Shirley Clarke (1919-1997) foi uma figura essencial no cinema independente norte-americano, e autora de uma obra que fez da mescla de estilos e registos (o documentário, a ficção, o ensaio experimental, o testemunho e a reflexão de cariz sociopolítico) um dos seus eixos centrais. Clarke começou por ser bailarina, integrante de companhias de dança de vanguarda, e quando, nos anos 1950, se voltou para o cinema foi ainda através do bailado e de um olhar sobre o bailado, numa série de curtas-metragens realizadas ao longo da década. Aluna de Hans Richter, integrada na efervescente comunidade vanguardista de Greenwich Village, ao lado de nomes como Maya Deren, Stan Brakhage, Jonas Mekas, Lionel Rogosin, entre outros, depois membro fundador, com toda esse gente da Filmmakers’ Cooperative, Clarke estreou-se na longa-metragem em 1961 com um filme que deu brado: THE CONNECTION, cujo retrato de um grupo de músicos de jazz heroinómanos encontrou diversas barreiras à exibição pública. Seguiram-se THE COOL WORLD, filmando a juventude negra do Harlem (num filme produzido por Frederick Wiseman, ainda antes de se lançar como realizador) e PORTRAIT OF JASON, outro dos seus filmes cruciais, de novo um olhar sobre a marginalidade e o preconceito sociais construído a partir da figura de um ex-prostituto negro e gay. Veremos, neste ciclo organizado a propósito do seu centenário, todos estes filmes de Clarke (porventura os mais decisivos para firmar a sua importância), e acrescentamos um quarto, nunca visto nestas salas: ORNETTE, MADE IN AMERICA, que foi o derradeiro opus da cineasta americana.


Segunda-feira [4] 19:00 | Sala M. Félix Ribeiro

THE CONNECTION

de Shirley Clarke
com Warren Finnerty, Jerome Raphael, Garry Goodrow, Jim Anderson
Estados Unidos, 1961 – 102 min / legendado eletronicamente em português | M/12

THE CONNECTION, primeira longa-metragem da autora, é o filme em que Shirley Clarke tenta filmar um grupo de junkies à espera de heroína. Especialmente controverso (Clarke precisou de recorrer a instâncias judiciais para que lhe fosse concedida uma licença para estrear o filme comercialmente) venceu um prémio da crítica em Cannes e é hoje um documento valioso sobre a contracultura do início dos anos 1960 e uma obra fundamental do cinema americano independente.


Terça-feira [5] 19:00 | Sala M. Félix Ribeiro
Quarta-feira [6] 18:30 | Sala Luís de Pina

THE COOL WORLD

Harlem
de Shirley Clarke
com Hampton Clanton, Yolanda Rodriguez, Carl Lee, Bostic Felton, Gloria Foster
Estados Unidos, 1963 – 102 min / legendado eletronicamente em português | M/12

A segunda longa-metragem de Shirley Clarke, THE COOL WORLD, é um dos seus filmes mais conhecidos: centrado na cultura urbana negra do Harlem, retrata cruamente a realidade da vivência quotidiana das ruas daquele bairro nos anos 60. O jazz é naturalmente a música de THE COOL WORLD, e o ritmo musical da montagem é devedor da formação de bailarina e coreógrafa da realizadora, discípula de Martha Graham.


Quarta-feira [6] 21:30 | Sala M. Félix Ribeiro
Quinta-feira [7] 18:30 | Sala Luís de Pina

PORTRAIT OF JASON

de Shirley Clarke
com Jason Holliday
Estados Unidos, 1967 – 105 min / legendado eletronicamente em português | M/12

Um clássico do New American Cinema e um exemplo da variedade do cinema nova-iorquino dos anos 60, feito por uma realizadora que muito contribuiu para a abolição das fronteiras convencionais entre realidade e ficção. Jason Holliday, um amigo de Shirley Clarke, negro, homossexual e potencial artista de cabaret, narra a sua vida diante da câmara, enquanto bebe e fuma charros, transformando o que teria sido uma entrevista numa autêntica encenação da sua pessoa. Ingmar Bergman declarou: “É o filme mais fascinante que já vi”. A apresentar em cópia digital


Quinta-feira [7] 21:30 | Sala M. Félix Ribeiro
Sexta-feira [8] 18:30 | Sala Luís de Pina

ORNETTE: MADE IN AMERICA

de Shirley Clarke
com Ornette Coleman
Estados Unidos, 1985 – 77 minutos / legendado eletronicamente em português | M/12

O último filme de Shirley Clarke, feito em torno da figura do saxofonista Ornette Coleman. Numa estrutura, ela própria, “jazzística”, ORNETTE: MADE IN AMERICA concilia depoimentos de várias personalidades, fragmentos de atuações musicais, pequenos ensaios de montagem, e momentos encenados da vida de Ornette Coleman. Clarke começou a trabalhar no filme ainda na década de 60, época a que pertencem as imagens originais mais remotas de ORNETTE. A apresentar em cópia digital, em primeira exibição na Cinemateca.