Como divulgado no jornal do mês anterior, os 70 anos da Cinemateca não serão só marcados por mais um foco na nossa história e nos nossos desafios mas também por um olhar sobre as cinematecas no mundo. Em devido tempo falaremos de nós e do nosso lugar na rede internacional das cinematecas, arquivos e museus de cinema – uma rede na qual nos inserimos cedo, uma vez que integrámos o que se pode considerar o segundo impulso de criação de organismos congéneres, ocorrido nos anos do pós-Segunda Guerra Mundial, depois daquele que dera origem ao núcleo de pioneiros nascidos na década de trinta do século XX. Mas, de facto, falar da Cinemateca é falar das cinematecas, da sua história, das suas missões e do contexto em que evoluem, assim como das visões que têm em relação às suas tarefas e ao seu futuro. E é portanto esse o motivo pelo qual convidámos um grupo de organismos relevantes de outros países (europeus e não só), aos quais pedimos que nos trouxessem não apenas alguns exemplos dos seus respetivos acervos nacionais mas (através dos seus máximos responsáveis) um contributo para a reflexão sobre os grandes desafios comuns.
Para inaugurar a série, estará connosco a Fondazione Cineteca di Bologna, um organismo cuja história é mais recente (o seu embrião foi criado em 1963) mas que em poucas décadas se tornou já referência em várias áreas de atividade. Nascida como cinemateca regional – no seio do muito específico panorama institucional italiano, que integra vários organismos de âmbitos e com passados bastante diferentes – esta é uma cinemateca cujo desenvolvimento assentou também na integração de duas valências especialíssimas (e entre si complementares) que são um importante laboratório de restauro (“L’Imagine Ritrovata”) e um extraordinário festival anual de património (“Il Cinema Ritrovato”). Falar de “Bolonha” é então falar dessa integração, e tudo isso será evocado pelo Diretor Gian Luca Farinelli, que estará connosco na abertura do Ciclo e que, no dia seguinte, aqui inaugurará também o Ciclo de conferências sobre o presente e o futuro das cinematecas
Partindo de sugestões apresentadas pelos nossos colegas de Bolonha, o programa do Ciclo integra dez sessões (excetuando as repetições) onde se procurou combinar a relevância dos títulos com a diversidade dos mesmos, e ainda, em boa parte, com o seu ineditismo na nossa própria história de programação. Aberto com um dos filmes supremos do cinema italiano e mundial (IL GATTOPARDO, de Luchino Visconti), e incluindo outros títulos essenciais como VIAGGIO IN ITALIA de Roberto Rossellini, o Ciclo inclui ficção e documentário (mostrando-se aqui de novo, nesta última área, as célebres curtas-metragens realizadas por Vittorio De Seta na Sicília, na Sardenha e na Calabria entre 1954 e 1959), versões restauradas de outras obras históricas (a versão longa de LA RABBIA de Pasolini), um grande exemplo do cinema mudo italiano (RAPSODIA SATANICA de Oxilia com Lyda Borelli) e cinco filmes nunca exibidos nas nossas salas (de Luigi Zampa, Marco Ferreri, Gian Vittorio Baldi, Francesco Rosi e Franco Brusati).


Sala M. Félix Ribeiro | Seg. [5] 21:30
Sala Luís de Pina | Qui. [8] 22:00

IL GATTOPARDO

O Leopardo
de Luchino Visconti
com Burt Lancaster, Alain Delon, Claudia Cardinale, Serge Reggiani, Rina Morelli, Paolo Stoppa
Itália, França, 1963 – 185 min / legendado eletronicamente em português | M/12

sessão de dia 5 apresentada por Gian Luca Farinelli, Diretor da Fondazione Cineteca di Bologna

Adaptado do romance de Tomasi De Lampedusa, IL GATTOPARDO é um dos pontos culminantes da obra de Luchino Visconti e um exemplo maior do cinema histórico, pelo rigor da análise social, pelo retrato das personagens e pela descrição dos conflitos. O pano de fundo é a libertação da Itália por Garibaldi e o tema o fim de uma era e o nascimento de outra, com as soluções de compromisso e as cumplicidades do poder com as antigas classes dirigentes. Burt Lancaster compõe um fabuloso Príncipe de Salina, que sabe que “é preciso que alguma coisa mude para que fique tudo na mesma”. A apresentar em cópia digital.


Sala Luís de Pina | Ter. [6] 18:30

CONFERÊNCIA 

“As Cinematecas Hoje: por uma Cinemateca em Viagem”
Gian Luca Farinelli, Diretor da Fondazione Cineteca di Bologna


Sala M. Félix Ribeiro | Ter. [6] 19:00
Sala Luís de Pina | Seg. [19] 18:30

VIAGGIO IN ITALIA

de Roberto Rossellini
com Ingrid Bergman, George Sanders, Maria Mauban, Anna Proclemer
Itália, 1953-1954 – 84 min / legendada eletronicamente em português | M/12

VIAGGIO IN ITALIA é muito possivelmente o filme maior de Roberto Rossellini. A crise de um casal de ingleses numa viagem por Itália, a perda e a reconquista da fé, que é o milagre interior que acompanha aquele a que o par assiste durante uma procissão. O filme que, como escreveu Jacques Rivette na sua célebre “Lettre sur Rossellini”, abriu “uma brecha por onde todo o cinema moderno deve obrigatoriamente passar”. A apresentar na versão inglesa, em cópia digital.


Sala M. Félix Ribeiro | Qua [7] 21:30

ANNI DIFFICILI

de Luigi Zampa
com Umberto Spadano, Ave Ninchi, Della Scala
Itália, 1948 – 113 min / legendado eletronicamente em português | M/12

Realizada quando o movimento neorrealista italiano estava no auge, ANNI DIFFICILI é a décima longa-metragem de Luigi Zampa. Trata-se da história de um funcionário que, nos anos trinta, é obrigado a aderir ao partido fascista, que detesta, mas tem de calar as suas opiniões. À época, Fernaldo di Giamatteo observou na reputada revista Bianco e Nero: “Os argumentistas quiseram fazer-nos rir do fascismo. Conceberam uma longa história que cobre metade dos 20 anos do regime (a metade mais cheia de acontecimentos e tragédias) e vai até à libertação. Trata-se de uma sátira complexa e cheia de contrastes, que enfrenta com inegável coragem as reações mais desesperadas, perscruta o espírito dos homens, condena uma ideologia”. Primeira exibição na Cinemateca.


Sala M. Félix Ribeiro | Qui. [8] 19:00
Sala Luís de Pina | Sex. [16] 22:00

LU TEMPO DI LI PISCI SPATA
ISOLE DI FUOCO
SURFARARA
PACQUA IN SICILIA
CONTADINI DEL MARE
PARABOLA D’ORO
PESCHERECCI
PASTORI DI ORGOSOLO
UN GIORNO IN BARBAGIA
I DIMENTICATI

de Vittorio De Seta
Itália, 1954-59 – 9, 9, 9, 8, 9, 9, 10, 10, 9, 17 min / sem diálogos

duração total da projeção: 99 min | M/12

I DIMENTICATI

Dos cineastas italianos de grande envergadura, Viittorio De Seta (1923-2011) foi aquele cujo pleno reconhecimento foi o mais tardio, em parte porque nunca se quis inserir na indústria cinematográfica, privilegiando o documentário. Nos anos dois mil, o programa que vamos ver foi reunido pela Cinemateca de Bolonha sob o título genérico “Il Mondo Perduto / O Mundo Perdido” e reúne dez curtas-metragens documentais realizadas por De Seta na segunda metade da década de cinquenta, na Sardenha, na Sicília e na Calábria. De Seta filma o mundo do trabalho e dos gestos quotidianos de pastores, pescadores e operários, bem como a sua ligação à paisagem – ao mar, à terra, ao céu.


Sala Luís de Pina | Qua. [7] 18:30
Sala Luís de Pina | Sex. [9] 18:30

RAPSODIA SATANICA

de Nino Oxilia
com Lyda Borelli, Andrea Habay, Ugo Bazzini
Itália, 1917 – 60 min / mudo, versão musicada, intertítulos em italiano legendados em inglês | M/12

RAPSODIA SATANICA é um exemplo do “cinema das divas”, as supervedetas criadas pelo cinema italiano cerca de 1914, que estão sempre às voltas com peripécias extravagantes. As mais célebres foram Pina Menichelli, Francesca Bertini e Lyda Borelli, a vedeta do filme que vamos ver. Trata-se da história de uma mulher que faz um pacto faustiano: consegue ficar eternamente jovem, com a condição de não se apaixonar. Naturalmente, encontra dois homens que se apaixonam por ela. Pietro Mascagni compôs uma partitura especialmente para o filme. “É a sua enorme tensão que torna o filme tão belo e comovente e o põe diretamente no seu contexto: arte do espetáculo, arte viva”, observou Eric de Kuyper. O filme não é apresentado na Cinemateca desde 2002.


Sala M. Félix Ribeiro | Sex. [9] 21:30
Sala Luís de Pina | Sex. [16] 18:30

LA RABBIA

de Pier Paolo Pasolini
com Giorgio Bassani e Renato Guttuso (vozes)
Itália, 1963 – 53 min / legendado eletronicamente em português | M/12

“LA RABBIA é um ensaio polémico e ideológico sobre acontecimentos de anos recentes, feito a partir de uma montagem de atualidades cinematográficas e curtas-metragens”, declarou Pasolini, que, para preparar o seu trabalho, visionou centenas de horas filmadas, para responder à pergunta posta pelo produtor: “Porque é que a nossa vida é dominada pelo descontentamento, pela angústia, pelo medo da guerra e pela guerra?” O resultado é um ensaio cinematográfico, comparável a certos trabalhos de Chris Marker. O produtor, no entanto, resolveu “equilibrar” o filme e confiou a realização da segunda metade do mesmo a um homem de direita, Giovanni Guareschi, provocando a fúria de Pasolini, que o renegou quando viu o resultado final (não aquilo que fizera, mas a junção das duas partes). A versão que apresentamos inclui unicamente o trabalho feito por Pasolini.


Sala M. Félix Ribeiro | Seg. [12] 19:00
Sala Luís de Pina | Qui. [15] 22:00

BREAK UP / L’UOMO DEI PALLONI

Colapso
de Marco Ferreri
com Marcello Mastroianni, Catherine Spaak, Ugo Tognazzi
Itália, 1968 – 85 min / legendado em inglês e eletronicamente em português | M/12

Marco Ferreri teve um itinerário curioso: começou a sua carreira em Espanha, onde realizou três filmes, antes de passar a trabalhar no seu país natal, onde deformou os esquemas da comédia à italiana, numa série de sátiras um tanto alegóricas. BREAK UP (ou L’UOMO DEI PALLONI) foi um filme absolutamente maldito: censurado devido a cenas “inconvenientes” e a seguir reduzido pelo produtor, à revelia de Ferreri, a 25 minutos e inserido como um dos episódios de OGGI, DOMANI, DOPODOMANI. O filme acabou por ser reconstituído e visto numa versão próxima das intenções do realizador. Trata-se da história de um industrial que está sempre a encher balões, para saber onde até onde pode fazê-lo, sem que estes explodam. No seu livro sobre Ferreri, Alberto Scandola descreve o filme como “uma fábula cruel sobe a fratura entre a razão e o caos, que abala a rotina protetora de um industrial prisioneiro de uma regressão infantil”. A apresentar em cópia digital, numa primeira exibição na Cinemateca.


Sala Luís de Pina | Qua. [14] 18:30

FUOCO!

de Gian Vittorio Baldi
com Mario Bagnato, Lidia Bondi, Giorgio Maurini
Itália, 1968 – 87 min / legendado eletronicamente em português | M/12

Gian Vittorio Baldi (1930-2015) foi uma importante personalidade do cinema italiano, embora tenha tido pouca visibilidade. A Cinemateca de Bolonha prestou-lhe uma mais que merecida homenagem, nos seus últimos anos. Ligado a Roberto Rossellini, Baldi fundou o Instituto Italiano do Documentário em 1960. Como produtor, trabalhou com Pasolini (PORCILE) e Bresson (QUATRE NUITS D’UN RÊVEUR”). Entre 1950 e 1960, realizou uma série de notáveis documentários de curta-metragem, em que se manifestam características que marcariam todo o seu cinema: “a marginalidade humana e existencial, os rituais da solidão, o espaço claustrofóbico, a contaminação entre a realidade documental e a manipulação da encenação” (Roberto Chiesi). Estas características também se manifestam em FUOCO!, história de um homem armado até aos dentes e assediado numa casa com a sua mulher e o cadáver de uma velha. Primeira exibição na Cinemateca.


Sala M. Félix Ribeiro | Qua. [14] 21:30
Sala Luís de Pina | Qui. [22] 22:00

IL CASO MATTEI

O Caso Mattei
de Francesco Rosi
com Gian Maria Volontè, Luigi Squarzzini, Peter Baldwin
Itália, 1972 – 116 min / legendado em inglês e eletronicamente em português | M/12

Francesco Rosi foi consagrado com o seu terceiro filme, SALVATORE GIULIANO, em que utiliza atores não profissionais e um estilo próximo do documentário, embora se trate de uma ficção. Onze anos depois, usou uma técnica semelhante em IL CASO MATTEI, em que é investigada a morte misteriosa e nunca inteiramente esclarecida do industrial Enrico Mattei, em 1962. Inquérito sobre um inquérito, o filme não idealiza a sua personagem titular e pende para a tese segundo a qual a sua morte não foi acidental. Gian Maria Volontè, então no auge da fama, tem um desempenho notável. A apresentar em cópia digital numa primeira exibição na Cinemateca.


Sala M. Félix Ribeiro | Qui. [15] 19:00

PANE E CIOCCOLATA

Pão e Chocolate
de Franco Brusati
com Nino Mafnredi, Anna Karina, Paolo Turco
Itália, 1974 – 100 minutos min / legendado em inglês e eletronicamente em português | M/12

Franco Brusati trabalhou sobretudo como argumentista (para nomes como Luciano Emmer e Roberto Rossellini) e teve uma carreira relativamente breve como realizador, alternando dramas e comédias. PANE E CIOCCOLATA teve enorme êxito internacional, por reciclar a “comédia à italiana”, que tivera tanto sucesso nos anos cinquenta e sessenta, e por confiar o papel principal a uma vedeta destas comédias, Nino Manfredi. Em PANE E CIOCCOLATA acompanhamos as desventuras de um imigrante siciliano na Suíça, que por mais que se esforce por ser bem-sucedido e ser mais suíço do que os suíços, que lhe são permanentemente hostis, não consegue o que quer, mas também não desiste. A apresentar em cópia digital numa primeira exibição na Cinemateca.

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