Com a presença do realizador

Gérard Courant bem merece a alcunha de “Homem-Câmara”, título de um livro de entrevistas a ser publicado no corrente ano. Vejamos os números: desde 1970, quando ainda não tinha vinte anos, realizou mil e dezanove filmes, dos quais trezentas e duas longas-metragens, num total de quase oitocentas horas de cinema, em variados suportes. A sua obra foi mostrada em diversos países, não apenas em cinemas de arte, festivais e cinematecas, mas também nos Festivais de Avignon, Hyères e Cannes e em instituições como o parisiense Centro Pompidou. Autor de livros sobre Werner Schroeter e Philippe Garrel, Courant é o realizador do filme mais longo da História do cinema, CINÉMATON, um “work in progress” que atualmente tem cento e noventa e oito horas e oito segundos de duração. Nascido em Lyon, que para ele é a verdadeira “ville Lumière”, pois foi lá que os irmãos que levavam este nome deram forma definitiva à invenção do cinema, Gérard Courant instalou-se em Paris aos 24 anos e começou a participar ativamente no intenso movimento do cinema independente ou experimental francês, cujos membros tinham laços com a literatura e as artes plásticas, além de passar muitas horas na cinemateca (“O que me interessa no cinema clássico americano não é realmente a história, as personagens ou a psicologia, não, são os lábios de Marylin, os beijos de Gene Tierney, o olhar de Marlene. Interesso-me essencialmente pela sensualidade das imagens”). Desde o início, Courant organizou a sua obra em séries, quase todas “in progress”: CINÉMA (de cinemas onde passam os seus filmes), MES LIEUX D’HABITATION, DE MA CHAMBRE D’HÔTEL, encenações da Paixão de Cristo. Em 1978, começa a série dos CINÉMATON, retratos ou auto-retratos em Super-8, que obedecem de maneira estrita aos seguintes princípios formais: um plano fixo único, com a câmara num tripé, em grande plano sobre o rosto da pessoa filmada, sem som e uma duração igual à totalidade de uma bobine em Super-8, três minutos e vinte e cinco segundos, o que é muito tempo em cinema. Como observa o realizador: “Contrariamente ao vídeo, o Super-8 e o 16 mm, caríssimos, não me permitiam errar. Tive de pensar tudo de antemão, a partir de textos que tinha escrito sobre Warhol ou Ackerman”. O realizador aprova totalmente as intervenções do público durante as sessões do CINÉMATON: “Lembro-me de sessões que eram verdadeiros ‘happenings’”. Nas suas longas-metragens, há frequentemente um trabalho sobre a própria matéria fílmica, com manipulação da película (tintagens, furos), o uso exclusivo de planos fixos ou apropriações na tradição do “ready made”. Num artigo em Art-Press, Fabrice Revault d’Allones observou que “Gérard Courant não apenas tem ideias, mas tem coerência nas suas ideias. Nos CINÉMATONS, nas suas curtas e longas-metragens, desprende-se uma atitude coerente, importante, talvez capital (como a pena que leva este nome): a exploração da fronteira sempre aberta entre a imagem fixa e a imagem animada”. Para esta breve retrospetiva em Lisboa, o próprio Gérard Courant organizou os cinco programas que a compõem: para abrir, um programa de CINÉMATONS de célebres cineastas, seguido por outros quatro programas que reúnem um CINÉMATON e uma longa-metragem. Devido à extrema fragilidade do suporte original em Super-8, todos os filmes serão apresentados em cópias digitais. Gérard Courant estará presente em todas as sessões.


Sala Luís de Pina | Seg. [19] 18:30

30 CINÉMATONS DE CINEASTAS

de Gérard Courant
com Manoel de Oliveira, Jean-Luc Godard, Youssef Chahine, Salah Abou Seif, Philippe Garrel, Emilio Fernandez, Wim Wenders, Maurice Pialat, Alain Tanner, Fernando Arrabal, Volker Schlöndorff, Margarethe von Trotta, Terry Gilliam, Samuel Fuller, John Berry, Marco Bellocchio, Roberto Begnini, Nagisa Oshima, Ettore Scola, Bryan Forbes, Carlo Lizzani, Bigas Luna, Mario Monicelli, Nelson Pereira dos Santos, Sergei Paradjanov, Daniel Schmid, Vitali Kanevsky, Jean Rouch, Gleb Panfilov, Jonas Mekas
França, 1978-2017 – 120 min / sem diálogos | M/12

Para a sessão inaugural deste Ciclo na Cinemateca Gérard Courant propõe uma antologia do “filme mais longo da História do cinema” o CINÉMATON. E escolheu um programa composto unicamente por retratos de cineastas célebres, de gerações, países e tendências muito variadas, filmados ao sabor das suas viagens e dos seus encontros. Começamos com o centésimo-segundo CINÉMATON, que retrata Manoel de Oliveira em Berlim em 1981 (“como os seus filmes: estático, comovente, cercado por uma luz inebriante”), a que se segue Godard, filmado dois dias depois, a assinar o contrato de distribuição de SAUVE QUI PEUT (LA VIE), antes de acompanharmos uma sequência extremamente variada de retratos, dentro dos rigorosos parâmetros do filme. Gérard Courant declarou numa entrevista que nos CINÉMATONS “os grandes cineastas são interessantes. A maioria, não faz nada. Têm confiança suficiente nos poderes da imagem para poderem se permitir isto. Os atores têm mais dificuldades, não sem razão: não têm nenhum papel a representar”. Courant também é de opinião que, embora seja possível programar CINÉMATONS isolados, como será o caso em Lisboa, é “a acumulação que dá o pleno sentido” ao projeto.


Sala Luís de Pina | Ter. [20] 18:30 

CINÉMATON nº 2146

com Pedro Costa

LES AVENTURES D’EDDIE TURLEY

com Philippe Dubuquoy, Françoise Michaud, Joseph Morder, Lucia Fioravanti, Mariola San Martin, Joël Barbouth
de Gérard Courant
França 2006 e 1987 – 4 min e 90 min / legendado eletronicamente em português

duração total da projeção: 94 min | M/12

LES AVENTURES D’EDDIE TURLEY

Filmado em 35 mm e estreado no Festival de Cannes (Perspectivas do Cinema Francês), LES AVENTURES D’EDDIE TURLEY presta homenagem a ALPHAVILLE, de Jean-Luc Godard, tendo por base um dispositivo formal extremamente preciso, como é costume na obra de Gérard Courant. A preto e branco, o filme conta as aventuras do “agente secreto intergaláctico Eddie Turley, vindo dos Países Exteriores, em Moderncity, uma cidade sem alma e robotizada”, exatamente como no filme de Godard. Mas o filme de Courant está longe de ser um “pastiche”: foi filmado durante um ano em várias partes do mundo e a seguir, durante mais um ano de trabalho, o realizador extraiu sete mil fotogramas, dos quais guardou dois mil e quatrocentos na montagem final. Ou seja, embora seja apenas composto por imagens fixas, LES AVENTURES D’EDDIE TURLEY não é composto por fotografias e sim por imagens em movimento paralisadas. Diz o realizador: “O filme era uma aposta: demonstrar que era possível fazer nascer o movimento a partir de imagens fixas. Não nos esqueçamos que o cinema não é movimento, é a ilusão do movimento: o cinema são 24 imagens fixas por segundo”. A abrir a sessão, o CINÉMATON de Pedro Costa, feito em Bruxelas, no dia 19 de novembro de 2006.


Sala Luís de Pina | Qua. [21] 18:30

CINÉMATON nº 1825

com Isabel Ruth

24 PASSIONS

com os habitantes de Burzet
de Gérard Courant
França, 1996 e 2003 – 4 min e 70 min / legendado eletronicamente em português

duração total da projeção: 74 min | M/12

24 PASSIONS

Durante vinte e quatro anos, entre 1980 e 2003, Gérard Courant filmou em Super-8 a encenação da Paixão de Cristo que tem lugar na Sexta-Feira Santa na aldeia de Burzet, na região da Ardèche, desde o século XIII. “Ao chegar ali pela primeira vez, fiquei surpreendido com o espetáculo e tive a sensação de estar num grande filme bíblico de Hollywood dos anos cinquenta. Fiquei impressionado com a beleza das cores das roupagens, dignas do Technicolor e pela justeza do tom dos atores”. Definindo o seu filme como um trabalho que “incensa o tempo e a memória, testemunho de um minúsculo acontecimento que é visto à lupa”, Gérard Courant diz-se satisfeito por ter filmado ali ao longo de vinte e quatro anos, “pois este também é um filme sobre o cinema e o tempo que passa. O cinema é filmado a 24 imagens por segundo (contrariamente ao vídeo, que o é a 25) e a Via Crucis tem vinte e quatro estações!”. Neste filme, “Gérard Courant age como historiador da arte, que postula o acontecimento filmado como uma obra e também parece buscar uma forma de Paixão, de que o Calvário na Ardèche seria a matéria-prima”, observou o Journal des Écrans Documentaires, ao passo que Jean-Pierre Rehm viu no filme “ligações com coisas que me tocam muito, como o Jean Eustache de LA ROSIÈRE DE PESSAC: o cinema como documento sobre o trabalho do tempo”. A abrir a sessão, o CINÉMATON de Isabel Ruth, feito em Taormina, no dia 29 de dezembro de 1996.


Sala Luís de Pina | Qui. [21] 18:30

CINÉMATON nº 938

com Paulo Rocha

À TRAVERS L’UNIVERS

com os habitantes de Saint-Marcellin
de Gérard Courant
França, 1987 e 2005 – 4 min e 67 min / sem diálogos

duração total da projeção: 71 min | M/12

À TRAVERS L’UNIVERS

Gérard Courant apresenta À TRAVERS L’UNIVERS, filmado em Super-8, como “a terceira parte da minha série cinematográfica MES VILLES D’HABITATION. O filme é um inventário das 127 ruas (na primeira parte) e das 17 praças (na segunda parte), de Saint-Marcellin na região de Isère”, entre Grenoble e Valence. O dispositivo formal consiste em mostrar as ruas e praças em ordem alfabética, “o que falseia totalmente a geografia”, como observou um crítico. O filme também é uma homenagem aos inventores definitivos do cinema, os irmãos Lumière: depois de um plano fixo sobre a placa que indica o nome da rua ou praça, Courant reata com as “vues” dos Lumière e faz planos fixos de cerca de vinte segundos do local. No seu blog, o Dr. Orlof observou que “esta justaposição de ‘vues’ cria uma impressão semelhante à que temos ao descobrirmos os CINÉMATONS: a impressão de ver repetir-se coisas, mas com ligeiras diferenças, que fazem todo o interesse do dispositivo”. A abrir a sessão, o CINÉMATON de Paulo Rocha, feito em Rimini, no dia 7 de julho de 1987.


Sala Luís de Pina | Sex. [23] 18:30

CINÉMATON nº 369

com Rui Nogueira

CINÉMATON SURPRESA

BB + MARILYN = GODARD + PREMINGER

de Gérard Courant
França, 1984, data desconhecida e 2013 / 8 min e 93 min / legendado eletronicamente em português

duração total da projeção: 101 min | M/12

BB + MARILYN = GODARD + PREMINGER

Em 2013, Gérard Courant realizou nada menos do que três filmes à volta de Brigitte Bardot, na linha dos filmes sobre o cinema que trabalham sobre obras clássicas e formam um dos filões mais conhecidos e abundantes do cinema contemporâneo. Nestes três filmes, Courant mistura dois filmes clássicos, atingindo sempre a duração de uma longa-metragem do período clássico, 90 minutos. Em BB + MARILYN = GODARD + PREMINGER, assistimos ao encontro de dois dos maiores ícones femininos do cinema de finais dos anos cinquenta, Brigitte Bardot e Marilyn Monroe, num trabalho que sobrepõe …ET DIEU CRÉA LA FEMME, de Roger Vadim e LE MÉPRIS, de Jean-Luc Godard. A abrir a sessão, o CINÉMATON de Rui Nogueira, feito em Genebra, no dia 2 de outubro de 1984 e um CINÉMATON surpresa.

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