Em colaboração com o Doclisboa, com o apoio do Office National du Film du Canada / National Film Board of Canada e da Cinémathèque Québécoise

A habitual parceria entre a Cinemateca e o Doclisboa concretiza-se este ano através da co-programação de uma retrospetiva dedicada ao cinema do Quebeque (incluindo o documentário e alguma ficção nascida do documentário) desde os finais dos anos cinquenta até hoje, ou seja, cobrindo aquilo que, grosso modo, é a história desse cinema como polo cinematográfico com forte identidade própria.
Esta é uma cinematografia que, nestas salas, tendo embora estado presente com alguma frequência, não chegou a ser alvo de um panorama histórico. Porquê, então, a vontade comum deste foco e desta abrangência? Antes de mais porque, qualquer que seja a visão que tenhamos sobre ela, não é possível fazer uma história do documentário sem abordar o polo local do Cinema Direto dos inícios de sessenta, altura em que toda a história dessa revolução passava obrigatoriamente pela obra de Jean Rouch, pelos americanos da Drew Associates e pela comunidade de cineastas canadianos reunidos na ONF (Office National du Film), sobretudo francófonos, embora, em vários momentos, não em exclusivo. Nesse período, o Quebeque foi um dos três elos fundamentais de uma cadeia de experiências que, no fundo, eram uma só, e que como tal foram muitíssimo comunicantes (como se constata não só pelos contactos dos quebequenses com o grupo estadunidense mas também, por exemplo, pelas ligações dos primeiros com Rouch e em particular pela contribuição decisiva dada por Michel Brault à obra do autor francês). Pesem embora os diferentes prolongamentos que os respetivos contextos geraram, pesem embora as variantes e mesmo as polémicas internas entre as equipas dos dois polos do continente americano, houve, entre eles, um impulso comum e um sentimento de partilha, razão pela qual se lhes pode aplicar com rigor um termo único (“cinema direto”, muito mais adequado do que a suposta separação por vezes estabelecida entre Rouch e os outros por via da errada leitura do termo “cinema-vérité”). Para o polo canadiano, esse foi então o momento de efervescência – o momentum – que, com alguma precisão, devemos situar entre 1958 e os meados da década de sessenta, e que surgiu de resto (como aconteceu com os outros de modo ainda mais flagrante) na sequência de obras mutantes ao longo da década de cinquenta. Por outro lado, foi nesse período de intensa experimentação que o cinema desta província deu quase todos os grandes saltos que, por alguns anos, o vieram a colocar com relevância no mapa do cinema internacional, incluindo e ultrapassando a contribuição para o “direto”: em 1963, o salto para a produção documental de longa-metragem com o filme-marco essencial POUR LA SUITE DU MONDE, do par Brault/Perrault; nesse mesmo ano e no ano seguinte, o salto para as longas de ficção com os também fundamentais À TOUT PRENDRE, de Claude Jutra, e LE CHAT DANS LE SAC, de Gilles Groulx – o princípio de uma ficção nascida da técnica e da metodologia do Direto, num trânsito que não se deu apenas neste cinema e que um dos maiores investigadores dele, G. Marsolais, rotulou iconicamente de “polinização da ficção”; finalmente, e de modo ainda mais geral, o salto para um cinema nacional que, insiste-se, ganhou identidade própria, e que, no próprio terreno industrial, começou a emancipar todo o Canadá da sua crónica proximidade (e inferioridade) em relação ao cinema hollywoodiano.
Nada disto teria porém sido o que foi se estas experiências de cinema não tivessem coincidido com o acordar de uma região. Sendo verdade que o esfoço de desenvolvimento do documentário canadiano tinha já tido um marco com a fundação do NFB – National Film Board (ou ONF – Office National du Film) em 1939 sob a direção de J. Grierson (uma novidade que até aí não tinha estado na origem de grandes contribuições históricas, porventura com a única exceção, muito relevante, da obra canadiana de N. McLaren), a agulha que despoletou outro rumo foi a mudança do organismo de Otava para Montréal em 1956 e as tensões que aí vieram a surgir entre cineastas anglófonos e francófonos. Começando por partilhar experiências comuns ainda lideradas pela comunidade anglófona (foi o caso da série “Candid Eye” feita para a televisão em 1958-60), um grupo de cineastas francófonos (não formados pela ONF) entrou rapidamente em polémica com os restantes, afirmando-se perante eles tanto pela revolta contra um documentário que consideravam pomposo e académico como pela invocação da realidade social e cultural da sua região, até aí secundarizada. Por trás do momentum do cinema quebequense estava então sobretudo esta “equipa francesa” da ONF, e por trás dela o despertar de um espírito de nação, com todos os seus correlativos económicos (a “revolução tranquila” dos inícios da década de sessenta), políticos (o crescimento gradual do movimento nacionalista e da vertente radicalizada dele até à “crise de Outubro” de 1970, os prolongamentos disso até ao plebiscito de 1980…), e de busca de identidade (a procura antropológica das raízes, o contacto com as comunidades autóctones, a referência à construção demográfica da região…). Foi a coincidência destes planos que esteve na base de todos aqueles saltos, e foi este contexto de emancipação e de análise coletiva que acabou por marcar objetos filmados e linhas temáticas de muito do que se fez naqueles inícios e depois.
O programa que elaborámos em conjunto abarca então a fase de arranque de todo este percurso – as obras seminais de viragem de cinquenta para sessenta e dos inícios da década de sessenta, no campo do documentário -, o momento em que daí se parte para um novo tipo de ficção, e, depois, filmes marcantes de todas as décadas seguintes, nos quais se prolonga e renova o ímpeto original. Incluem-se marcos históricos de muitos realizadores fundamentais, e, sobretudo, exemplificam-se as principais vertentes do conjunto: documentários políticos e sociais que abordam a história contemporânea da província; (mais pontualmente) filmes que retomam a tradição viajante e universalista da grande história do documentário internacional; documentários antropológicos, tanto sobre os povos autóctones (neste caso quase sempre em articulação com as questões políticas da sua sobrevivência e integração) como sobre a população “moderna”, de raiz europeia, a braços com a sua própria questão identitária; documentários sociológicos, em que o mais banal quotidiano esconde sempre a introspeção coletiva, e onde perpassam as questões da construção demográfica e, não raro, do exílio; filmes-ensaio modernos confrontando o quotidiano com a matéria da história e do próprio cinema – numa afirmação clara de que já se fechou um longo ciclo que hoje se confronta também consigo próprio.
Finalmente, assinale-se a estrutura mista de cronologia e de associações temáticas (rompendo portanto com a mera ordem cronológica, e assim privilegiando rimas internas, choques, associações), e o facto de serem incluídos alguns grandes clássicos do (grande) cinema de animação do Quebeque, os quais, contra uma tendência frequente, quisemos justamente não isolar em capítulo autónomo.

Filmes a exibir em novembro

JOUR APRÈS JOUR, de Clément Perron (Canadá, 1962)
QUEBEC USA, OU L’INVASION PACIFIQUE, de Michel Brault, Claude Jutra (Canadá, 1962)
PERCÉ ON THE ROCKS, de Gilles Carle (Canadá, 1964)
60 CYCLES, de Jean-Claude Labrecque (Canadá, 1965)
DE MÈRE EN FILLE, de Anne Claire Poirier (Canadá, 1968)
CHRONIQUES D’UNE VIE QUOTIDIENNE, LUNDI: “UNE CHAUMIERE, UN COEUR”, de Roger Frappier, Jacques Leduc (Canadá, 1977)
CHRONIQUES D’UNE VIE QUOTIDIENNE, JEUDI: “À CHEVAL SUR L’ ARGENT”, de Jacques Leduc (Canadá, 1977)
CHRONIQUES D’UNE VIE QUOTIDIENNE, VENDREDI: “LES CHARS”, de Jacques Leduc (Canadá, 1978)
CRAC, de Frédéric Back (Canadá, 1981)
LA BÊTE LUMINEUSE, de Pierre Perrault (Canadá, 1982)
LES DAMES DU 9ÈME, de Catherine Martin (Canadá, 1998)
LE CHAPEAU, de Michèle Cournoyer (Canadá, 1999)
THE FIFTH PROVINCE, de Donald McWilliams (Canadá, 2002)
LA MÉMOIRE DES ANGES, de Luc Bourdon (Canadá, 2008)
LES JOURNAUX DE LIPSETT, de Theodore Ushev (Canadá, 2010)


Sala M. Félix Ribeiro | Qui. [19] 15:30
Sala Luís de Pina | Ter. [24] 18:30

RUPTURA - DEBATES DE CINEMA

THE DAYS BEFORE CHRISTMAS

de Stanley Jackson, Wolf Koenig, Terence Macartney-Filgate
Canadá, 1958 – 34 min / legendado eletronicamente em português

LES RAQUETTEURS

de Michel Brault, Gilles Groulx
Canadá, 1958 – 15 min / legendado em português e inglês

LES DÉSOEUVRÉS

de René Bail
Canadá, 1959 – 73 min / legendado em português e inglês

duração total da projeção: 122 min | M/12

LES DÉSOEUVRÉS

Em 1958 Michel Brault, durante a rodagem de THE DAYS BEFORE CHRISTMAS (integrado na série “Candid Eye” e filmado em grande parte com teleobjetiva), ganha consciência da possibilidade de um outro cinema, feito com câmara à mão e grande angular, feito no coração e no movimento dos acontecimentos. Responde com LES RAQUÉTTEURS, considerado um sinal de partida para o Cinema Direto no Quebeque. Quase simultaneamente, René Bail realiza LES DÉSOEUVRÉS (invisível durante décadas até ser recuperado em 2007), antecipando uma tradição ainda por inaugurar: o trabalho ficcional que incorpora métodos e técnicas do Cinema Direto.


Sala Luís de Pina | Qui. [19] 18:30
Sala Luís de Pina | Ter. [24] 22:00

WORKERS UNITE! / TRABALHADORES UNI-VOS!

NORMETAL

de Gilles Groulx
Canadá, 1959 – 17 min / legendado em português e inglês

RICHESSE DES AUTRES

de Maurice Bulbulian, Michel Gauthier
Canadá, 1973 – 94 min / legendado em português e inglês

 

duração total da projeção: 111 min | M/12

RICHESSE DES AUTRES

RICHESSE DES AUTRES é um dos grandes exemplos de filmes políticos feitos no Quebeque na década de setenta, inscritos na longa tradição do documentário militante. No Quebeque e no Chile, os trabalhadores das minas lutam por reconhecimento e condições de dignidade. Em ambos os países, os governantes descredibilizam a luta, perpetuando um estado de injustiça social e económica – no Chile, Salvador Allende, no Quebeque, René Levesque – líder e fundador do Parti Quebecois (que intervém na obra de Perrault, UN PAYS SANS BON SENS). NORMÉTAL é uma das cidades mineiras em luta. A mesma que Gilles Groulx filmara em 1959, entre os homens no subsolo e a vida à superfície, num documento de grande valor histórico.


Sala M. Félix Ribeiro | Qui. [19] 19:00

DIRECT CINEMA IN QUEBEC / O CINEMA DIRETO NO QUEBEQUE

À SAINT HENRY LE 5 SEPTEMBRE

de Hubert Aquin
Canadá, 1962 – 41 min / legendado em português e inglês

LA LUTTE

de Claude Jutra, Michel Brault, Marcel Carrière, Claude Fournier
Canadá, 1961 – 27 min / legendado em português e inglês

BÛCHERONS DE LA MANOUANE

de Arthur Lamothe
Canadá, 1962 – 27 min / legendado em português e inglês

duração total da projeção: 95 min | M/12

 

À SAINT HENRY LE 5 SEPTEMBRE

Sessão que abre três das grandes linhas temáticas do cinema desta época: a vida urbana (24h na vida do bairro operário de Saint-Henry, em Montréal, no primeiro dia de escola), o desporto (a luta profissional, entre um torneio no Forum de Montréal e os salões clandestinos), as comunidades isoladas numa natureza dura (no outono e inverno, os lenhadores trabalham numa floresta nevada). Três filmes em que a portabilidade do equipamento, o som síncrono, a imersão nos espaços-tempos filmados (ou seja, a linguagem do Cinema Direto) constroem, de maneiras muito diversas, retratos de enorme força poética. Segunda exibição em novembro.


Sala M. Félix Ribeiro | Qui. [19] 21:30

GESTURES AND LANDSCAPES / GESTOS E PAISAGENS

LE PAYSAGISTE

de Jacques Drouin
Canadá, 1976 – 7 min / legendado em português e inglês

LA THEORIE DU TOUT

de Céline Baril
Canadá, 2009 – 78 min / legendado em português e inglês

LE BEAU PLAISIR

de Bernard Gosselin, Michel Brault, Pierre Perrault
Canadá, 1968 – 15 min / legendado em português e inglês

duração total da projeção: 100 min | M/12

LE BEAU PLAISIR

A paisagem concretiza-se e persiste em diferentes modos de relação entre a natureza e o humano. Nesta sessão viajamos da imersão entre a paisagem e o inconsciente no clássico de animação com ecrã de agulhas LE PAYSAGISTE, até à construção comunitária em torno da tradição da pesca do golfinho, em LE BEAU PLAISIR (um filme que revisita gentes e lugares de POUR LA SUITE DU MONDE, de novo no mais puro cinema direto). Entre os dois, damos a ver LA THÉORIE DU TOUT, um filme que se constrói na busca do encontro entre as imagens dos lugares e as memórias dos seus habitantes, procurando o acordo entre palavras, gestos e recordações individuais, mapeando território, registando o seu imaginário. Segunda exibição em novembro.


Sala Luís de Pina | Qui. [19] 22:00
Sala M. Félix Ribeiro | Qua. [25] 19:00

INVENTING FREEDOM / INVENTAR LIBERDADE I

VERY NICE, VERY NICE

de Arthur Lipsett
Canadá, 1961 – 7 min / legendado eletronicamente em português

21-87

de Arthur Lipsett
Canadá, 1964 – 9 min / legendado eletronicamente em português

A TRIP DOWN MEMORY LANE

de Arthur Lipsett
Canadá, 1965 – 12 min / legendado eletronicamente em português

ENTRE TU ET VOUS

de Gilles Groulx
Canadá, 1969 – 64 min / legendado em português e inglês

duração total da projeção: 92 min | M/12

ENTRE TU ET VOUS

Sessão dedicada a ensaios cinematográficos que associam a experimentação da linguagem fílmica à crítica da sociedade moderna. De Lipsett, três filmes dos seus inícios: um jogo entre imagens fotográficas e montagem sonora revela estados de ansiedade recalcados, a crítica a uma sociedade dominada por consumo e máquinas (21-87, onde George Lucas encontrou a ideia de The Force), e um filme-cápsula temporal, em que o passado é apresentado enquanto caos enlouquecedor. O filme de Groulx, construído coletivamente, usa sete sequências na vida de um casal para ilustrar e criticar a sociedade de consumo e a representação da modernidade.


Sala M. Félix Ribeiro | Sex. [20] 15:30

A FREE QUEBEC? / O QUEBEQUE LIVRE? I

LA VISITE DU GENERAL DE GAULLE AU QUEBEC

de Jean-Claude Labrecque
Canadá, 1967 – 29 min / legendado em português e inglês

INCIDENT AT RESTIGOUCHE

de Alanis Obomsawin
Canadá, 1984 – 45 min / legendado eletronicamente em português

duração total da projeção: 74 min | M/14

LA VISITE DU GENERAL DE GAULLE AU QUEBEC

A 24 de Julho de 1967 Charles de Gaulle visita a província do Quebeque. Labrecque (com a colaboração decisiva de Brault e Gosselin nas outras câmaras, e de Marcel Carrière no som) acompanha o acontecimento, construindo um percurso em crescendo até ao momento em que de Gaulle, após apelar à saudação da “Nouvelle France”, solta o célebre grito “Vive le Québec libre!”, que leva a população ao rubro e despoleta uma crise diplomática. Rodado em 35mm mas com um tipo de movimentação próximo do 16mm, o filme dá a sentir, como nenhuma reportagem do mesmo episódio, o espírito único desse momento coletivo. Em contraponto, Alanis Obomsawin apresenta uma profunda investigação acerca das rusgas policiais que tentaram travar os protestos do povo Mi’kmaq, após este mesmo povo ter visto restringidos os seus direitos à pesca do salmão. Duas faces de uma mesma moeda: a colonização e a representação das ideias de justiça e autonomia. O que significa um Quebeque livre?


Sala Luís de Pina | Sex. [20] 18:30
Sala Luís de Pina | Qua. [25] 22:00

WOW / UAU

ROULI-ROULANT

de Claude Jutra
Canadá, 1966 – 16 min / legendado em português e inglês

WOW

de Claude Jutra
Canadá, 1969 – 94 min / legendado em português e inglês

duração total da projeção: 110 min | M/12

ROULI-ROULANT

Sessão atravessada pela imaginação adolescente, captada de modo brilhante por Jutra. ROULI-ROULANT revela a relação dos miúdos com o skate como ímpeto libertador e forma de rebeldia contra a normalização das ruas. WOW, filme de extrema beleza, conta os sonhos e as preocupações de um grupo de jovens. Entre entrevistas a preto e branco e cenas a cores que representam os sonhos de cada um, traz-nos a adolescência sem condescendência ou poetização vazia. Retomando uma linha fundamental em À TOUT PRENDRE – a tensão entre a realidade e a nossa imaginação do mundo, extremando o desejo de liberdade, WOW é um filme absolutamente contemporâneo.


Sala M. Félix Ribeiro | Sex. [20] 19:00

TO THOSE WHO COME / AOS QUE VÊM AÍ

POUR LA SUITE DU MONDE

de Pierre Perrault, Michel Brault
Canadá, 1963 – 105 min / legendado em português e inglês | M/12

Primeira longa-metragem produzida pelo Office National du Film du Canada, estreado em Cannes em 1963, é o primeiro grande documentário do Quebeque, uma obra maior de Perrault e Brault. Filmado na Île-aux-Coudres no rio Saint Laurent, numa comunidade de pescadores de golfinhos de longa tradição, é não só um denso retrato antropológico, mas também uma reflexão sobre a história e identidade da região, sobre a relação desta com os habitantes anteriores, com o país Canadá e com a América como identidade. Uma obra sobre a persistência de uma comunidade assente na tradição. (Cf. também “Le Beau Plaisir”, de 1968, feito também com Bernard Gosselin).


Sala M. Félix Ribeiro | Sex. [20] 21:30
Sala Luís de Pina | Qua. [25] 18:30

TAKE IT ALL 

A CHAIRY TALE

de Claude Jutra, Norman McLaren
Canadá, 1957 – 9 min / legendado eletronicamente em português

À TOUT PRENDRE

de Claude Jutra
Canadá, 1963 min – 99 min / legendado em português e inglês

duração total da projeção: 108 min | M/12

A CHAIRY TALE

Em À TOUT PRENDRE, Jutra e a sua companheira, Johanne Harrelle, são o casal central num filme fortemente autobiográfico, em que a conjugalidade se confronta com o desejo homossexual. Associando a auto-ficção às técnicas do Cinema Direto (som direto, luz natural, câmara presente na ação), o realizador representa-se num vai-e-vem entre uma construção cinematográfica do mundo (de procedimentos quase experimentais) e a sua realidade pessoal, intuindo o que viria a ser um dos caminhos mais interessantes no cinema de hoje. A anteceder a longa-metragem, um dos mais célebres clássicos de animação de Norman McLaren, e uma das suas grandes parábolas sobre a coexistência e a colaboração: A CHAIRY TALE, filmado com imagem real e técnica de pixilação, com Claude Jutra como ator.


Sala Luís de Pina | Sex. [20] 22:00

DIARIES / DIÁRIOS

LES NEGATIFS DE MCLAREN

de Marie Josée Saint-Pierre
Canadá, 2006 – 10 min / legendado em português e inglês

SUIVRE CATHERINE

de Jeanne Crépeau
Canadá, 2007 – 94 min / legendado em português e inglês

duração total da projeção: 104 min | M/12

LES NEGATIFS DE MCLAREN

Dois filmes sobre a constância e o carácter quotidiano do trabalho de criação – a continuidade entre viver e fazer filmes. A sessão começa com uma extraordinária curta-metragem de animação que parte dos arquivos sonoros de Norman McLaren. SUIVRE CATHERINE é uma viagem de Crépeau para Paris, para junto da sua companheira, descobrindo a coabitação, a vida num bairro onde outros procuram essa forma de viver e criar de modo contínuo, fluído. Crépeau analisa as proximidades e diferenças entre Paris e Montréal, experimenta filmar neste lugar que funciona como um espelho, constrói um filme na simplicidade da passagem dos dias.


Sala Luís de Pina | Sáb. [21] 18:30
Sala Luís de Pina | Qui. [26] 22:00

FUTURE NOW / O FUTURO AGORA

SPEAK WHITE

de Pierre Falardeau, Julien Poulin
Canadá, 1980 – 6 min, sem legendas

HERQUEVILLE

de Pierre Hébert
Canadá, 2007 – 21 min / legendado em português e inglês

LA FICTION NUCLÉAIRE

de Jean Chabot
Canadá, 1978 – 86 min / legendado em português e inglês

duração total da projeção: 113 min | M/12

SPEAK WHITE

O futuro interrogado por uma poética do presente. Três filmes de uma atualidade arrebatadora, mobilizando outras práticas artísticas e associando-as à problematização política. SPEAK WHITE combina um poema de Michèle Lalonde (que começa com “é tão belo ouvir-vos falar de Paradise Lost”) com uma montagem de fotografias choque, de novo numa tradição de filme militante denunciador da hipocrisia opressiva das classes dominantes. HERQUEVILLE (realizado por Pierre Hébert, um dos maiores nomes da animação do Quebeque, herdeiro de McLaren e Len Lye) é, nas palavras do autor, uma meditação sobre um lugar – uma povoação numa falésia da Normandia, hoje situada sob uma imensa fábrica de tratamento de lixo nuclear (poemas de Serge Meurant, gravuras de Michelle Corbisier, música de Fred Frith). LA FICTION NUCLÉAIRE foca: a questão do nuclear numa construção dramática entre planos de enorme força pictórica e banda sonora com música de Ornette Coleman.


Sala M. Félix Ribeiro | Sáb. [21] 21:30
Sala Luís de Pina | Qui. [26] 18:30

WHERE IS QUEBEC? / ONDE ESTÁ O QUEBEQUE? I

LE CHAT DANS LE SAC

de Gilles Groulx
Canadá, 1964 – 74 min / legendado em português e inglês | M/12

Primeira longa-metragem de ficção de Groulx, na qual ele integra os métodos do Cinema Direto. O casting é composto por atores não profissionais, os diálogos improvisados, a rodagem feita em continuidade, em décors naturais. Através do confronto num jovem casal, o filme coloca a questão da chegada à maturidade política do povo do Quebeque. Seguindo-se a A TOUT PRENDRE de Jutra, é mais um marco na construção de uma identidade cinematográfica da região, uma identidade que começa por assentar nas experiencias documentais do início da década mas que agora se afirma também pela ficção.


Sala Luís de Pina | Seg. [23] 15:30

MESA REDONDA

A retrospetiva “Uma Outra América” apresenta um conjunto alargado de propostas fílmicas que nasce, no final dos anos 50, com um grupo de realizadores francófonos que trazem o Cinema Direto para a sua prática, inaugurando uma tradição única. Ao longo dos anos, constituiu-se uma filmografia de grande riqueza tanto formal como temática – reflectindo a complexidade cultural, histórica, social e política da região. Esta mesa redonda apontará os diferentes caminhos que aí foram abertos, reflectindo a forma como nesta filmografia encontramos marcos fundamentais para a compreensão do cinema contemporâneo. Com a presença de: Denis Côté, Richard Brouillette, José Manuel Costa, Cíntia Gil, e outros convidados a confirmar


Sala M. Félix Ribeiro | Seg. [23] 19:00

WHO OWNS THE LAND / OS DONOS DA TERRA

KANEHSATAKE: 270 YEARS OF RESISTANCE

de Alanis Obomsawin
Canadá, 1993 – 119 min / legendado eletronicamente em português | M/14

Num quente dia de Julho de 1990 um confronto histórico em Kanehsatake e na aldeia de Oka trouxe as questões indígenas à atenção internacional e à consciência canadiana. Tratou-se de um confronto armado entre os Mohawks, a polícia do Quebeque e o exército canadiano. Este filme é um tour de force que nos coloca no centro da antiquíssima luta indígena. O resultado é um retrato das pessoas por detrás das barricadas, da determinação dos Mohawks pela defesa das suas terras. Um filme seminal que revela a que ponto o modo como se organizaram historicamente as relações entre colonizadores e colonizados é uma chave de leitura do presente.


Sala M. Félix Ribeiro | Seg. [23] 21:30

CITY IS THE PEOPLE / A CIDADE É O POVO I

THE STREET

de Caroline Leaf
Canadá, 1976 – 10 min / legendado eletronicamente em português

LES HÉRITIERS

de Gilles Groulx
Canadá, 1955 – 12 min / legendado em português e inglês

LES PRINTEMPS INCERTAINS

de Sylvain L’Espérance
Canadá, 1992 – 52 min / legendado em português e inglês

AUBE URBAINE

de Jeannine Gagné
Canadá, 1995 – 22 min / legendado em português e inglês

duração total da projeção: 96 min | M/12

AUBE URBAINE

Quatro imagens de comunidade, num mosaico da cidade entre memória coletiva e memórias individuais. Em THE STREET, a família e a morte como elo entre o íntimo e o social; LES HÉRITIERS, primeiro filme de Groulx, revelando uma filmografia a vir: realismo documental, exploração do espaço social, a relação indivíduo-sociedade; LES PRINTEMPS INCERTAINS mapeia os bairros industriais de Montréal, revelando um projeto de modernidade urbana alheia aos seus habitantes; AUBE URBAINE medita entre imagens do quotidiano de Montréal e testemunhos dos seus habitantes. Uma sessão sobre a rarefação da textura social da cidade.


Sala M. Félix Ribeiro | Ter. [24] 15:30

WHERE IS QUEBEC? / ONDE ESTÁ O QUEBEQUE? II

AVEC TAMBOURS ET TROMPETTES

de Marcel Carrière
Canadá, 1967 – 28 min / legendado em português e inglês

3 HISTOIRES D’INDIENS

de Robert Morin
Canadá, 2014 – 70 min / legendado em português e inglês

duração total da projeção: 98 min | M/12

AVEC TAMBOURS ET TROMPETTES

O território e a relação do seu povo com a história, através das vivências populares. Carrière evoca a história da defesa, pelos Zuavos Pontifícios fiéis a Pio IX, dos territórios ameaçados por Vitor Emanuel em 1867. Morin, num filme-coral, retrata três jovens nativos que procuram resgatar um lugar para si na sociedade do Quebeque. Uma sessão que reflete a complexidade do território questionando um presente cuja memória difere segundo distintas identidades culturais, políticas e linguísticas. As estórias das pessoas, o seu acesso aos mitos fundadores e à sua reinvenção, determinam diferentes representações da comunidade.


Sala M. Félix Ribeiro | Ter. [24] 19:00

A FREE QUEBEC? / O QUEBEQUE LIVRE? II

LES ORDRES

de Michel Brault
Canadá, 1974 – 109 min / legendado em português e inglês | M/12

LES ORDRES baseia-se no testemunho de dezenas de pessoas detidas durante o Estado de Exceção declarado em outubro de 1970, na sequência de motins provocados pela leitura de um manifesto separatista por membros da Frente de Libertação do Quebeque. Seguimos cinco personagens construídas a partir desses testemunhos, desde a detenção até à libertação, num filme magistral que se afirma entre o testemunho dos factos e a construção de um imaginário político. “Não tínhamos dinheiro suficiente para filmar tudo a cores (…) as cenas da prisão foram filmadas a cores, porque as pessoas comuns não conhecem as cores da prisão.” (Michel Brault). Segunda exibição em novembro.


Sala M. Félix Ribeiro | Ter. [24] 21:30

A SENSELESS COUNTRY / UM PAÍS SEM BOM SENSO

UN PAYS SANS BON SENS!

de Pierre Perrault
Canadá, 1970 – 118 min / legendado em português e inglês | M/12

Filme-ensaio inscrito na busca identitária que atravessa o cinema do Quebeque. Um dos grandes temas que subjazem em toda a obra de Perrault é aqui trazido ao de cima como reflexão explícita e como tema universal: neste caso o assunto é a própria interrogação sobre a noção de pertença a um país – que pode ser tanto o sentimento nacional dos quebequenses (que, anteriormente ao período histórico da década de sessenta, eram designados “Canadianos franceses”), como, por exemplo, o dos Bretões de França. Em articulação com isto é também abordada a questão dos povos autóctones da província, na sua complexa relação com o nacionalismo regional. Filmado no Quebeque e em Paris, e usando pela primeira vez a mediação de intelectuais que discutem e interrogam elementos da população, o filme é ao mesmo tempo uma súmula, uma inflexão e uma deriva na obra de Perrault. Segunda exibição em novembro.


Sala M. Félix Ribeiro | Qua. [25] 21:30

WE THE WOMEN / NÓS AS MULHERES I

MOURIR A TUE-TETE

de Anne Claire Poirier
Canadá, 1979 – 96 min / legendado em português e inglês | M/12

Um dos mais inteligentes filmes sobre a cultura do estupro, tratando o problema como questão coletiva, ancorada nas sociedades, enunciando-o nos seus contornos físicos, emocionais, espirituais, e legais. Suzanne, enfermeira jovem, é violada e levada a um caminho de degradação total. Baseado em casos reais, Poirier pergunta pelas razões para o sentimento de culpa associado às vítimas. Da violação individual (Suzanne), à ritual (a excisão), ou à violação de massas (mulheres vietnamitas), o filme confronta o espectador com o seu lugar numa sociedade condescendente, perguntando pela justiça e refletindo sobre a própria imagem cinematográfica.


Sala M. Félix Ribeiro | Qui. [26] 15:30

CASA / HOME

ENTRE LA MER ET L’EAU DOUCE

de Michel Brault
Canadá, 1967 – 85 min / legendado em português e inglês | M/12

Filme feito com a colaboração de Claude Jutra e Denys Arcand, onde, mais uma vez, a ficção é invadida pelas técnicas do Cinema Direto. Brault descreveu-o assim: “A história que vivem os meus amigos diante da câmara é a de um jovem que, partindo da sua terra distante à conquista de um mundo novo, a grande cidade, depois de aí ter conquistado alguns amores, regressa em busca de reconforto na sua região natal. Mas tudo acabou, os laços já não existem. Ele parte então em busca do “novo mundo”, desta vez para sempre… mas terá perdido Geneviève.” Segunda exibição em novembro.


Sala M. Félix Ribeiro | Qui. [26] 19:00

INVENTING FREEDOM / INVENTAR LIBERDADE II

ISABELLE AU BOIS DORMANT

de Claude Cloutier
Canadá, 2007 – 9 min / legendado em português e inglês

LES ÉTATS NORDIQUES

de Denis Côté
Canadá, 2005 – 93 min / legendado em português e inglês

duração total da projeção: 102 min | M/12

LES ÉTATS NORDIQUES

O isolamento, a alienação, o difícil pacto entre cada indivíduo e a realidade. No surpreendente filme de Claude Cloutier, é o próprio lugar do espectador que é interrogado. Em LES ÉTATS NORDIQUES, primeiro filme de Denis Côté (aqui mostrado em setembro de 2013 na presença do realizador), um homem isola-se numa pequena comunidade para reconstruir a sua vida após cometer um ato irreparável. O próprio cinema parece, nesta sessão, ser o motivo-chave: qual o lugar do real nas nossas estratégias quotidianas? De que modo é a alienação uma parte fundamental das nossas vidas?


Sala M. Félix Ribeiro | Qui. [26] 21:30

INVENTING FREEDOM / INVENTAR LIBERDADE III

L’ENCERCLEMENT – LA DEMOCRATIE DANS LES RETS DU NEOLIBERALISME

de Richard Brouillette
Canadá, 2008 – 160 min / legendado em português e inglês | M/12

Através das reflexões e análises de vários intelectuais de renome (Noam Chomsky, Ignacio Ramonet, Susan George, Oncle Bernard, entre outros), este filme traça um retrato da ideologia neoliberal e examina os seus diversos mecanismos usados para impor mundialmente determinados ditames. Filme vencedor do Grande Prémio Robert e Frances Flaherty, no Festival de Yamagata em 2009. Richard Brouillette é o autor de TROP C’EST ASSEZ, apresentado também nesta retrospetiva, bem como de ONCLE BERNARD ET LA PETITE LEÇON D’ÉCONOMIE, apresentado no Doclisboa 2016.


Sala M. Félix Ribeiro | Sex. [27] 15:30

WHERE IS AMERICA? / ONDE ESTA A AMERICA?

de Pierre Hébert
Canadá, 1985 – 14 min / legendado em português e inglês

VOYAGE EN AMÉRIQUE AVEC UN CHEVAL EMPRUNTÉ

de Jean Chabot
Canadá, 1987 – 58 min / legendado em português e inglês

duração total da projeção: 72 min | M/12

CHANTS ET DANSES DU MONDE INANIMÉ – LE METRO

A ideia de “América”: é possível uma identidade? Qual o lugar do mito, da violência, da história colonial? De que modo a história se lê no território e nos comportamentos? Precedido de mais uma animação de Hébert, o filme de Chabot constrói-se como um road movie: do Quebeque aos EUA, onde está a América? O que é, como reconhecer? Encontrando diferentes situações, pessoas e lugares, Chabot desenvolve uma meditação acerca da história e do futuro, no momento em que vai ser pai – a América é uma herança? A certa altura “Amérique” soa a “Amérisque”. Segunda exibição em novembro.


Sala Luís de Pina | Sex. [27] 18:30

STORIES OF FILMS / HISTÓRIAS DOS FILMES 

TROP C’EST ASSEZ

de Richard Brouillette
Canadá, 1995 – 111 min / legendado em português e inglês | M/12

TROP C’EST ASSEZ dá a palavra ao cineasta Gilles Groulx (1931-1994), chamado de “lince inquieto”, que foi um dos cineastas mais marcantes e originais do Quebeque. Em 1981 um acidente de automóvel provoca um traumatismo craniano que o isola inexoravelmente dos seus companheiros. Groulx cai rapidamente no esquecimento. De 1989 a 1994, Richard Brouillette encontrou-se regularmente com Groulx, fixando em pelicula as reflexões do cineasta sobre a sua vida e obra. As imagens sóbrias que resultaram desses encontros partilham o ecrã com as obras cinematográficas e pictóricas de Groulx, bem como com outras imagens de arquivos.


Sala M. Félix Ribeiro | Sex. [27] 19:00

“HERE IS A FUCKING CANADIAN FILM” / “AQUI ESTÁ A PORRA DE UM FILME CANADIANO”

LE TEMPS DES BOUFFONS

de Pierre Falardeau
Canadá, 1985 – 15 min / legendado em português e inglês

YES, SIR! MADAME…

de Robert Morin
Canadá, 1994 – 75 min / legendado eletronicamente em português

duração total da projeção: 90 min | M/12

YES, SIR! MADAME…

Dois autores de grande acutilância política e estética. LE TEMPS DES BOUFFONS regista e denuncia de forma polémica, com câmara escondida, um aniversário do Beaver Club em Montréal – homens e mulheres ricos celebram, muitos em traje pseudo-colonial, o seu domínio financeiro e político sobre a sociedade. YES, SIR!… é um filme irónico e comovente, que toma a questão bilingue como drama central do protagonista de um falso documentário. O que será um verdadeiro filme canadiano? Levado ao absurdo, o filme deriva numa balada esquizofrénica que ilustra a relação entre linguagem e poder.


Sala M. Félix Ribeiro | Sáb. [28] 18:30

O OLHAR SUSPENSO DO MUNDO

COMBAT AU BOUT DE LA NUIT

de Sylvain L’Ésperance
Canada, 2016 – 285 min / legendado em português e inglês | M/12

Rodado na Grécia ao longo de dois anos, “COMBAT…” é um longo film-fleuve sobre a crise vivida naquele país que se transforma numa impressionante interrogação sobre o estado do mundo. Depois de, em vários filmes, olhar densa e reiteradamente para a região africana do grande delta do Niger (não muito longe das zonas em que Rouch formou o seu olhar de realizador), Sylvain L’Ésperance (de quem também vemos nesta retrospetiva LES PRINTEMPS INCERTAINS) vem filmar uma Europa convulsa, não sem acabar por reencontrar, de forma pungente, explosiva e irónica… representantes, agora expatriados, dessas culturas que tanto o atraíram. Estruturado como um ensaio político e poético, o filme mergulha no olho do furacão da crise grega e das tensões com as instituições europeias e internacionais, cruzando-o com histórias individuais de refugiados e com a própria atualidade da “crise dos refugiados”, num movimento amplo que alarga e transforma o assunto de partida. Continuador da tradição dos grandes viajantes do documentário político e social, L’Ésperance não “resolve”: acumula (e interpela-nos com) a tensão irresolvida. Segunda exibição em novembro.

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