Em colaboração com IndieLisboa – Associação Cultural

A colaboração entre a Cinemateca e o IndieLisboa, na sua 17ª edição, resulta na programação e organização de duas retrospetivas – a primeira uma inédita integral em Portugal dedicada ao realizador senegalês Ousmane Sembène, a segunda uma homenagem ao 50º aniversário da lendária secção Fórum da Berlinale, retomando alguns dos títulos mais marcantes que fizeram parte do programa da sua primeira edição – e na apresentação, na Cinemateca, da secção do festival “Director’s Cut”, refletindo a História do cinema, a sua memória e o seu património. O programa acompanha as datas do festival, que decorre em Lisboa entre 25 de agosto e 5 de setembro. No caso das retrospectivas de Ousmane Sembène e do Forum, estende-se até 10 de setembro com cinco apresentações de filmes em segunda passagem.

DIRECTOR’S CUT

Esta secção do IndieLisboa mostra filmes que mergulham na memória do cinema como sua principal inspiração e matéria-prima, assim como recupera obras desse passado que ficaram, por uma razão ou outra, esquecidas ou inéditas. Todos os filmes programados são primeiras apresentações na Cinemateca.


Quarta-feira [26 de agosto] 19:00 | Sala M. Félix Ribeiro

LA DIALECTIQUE PEUT-ELLE CASSER DES BRIQUES?

de René Viénet
França, 1973 – 90 min / legendado eletronicamente em português | M/12

Algures entre WHAT’S UP, TIGER LILLY? e LA SOCIÉTÉ DU SPECTACLE, o francês René Viénet, teórico e escritor situacionista, profundo conhecedor da cultura chinesa, “apropriou-se” das imagens de um filme de kung fu e, por uma técnica de détournement, impôs-lhe todo o jargão revolucionário da época, transformando em texto explícito o que pertence, por norma, ao subtexto cultural. Viénet converte as rivalidades no filme numa luta entre o pensamento radical de esquerda e a ideologia dominante e aburguesante. O resultado é uma caricatura do pensamento dialético pós-marxista, sob influência do espírito insurreto do maio de 68, onde por detrás da propriedade intelectual e artística – a que impende sobre as imagens do material de origem –, estará a praia. Como escreveu Jonathan Rosenbaum, “o assunto não é meramente o do controlo e propriedade dos filmes, mas do controlo e propriedade dos seus significados, funções e finalidades.”


Quarta-feira [26 de agosto] 21:30 | Sala M. Félix Ribeiro

EL TANGO DEL VIUDO Y SU ESPEJO DEFORMANTE

de Raúl Ruiz, Valeria Sarmiento
com Rubén Sotoconil, Claudia Paz, Luis Alarcón
Chile, 1967-2020 – 64 min / legendado eletronicamente em português | M/12

Não deixa de ser curioso que um dos realizadores mais prolíficos da história do cinema regresse agora… com a sua primeira longa-metragem, deixada inacabada – e considerada perdida para sempre até há pouco tempo – em resultado da falta do apoio financeiro que pudesse assegurar o design sonoro e pouco tempo antes do exílio provocado pelo golpe militar de Pinochet, em 1973. A descoberta da película 35 mm com uma montagem em bruto deste filme levou a viúva do realizador, sua colaboradora e também cineasta em nome próprio, Valeria Sarmiento, a “recozinhar” o material, aprofundando um diálogo que esta diz entabular em sonhos com o marido. O filme fala sobre uma assombração: de um professor de literatura pela sua falecida mulher. Um drama social em tons surrealistas.


Quinta-feira [27 de agosto] 19:00 | Sala M. Félix Ribeiro

ABSOLUTE STREET

de Jan Ijäs
Finlândia, 2019 – 3 min

ECLIPSE – UNE ESTHETIQUE DE LA CENSURE

de Noé Grenier, Gilles Ribero, Gwendal Sartre
França, 2018 – 16 min

ANNA/NANA/NANA/ANNA

de Mark Rappaport
Estados Unidos, França, 2020 – 26 min

CONRAD VEIDT – MY LIFE

de Mark Rappaport
Estados Unidos, França, 2019 – 61 min

duração total da sessão: 106 min / legendado eletronicamente em português | M/12

CONRAD VEIDT – MY LIFE

Samuel Beckett procurava a “rua absoluta” para abrir o seu único filme para cinema, FILM, com Buster Keaton e correalizado por Alan Schneider. ABSOLUTE STREET, do finlandês Jan Ijäs, reúne várias planos, em jeito de vistas lumièrianas, com várias ruas em Nova Iorque. Ao mesmo tempo, ouvimos Beckett a discutir com a equipa de produção o seu conceito para essa rua “inaugural”. ECLIPSE – UNE ESTHETIQUE DE LA CENSURE recupera as palavras trocadas entre censores franceses dos anos 50, 60 e 70 para esboçar um olhar intensamente moral e estético sobre as imagens do cinema – é possível uma “estética da censura”? A mais recente investigação ficcional do cine-ensaísta Mark Rappaport tem como objeto de desejo a atriz a quem um dia prometeram vir a ser tão grande ou maior do que Garbo ou Dietrich: a russa Anna Sten. Em ANNA/NANA/NANNA/ANNA, Rappaport começa na era em que os atores e atrizes ainda tinham rostos – o mudo – para, depois, percorrer a carreira acidentada dessa atriz em Hollywood. CONRAD VEIDT – MY LIFE é mais uma cine-biografia de Rappaport sobre a vida on screen de uma estrela de Hollywood, do Conrad Veidt, “o sonâmbulo”, de CALIGARI ao Veidt da fase anglófona, um rosto crescentemente preso aos papéis de nazi (CASABLANCA), passando por uma interpretação maldita, que inspirou Goebbels, em JEW SÜSS. Primeiras apresentações na Cinemateca.


Sexta-feira [28 de agosto] 19:00 | Sala M. Félix Ribeiro

FANTASMAS DO IMPÉRIO

de Ariel de Bigault
Portugal, França, 2020 – 120 min / legendado eletronicamente em português | M/12

com a presença de Ariel de Bigault

Cineasta particularmente sensível aos problemas da representação dos imigrantes e do passado colonial no cinema falado em português, a documentarista Ariel de Bigault vira-se agora para o tema do imperialismo lusitano e o discurso de propaganda que lhe está associado. Face às imagens do cinema português, e com a ajuda de realizadores como Fernando Matos Silva, João Botelho ou Margarida Cardoso, Ariel de Bigault delega no ator são-tomense Ângelo Torres o papel de guia numa narrativa que se propõe despertar velhos fantasmas no coração do imaginário coletivo português.


Terça-feira [1 de setembro] 19:00 | Sala M. Félix Ribeiro

SLUČAJ MAKAVEJEV ILI PROCES U BIOSKOPSKOJ SALI

“O Caso Makavejev ou Julgamento numa Sala de Cinema”
de Goran Radovanović
Sérvia, 2019 – 74 min / legendado eletronicamente em português | M/12

O nome do jugoslavo Dusan Makavejev é sinónimo de polémica: a sua obra mais conhecida, W.R. OS MISTÉRIOS DO ORGANISMO (1971), foi banida no seu país de origem e censurada em vários outros por causa do seu teor alegadamente “pornográfico” e por argumentar que o comunismo se cumpriria apenas na máxima libertação dos corpos, qual revolução da libido. Radovanović conta, neste documentário, como o filme lançou um debate profundo na sociedade jugoslava de então, agitando consciências e testando os limites impostos à liberdade artística pelo regime comunista. Numa entrevista dada aos Cahiers du cinéma em 1969, Makavejev, fã de Godard e Eisenstein, confidenciou: “Trata-se sempre de nos libertarmos das autoridades, de destruir as estruturas fixas, de abrir as portas, (…) de construir um mundo aberto onde cada indivíduo possa ser ele mesmo.”


Sexta-feira [4 de setembro] 19:00 | Sala M. Félix Ribeiro

FILMFARSI

de Ehsan Khoshbakht
Irão, Reino Unido, 2019 – 84 min / legendado eletronicamente em português | M/12

com a presença de Ehsan Khoshbakht

Antes da esplendorosa geração composta por grandes mestres como Abbas Kiarostami, Jafar Panahi ou Mohsen Makhmalbaf, o cinema iraniano era um verdadeiro caudal de géneros fílmicos, participando no que se convencionou chamar pejorativamente “filmfarsi”. Os filmes anteriores à revolução de 1979 são objeto de escavação arqueológica por parte do codiretor do Il Cinema Ritrovato Festival, Ehsan Khoshbakht. Com base numa plêiade de filmes em formato VHS, oriunda da sua coleção privada, viajamos por imagens que procuraram cristalizar, a dado ponto na história, o projeto de um cinema puramente persa. Mas, como nota Khoshbakht, de puro este cinema pré-islâmico tinha pouco: remakes falados em farsi de grandes clássicos do “Ocidente”, como VERTIGO ou SABRINA, são alguns dos tesouros que aqui se dão a conhecer. Escreveu o realizador para o The Guardian: “Para muitos iranianos hoje em dia, filmfarsi é uma lembrança de um passado perdido. Já eu (…) vejo os filmes como documentos sobre como a sociedade iraniana mudou.”