiro
com João César Monteiro, Manuela de Freitas, Teresa Calado, Luis Miguel Cintra, Ruy Furtado, Henrique Viana, Sabina Sacchi
Portugal, 1989 – 122 min / legendado em francês | M/16

RECORDAÇÕES DA CASA AMARELA, “uma comédia lusitana”, marca o nascimento de João de Deus, personagem cáustica e poética que só João César Monteiro poderia interpretar. À primeira vez, saído de um manicómio para divagar diletante por Lisboa e “dar-lhes trabalho”, João de Deus encanta-se com uma menina que toca clarinete, passa uma noite de amor sob o olhar de Stroheim em imagem pregada na parede em cima da cama da pensão e transfigura-se em criatura das trevas como Nosferatu no fim do filme.


Terça-feira [22 de setembro] 19:00 | Sala M. Félix Ribeiro

ENSAYO DE UN CRIMEN

Ensaio de Um Crime
de Luis Buñuel
com Ernesto Alonso, Miroslava Stern, Rita Macedo
México, 1955 – 88 min / legendado eletronicamente em português | M/12

ENSAYO DE UN CRIMEN é um dos pontos culminantes da obra de Luis Buñuel, variação sobre o crime, percorrida por todas as obsessões do realizador. Uma obra-prima de humor negro, sobre um homem de aparência plácida e respeitável, a quem um traumatismo de infância “empurra” para o crime, tentando assassinar as mulheres onde projeta as suas frustrações e desejos. Elas morrem todas mas… por acidentes. Justamente considerado como uma das obras-primas de um cinema de inspiração onírica e surrealista. A apresentar em cópia digital.


Quinta-feira [24 de setembro] 21:30 | Esplanada

LENINGRAD COWBOYS GO AMERICA

de Aki Kaurismäki
com Matti Pellonpãá, Kari Vàànãnen, Sakke Jàrvenpàà, Heikki Keskinen
Finlândia, Suécia, 1989 – 82 min / legendado eletronicamente em português  | M/12

Um grupo rock finlandês desiste de uma procura infrutífera de sucesso no seu país e parte para os Estados Unidos, onde chega sem dinheiro e sem papéis. LENINGRAD COWBOYS GO AMERICA foi o maior sucesso de Aki Kaurismäki, dando origem a uma sequela, em que o seu realizador “sabotou” as expectativas criadas pelo filme anterior.


Sexta-feira [25 de setembro] 15:30 | Sala M. Félix Ribeiro

HAPPY-GO-LUCKY

Um Dia de Cada Vez
de Mike Leigh
com Sally Hawkins, Alexis Zegerman, Samuel Roukin
Reino Unido, 2008 – 118 min / legendado em português | M/12

O optimismo de Poppy, personagem interpretada por Sally Hawkins, tem o condão de irritar quase toda a gente à sua volta, a começar pelo seu instrutor de condução, Scott. A premissa deste filme do “realista” Mike Leigh joga com as nossas expectativas, retratando as agruras da vida através do olhar de alguém que é hábil – pelo menos à superfície – a fintar o sofrimento. Como nota Fabien Baumann (Positif), Hawkins encarna, neste papel que lhe valeu uma distinção no Festival de Berlim, uma espécie de (irónico) pólo negativo de algumas das suas personagens mais marcantes, como o desesperado Johnny  (David Thewlis) de NAKED. É o próprio Leigh que, comparando os filmes, isto é, essas duas personagens (aparentemente opostas), nota que ambos são “filmes onde os heróis são idealistas”. Primeira exibição na Cinemateca.


Sábado [26 de setembro] 15:30 | Sala M. Félix Ribeiro
Segunda-feira [28 de setembro] 21:30 | Esplanada

LA COMÉDIE DU TRAVAIL

de Luc Moullet
com Roland Blanche, Sabine Haudepin, Henri Deus, Antonietta Pizzorno
França, 1987 – 88 min / legendado eletronicamente em português | M/12

Fazendo jus ao seu título, LA COMÉDIE DU TRAVAIL é uma comédia sobre o absurdo da situação do trabalho na Europa de fins do século XX, girando à volta das intrincadas relações entre o desemprego e o sistema de subsídios para o desemprego. Uma funcionária da Agência Nacional para o Emprego apaixona-se por um desempregado profissional, um homem que consegue desenrascar-se para viver eternamente do magro subsídio de desemprego. A mulher quer que o homem consiga um trabalho, custe o que custar.


Sábado [26 de setembro] 19:00 | Sala M. Félix Ribeiro

MAHAPURUSH

O Santo
de Satyajit Ray
com Charuprakash Ghosh, Robi Ghosh, Prasad Mukerjee, Gitali Roy
Índia, 1965 – 65 min / legendado em português | M/12

Ligado à tradição bengali das histórias contadas por pessoas que se reúnem em cafés, O SANTO centra-se na história de um impostor que se faz passar por um sadhu (santo, sábio), para enganar um pai e a sua filha. Esta rara incursão de Ray no universo da comédia foi apresentada inicialmente como segunda parte de um díptico (do qual a primeira história, de carácter mais dramático, intitulava-se “O Cobarde”). A apresentar em cópia digital.


Sábado [26 de setembro] 21:30 | Esplanada

M.A.S.H.

M.A.S.H.
de Robert Altmancom Donald Sutherland, Elliott Gould, Tom Skerritt, Sally Kellerman, Robert Duvall
Estados Unidos, 1970 – 116 min / legendado em português | M/16

Ligado à tradição bengali das histórias contadas por pessoas que se reúnem em cafés, O SANTO centra-se na história de um impostor que se faz passar por um sadhu (santo, sábio), para enganar um pai e a sua filha. Esta rara incursão de Ray no universo da comédia foi apresentada inicialmente como segunda parte de um díptico (do qual a primeira história, de carácter mais dramático, intitulava-se “O Cobarde”). A apresentar em cópia digital.


Segunda-feira [28 de setembro] 15:30 | Sala M. Félix Ribeiro

TO DIE FOR

Disposta a Tudo
de Gus Van Sant
com Nicole Kidman, Matt Dillon, Joaquin Phoenix, Casey Affleck
Estados Unidos, 1995 – 106 min / legendado electronicamente em português | M/16

Com argumento de Buck Henry (THE GRADUATE) baseado num romance de Joyce Maynard, este filme representou um importante “furo” para o seu realizador, Gus Van Sant, então ainda muito associado ao cinema independente americano e ao culto em torno de MY OWN PRIVATE IDAHO, mas acima de tudo foi como uma rampa de lançamento para a jovem estrela australiana Nicole Kidman, tal como serviu para apresentar ao grande público os rostos – indissociáveis do actual “star system” – de Joaquin Phoenix e Casey Affleck. Mordaz comédia negra sobre uma mulher consumida pelo sonho tornado obsessão de se tornar uma celebridade televisiva e que não olhará a meios na hora de afastar quem vier atrasar a realização desse objectivo. Primeira exibição na Cinemateca.


Segunda-feira [28 de setembro] 19:00 | Sala M. Félix Ribeiro

TECHNOBOSS

de João Nicolau
com Miguel Lobo Antunes, Luísa Cruz, Américo Silva, Tiago Garrinhas, Sandra Faleiro
Portugal, 2019 – 106 min | M/12

Rodada em Super 16 mm, a terceira longa-metragem de João Nicolau propõe uma peculiar comédia musical que não é uma pura comédia e não é um musical puro, um filme em boa parte cantado e dançado num território que alia o realismo e a imaginação, e em que as chamadas de telemóvel são filmadas como nunca antes. TECHNOBOSS constrói-se à roda da personagem de um profissional de segurança à beira da reforma disposto a gestos inesperados: o surpreendente Luís Rovisco, irrepreensivelmente composto por Miguel Lobo Antunes numa improvável estreia de ator, atravessa paisagens e cenários muitas vezes ao volante da sua cápsula automóvel, esmifra-se, é airoso diante das contrariedades quotidianas, encontra um antigo amor. Cheio de graça e muita melancolia, é também um filme que retrata os contemporâneos tempos do absurdo.


Terça-feira [29 de setembro] 19:00 | Sala M. Félix Ribeiro

IL RITTORNO DI CAGLIOSTRO

de Daniele Ciprì, Franco Maresco
com Luigi Maria Burruano, Franco Scaldati, Pietro Giordano, Robert Englund
Itália, 2003 – 100 min / legendado electronicamente em português | M/12

Na Sicília dos anos 40, os irmãos La Marca estão cansados de fabricar estátuas de Madonas. Decidindo-se pela mudança de ofício, inauguram a produtora Trinacria Films, com a ajuda de um conjunto de pessoas influentes. Depois de uma série de falhanços, a Trinacria Films  investe  numa produção histórica situada no século XVIII que tem como protagonista Cagliostro. No centro do furacão e particularmente “perdido na tradução” está um actor americano interpretado por Robert Englund, o Freddy Krueger da série A NIGHTMARE ON ELM STREET. Um estilizado “filme sobre um filme”, com fotografia a preto e branco mas salpicada por explosões de cor, bem como atravessado, como é típico no cinema de Ciprì e Maresco, por um dispositivo “anti-televisivo”, que cruza ficção com documentário e que tem como estrutura o gag físico reminiscente de Buster Keaton ou dos irmãos Marx. Primeira exibição na Cinemateca.