em colaboração com a APE – Associação Portuguesa de Escritores

As relações entre literatura e cinema ao longo da história deste e tendo em conta as múltiplas questões que podem ser levantadas a esse propósito têm sido frequentemente abordadas na Cinemateca, incluindo em programas apresentados nos últimos meses, e continuarão de resto a sê-lo em ciclos planeados para o futuro próximo. Neste programa, acolhemos um desafio da APE (Associação Portuguesa de Escritores) para com ela evocar a ponte entre livros e filmes que marcaram a história destes dois mundos (literatura e cinema) seja em contexto internacional seja em contexto português. Se a história da adaptação cinematográfica demonstrou à saciedade que a transposição de um universo para outro não significa por si que haja relevância equivalente nos dois campos (abundam grandes filmes baseados em livros secundários e grandes livros que não tiveram adaptações de relevo), vamos então falar de casos em que essa dupla importância existiu. Desenhado em colaboração entre as duas entidades, e contando com a participação destacada de Luis Machado em nome da APE, o ciclo dá a ver sete filmes que são outros tantos diálogos com livros de renome, incluindo as formas literárias do romance, do conto ou da dramaturgia. No plano internacional, evocam-se quatro exemplos da história da literatura que desembocaram, e com não pouco impacto, na do cinema: An American Tragedy de Dreiser, um dos expoentes do naturalismo americano publicado em 1925, que Eisenstein planeou levar ao ecrã e que, antes desta versão de G. Stevens (A PLACE IN THE SUN, de 1951, também baseada na peça levada à cena na Broadway), tivera já outra, de grande importância, assinada por Sternberg em 1931; “The Dead”, o conto de Joyce inserido na coletânea Dubliners de 1914, admiravelmente filmado por Huston no seu derradeiro filme de 1987; Lolita de Nabokov, na sua primeira e mais perturbante adaptação, feita por S. Kubrick em 1962, sete anos após a publicação do romance; Sweet Bird of Youth, uma das muitas grandes peças de Tennessee Williams adaptadas ao cinema, no memorável filme de Richard Brooks de 1962. No âmbito nacional, incluem-se três obras literárias marcantes da literatura portuguesa do século XX em três períodos distintos: o primeiro romance de Manuel da Fonseca (1943) tornado filme de Luis Filipe Rocha em 1980; O Delfim de Cardoso Pires (1968) adaptado por Fernando Lopes em 2001; A Corte do Norte de Agustina Bessa-Luís (1987) filmado por João Botelho em 2008. São sete exemplos desse diálogo entre dois campos, através dos quais interrogamos tanto o que passa de um para outro como aquilo que, justamente, só pode acontecer em cada um deles. Todas as sessões serão apresentadas por convidados especiais que evocarão brevemente, caso a caso, os dois objetos em causa.


Segunda-feira [4] 21:30 | Sala M. Félix Ribeiro

A PLACE IN THE SUN

Um Lugar ao Sol
de George Stevens
com Montgomery Clift, Elizabeth Taylor, Shelley Winters, Raymond Burr, Anne Revere
Estados Unidos, 1951 – 120 min / legendado eletronicamente em português | M/12

sessão apresentada por José Manuel Mendes

Segunda versão do clássico de Theodore Dreiser, An American Tragedy, um livro que fizera parte dos malogrados projetos de Sergei M. Eisenstein em Hollywood. Óscar de melhor fotografia para William C. Mellor, A PLACE IN THE SUN contém os mais famosos “encadeados” do cinema americano até então. Montgomery Clift é um jovem que procura a promoção social através do casamento com a filha de um industrial e acaba envolvido na morte de uma antiga namorada. Um filme magnífico, muito provavelmente o melhor do seu realizador e um excelente desempenho da jovem e belíssima Elizabeth Taylor. A apresentar em cópia digital.


Quinta-feira [7] 19:00 | Sala M. Félix Ribeiro

THE DEAD

Gente de Dublin
de John Huston
com Anjelica Huston, Donal McCann, Rachel Dowlin
Estados Unidos, 1987 – 80 min / legendado em português | M/12

sessão apresentada por Salvato Teles de Menezes

Último filme de John Huston (foi distribuído postumamente) a partir de um conto de James Joyce publicado em The Dubliners, THE DEAD é uma obra-prima elegíaca. Um jantar de fim de ano no começo do século XX é o cenário da encenação de uma despedida, a do próprio Huston ao cinema e à vida. Filmado na Irlanda, com um elenco estritamente irlandês (os Huston e atores dos teatros Abbey e Gate), THE DEAD segue Gabriel Conroy (Donald McCann) na sua descoberta da memória que a mulher, Gretta (Anjelica Huston), guarda de um falecido amor.


Quinta-feira [14] 21:30 | Sala M. Félix Ribeiro

SWEET BIRD OF YOUTH

Corações na Penumbra
de Richard Brooks
com Paul Newman, Geraldine Page, Shirley Knight, Ed Beagley, Rip Torn, Mildred Dunnock
Estados Unidos, 1962 – 120 min / legendado em português | M /12

sessão apresentada por Carlos Avilez e Luís Machado

Adaptação de uma peça de Tennessee Williams, onde Geraldine Page tem uma das suas mais dramáticas interpretações no papel de uma estrela de Hollywood em decadência que procura “reencontrar” a juventude através do corpo de um jovem Paul Newman, seu gigolo desencantado. “Anti-herói”, num dos papéis da sua vida, raras vezes Paul Newman terá sido mais desejável do que em SWEET BIRD OF YOUTH. Geraldine Page foi nomeada para um Óscar pelo seu papel no filme.


Terça-feira [19] 18:30 | Sala Luís de Pina

CERROMAIOR

de Luís Filipe Rocha
com Carlos Paulo, Clara Joana, Ruy Furtado, Elsa Wallenkamp
Portugal, 1980 – 90 min | M/12

sessão apresentada por José Manuel Mendes

Inspirado no romance homónimo de Manuel da Fonseca e noutros contos com o mesmo tema, Luís Filipe Rocha realizou um dos filmes portugueses de maior destaque na década de oitenta: retrato do horizonte sem fim e das vidas sem horizonte do Alentejo e representação do conflito entre os trabalhadores rurais e os latifundiários, acompanhando as frustrações românticas do filho de um proprietário.


Sábado [23] 21:30 | Sala M. Félix Ribeiro

LOLITA

Lolita
de Stanley Kubrick
com Sue Lyon, James Mason, Shelley Winters, Peter Sellers
Reino Unido, 1962 – 153 min / legendado eletronicamente em português

sessão apresentada por Daniel Sampaio

Adaptação do polémico romance de Vladimir Nabokov, pelo próprio escritor (nomeado para o Óscar pelo seu trabalho). Um professor casa com uma viúva para poder estar ao lado da sua paixão, a adolescente Lolita. Um filme que causou escândalo na época da sua estreia e que é um caso extremamente interessante em termos de adaptação e de colaboração entre dois singularíssimos criadores.


Segunda-feira [25] 18:30 | Sala Luís de Pina

O DELFIM

de Fernando Lopes
com Rogério Samora, Alexandra Lencastre, Rui Morrison, Miguel Guilherme, Joaquim Leitão
Portugal, França, 2001 – 83 min | M/12

sessão apresentada por José Manuel de Vasconcelos

O DELFIM junta duas das maiores figuras da cultura nacional: o realizador Fernando Lopes, figura chave do Novo Cinema português, e o escritor José Cardoso Pires, autor do livro do qual o filme é adaptado. Através de dois dos maiores atores da sua geração (Rogério Samora e Alexandra Lencastre), O DELFIM lança um olhar sobre a decadência da alta burguesia portuguesa no final da década de sessenta, últimos anos de um país ainda preso à mentira da ditadura e à corrupção dos seus elos sociais e pessoais. Um dos maiores sucessos do cinema português dos últimos anos e um dos seus objetos mais prodigiosamente filmados.


Quinta-feira [28] 18:30 | Sala Luís de Pina

A CORTE DO NORTE

de João Botelho
com Ana Moreira, Ricardo Aibéo, Rogério Samora, Custódia Galego
Portugal, 2008 – 122 min | M/16

sessão apresentada por Ana Margarida de Carvalho

Baseado no romance homónimo de Agustina Bessa-Luís (1987), o filme de João Botelho é uma epopeia familiar, centrada nos ecos e reflexos que unem (ou afastam) várias gerações de personagens femininas pertencentes à mesma família. Ana Moreira, em papel múltiplo, dá corpo a todas essas mulheres, num filme construído em vaivéns temporais ao longo de cem anos, de meados do século XIX a meados do século XX.