Combatendo a perda de espectadores para a televisão que se vinha agudizando desde o final dos anos quarenta, a Fox estreou em 1953 um formato de imagem “bigger than life”: o CinemaScope, que praticamente duplicava o “aspect ratio” (2,66:1 contra o 1,37:1 que era então o formato “standard”) e fazia do ecrã do cinema um retângulo irreproduzível no formato quadrado dos televisores domésticos. O filme inaugural foi THE ROBE, de Henry Koster, mas muitos outros se seguiram, praticamente instituindo o formato da imagem anamórfica como um novo “standard”. Embora a Fox tenha licenciado o processo do CinemaScope para uso de outros grandes estúdios, alguns deles desenvolveram formatos rivais, como a Paramount com o VistaVision; e a Panavision, que inicialmente fabricava lentes e projetores para o CinemaScope, em breve desenvolveu um outro processo de imagem anamórfica e ecrã largo (o Panavision, justamente). Também os europeus inventaram os seus processos anamórficos, como, em França, o Franscope, formato em que foi rodado, por exemplo, o LE MÉPRIS de Godard. Apesar disso, a palavra “cinemascope” prevaleceu como sinónimo do ecrã largo, e é comum chamar-se “cinemascope” ao que corresponde, na verdade, a processos diferentes (algo em que os próprios estúdios incorreram: a MGM, por exemplo, continuou a usar a designação CinemaScope até muito tempo depois de ter passado a utilizar o Panavision).
No mês em que Jean-Paul Verscheure vem à Cinemateca, no âmbito das “Histórias do Cinema”, para animar um conjunto de palestras e sessões sob o tema das mutações ao nível dos formatos da imagem cinematográfico, propomos um programa dedicado ao CinemaScope tomado no seu sentido estrito: dez filmes, americanos e europeus, rodados realmente em CinemaScope, cobrindo, grosso modo, o período em que este processo específico foi regularmente utilizado, e que vai de 1953 ao final dos anos sessenta.


Sala M. Félix Ribeiro | Qui. [1] 15:30

BRIGADOON

A Lenda dos Beijos Perdidos
de Vincente Minnelli
com Gene Kelly, Cyd Charisse, Van Johnson, Elaine Stewart, Barry Jones, Hugh Laing
Estados Unidos, 1954 – 108 min / legendado em português | M/12

A quintessência do musical, no que é um deslumbrante conto fantástico sobre uma aldeia escocesa que “vive” um dia em cada século e é descoberta por dois caçadores. Um deles, Gene Kelly, encontra ali o amor da sua vida, o que permitirá um milagre. BRIGADOON contém um dos mais belos bailados a dois no cinema: Gene Kelly e Cyd Charisse em Heather on the Hill.


Sala M. Félix Ribeiro | Qui. [1] 19:00

MOONFLEET

O Tesouro de Barba Ruiva
de Fritz Lang
com Stewart Granger, Jon Whiteley, Joan Greenwood, George Sanders, Viveca Lindfors
Estados Unidos, 1955 – 87 min / legendado em português | M/6

O universo de Stevenson, entre Treasure Island e Kidnapped, não teve melhor versão no cinema do que nesta obra-prima de Fritz Lang, que adapta o livro de outro escritor, J. Meade Falkner. A estranha história de um garoto, órfão, que se liga de amizade a um contrabandista. Juntos, partem à descoberta do fabuloso diamante do Barba-Ruiva, escondido na cisterna de uma fortaleza. “Com MOONFLEET atingimos um dos pontos mais altos da obra de Fritz Lang. Uma das obras mais deslumbrantemente belas alguma vez filmadas, um dos filmes mais fascinantes e mágicos da história do cinema” (João Bénard da Costa).


Sala M. Félix Ribeiro | Sex. [2] 15:30

SWEET BIRD OF YOUTH

Corações na Penumbra
de Richard Brooks
com Paul Newman, Geraldine Page, Shirley Knight, Ed Beagley, Rip Torn, Mildred Dunnock
Estados Unidos, 1962 – 120 min / legendado em português | M /12

Adaptação de uma peça de Tennessee Williams, onde Geraldine Page tem uma das suas mais dramáticas interpretações no papel de uma estrela de Hollywood em decadência que procura “reencontrar” a juventude através do corpo de um jovem Paul Newman, seu gigolo desencantado. “Anti-herói”, num dos papéis da sua vida, raras vezes Paul Newman terá sido mais desejável do que em SWEET BIRD OF YOUTH. Geraldine Page foi nomeada para um Óscar pelo seu papel no filme.


Sala M. Félix Ribeiro | Seg. [5] 19:00

THE KING AND FOUR QUEENS

Um Rei e Quatro Rainhas
de Raoul Walsh
com Clark Gable, Eleanor Parker, Jo Van Fleet, Barbara Nichols, Jean Willes, Sara Shane
Estados Unidos, 1956 – 86 min / legendado em português | M/12

À avidez com que Barbara Nichols, Jean Willes e Sara Shane oferecem ao Rei Gable aquilo que, mais cedo ou mais tarde, ele sabia estar garantido, Eleanor Parker contrapõe arrogância, astúcia e uma certa, estratégica, distância, para vencer as rivais na corrida para o ouro e para os braços de Gable. Um western com um cowboy de meia-idade e quatro lindíssimas viúvas. Além de protagonista masculino, Gable foi também o produtor deste Walsh.


Sala M. Félix Ribeiro | Qua. [7] 19:00

FORTY GUNS

de Samuel Fuller
com Barbara Stanwyck, Barry Sullivan, Dean Jagger, John Ericson
Estados Unidos, 1957 – 80 min / legendado em português | M/12

O western em tempo de mudança. O começo é de cortar a respiração e ficou na história. Jamais o CinemaScope foi aplicado desta maneira. Dir-se-ia que foi inventado para Fuller filmar aquela longa cavalgada de Barbara Stanwyck à frente dos seus 40 cavaleiros, mancha reptilínea nas planícies do Oeste. E é o filme que destrói um “conceituado” lugar comum tacitamente aceite em todos os filmes do género: o duelo final que opõe Sullivan a John Ericson, com este escudado por Stanwyck.


Sala M. Félix Ribeiro | Sex. [9] 19:00

AN AFFAIR TO REMEMBER

O Grande Amor da Minha Vida
de Leo McCarey
com Cary Grant, Deborah Kerr, Richard Denning, Neva Patterson, Cathleen Nesbitt
Estados Unidos, 1957 –119 min / legendado em português | M /12

Cary Grant e Deborah Kerr interpretam as personagens que couberam a Charles Boyer e Irene Dunne na primeira versão deste filme, que McCarey dirigiu em 1939, LOVE AFFAIR, e que, como AN AFFAIR TO REMEMBER, se tornou um filme de culto. Trata-se de uma das mais românticas histórias de amor que o cinema nos mostrou e que até hoje não mais deixou de ser citada ou filmada em novas versões.


Sala M. Félix Ribeiro | Seg. [12] 15:30
Sala M. Félix Ribeiro | Sex. [16] 19:00

REBEL WITHOUT A CAUSE

Fúria de Viver
de Nicholas Ray
com James Dean, Natalie Wood, Sal Mineo, Jim Backus, Dennis Hopper
Estados Unidos, 1955 – 107 min / legendado eletronicamente em português | M/12

James Dean desapareceu aos 24 anos a bordo do seu Porsche prateado. Tornou-se uma lenda e ficou para sempre como símbolo da sua geração, a mesma que REBEL WITHOUT A CAUSE retrata. Nele é o herói angustiado, idealista e inconformado perante os valores suburbanos da classe média. Nunca mais ninguém se esqueceu dele, de jeans apertados e blusão vermelho garrido. Das cores fortes do filme de Nick Ray também não. A apresentar em cópia digital.


Sala M. Félix Ribeiro | Qua. [14] 19:00

LA BAIE DES ANGES

A Grande Pecadora
de Jacques Demy
com Jeanne Moreau, Claude Mann, Paul Guers
França, 1963 – 83 min / legendado em português | M/12

Muito longe do filme cantado que seria uma das marcas do seu cinema, esta obra-prima de Jacques Demy descreve a paixão de uma mulher pelo jogo e o seu périplo de casino em casino na companhia do amante, numa realização que tem a leveza e a elegância do cinema do realizador francês, mas também capta magnificamente a angústia dos jogadores e a sua neurose. Filmado a preto e branco em cenários naturais na Côte d’Azur (Nice e Mónaco), LA BAIE DES ANGES tem uma criação fabulosa de Jeanne Moreau.


Sala M. Félix Ribeiro | Qui. [15] 15:30
Sala M. Félix Ribeiro | Seg. [19] 21:30

ET DIEU CRÉA LA FEMME

…E Deus Criou a Mulher
de Roger Vadim
com Brigitte Bardot, Curd Jurgens, Jean-Louis Trintignant
França, 1956 – 90 min / legendado eletronicamente em português | M/12

O filme que projetou Brigitte Bardot para o estrelato e que mal começa já nos mostra as costas e rabo nus de B.B. Mas o filme estabelecia também uma nova imagem de “mulher moderna” e confirmava (ou antecipava) a renovação de costumes que em breve agitaria a sociedade francesa. Esta liberdade, assim como o corte com a representação das figuras femininas no cinema francês tradicional, fez de ET DIEU CRÉA LA FEMME, “malgré” Vadim, um dos mais importantes prenúncios da Nouvelle Vague.


Sala M. Félix Ribeiro | Sex. [16] 15:30
Sala M. Félix Ribeiro | Qua. [21] 21:30

ISLAND IN THE SUN

Uma Ilha ao Sol
de Robert Rossen
com Harry Belafonte, Joan Fontaine, James Mason, Joan Collins, Dorothy Dandridge
Estados Unidos, 1957 – 120 min / legendado em espanhol | M/12

Adaptação do romance de Alec Waugh, sobre o destino de uma série de personagens que se encontram numa ilha das Antilhas. Um elenco magnífico num filme onde se cruzam os conflitos políticos da descolonização com os da descriminação racial. Harry Belafonte é o político negro que troca o amor de uma branca pela dedicação ao combate político.


Sala M. Félix Ribeiro | Qua. [21] 15:30
Sala M. Félix Ribeiro | Seg. [26] 19:00

BILLY LIAR

O Jovem Mentiroso
de John Schlesinger
com Tom Courtenay, Julie Christie, Wilfred Pickles
Reino Unido, 1963 – 98 min / legendado eletronicamente em português | M/12

A segunda longa-metragem de John Schlesinger, num dos exemplos mais fulgurantes do espírito que soprou no cinema britânico no princípio da década de sessenta, entre a filiação teatral (o filme tem raiz na versão teatral de um romance de Keith Waterhouse) e o desejo intenso de realismo “doméstico” (o chamado “kitchen sink realism”, típico deste período). Os intérpretes são dois dos principais rostos deste cinema, Tom Courtenay e Julie Christie, e segue-se a história de um jovem dado à imaginação e à fantasia como forma de escapar ao quotidiano cinzento e desinteressante em que está mergulhado – chamam-lhe, por isso, o “Billy mentiroso”. Magnífica fotografia, em scope a preto e branco, de Denys Coop. A apresentar em cópia digital. Primeira exibição na Cinemateca.


Sala M. Félix Ribeiro | Sex. [23] 15:30
Sala M. Félix Ribeiro | Qua. [28] 19:00

COMPARTIMENT TUEURS

A Sexta Testemunha
de Costa-Gavras
com Yves Montand, Jacques Perrin, Jean-Louis Trintignant, Simone Signoret, Michel Piccoli
França, 1965 – 95 min / legendado eletronicamente em português | M/12

A estreia na realização de Costa Gavras, e um sucesso considerável que abriu caminho aos filmes de forte ressonância política que o consagrariam no final da década (Z, L’AVEU, ÉTAT DE SIÈGE). COMPARTIMENT TUEURS é um exercício de suspense, eventualmente reminiscente do célebre Crime no Expresso do Oriente de Agatha Christie: numa viagem de comboio entre Paris e Marselha é descoberto o cadáver de uma mulher, e na sequência da investigação conduzida pelo inspetor Yves Montand vários outros passageiros vão também aparecer mortos. Destaque para o notável elenco, reunindo a fina flor dos atores franceses da época.

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