EM COLABORAÇÃO COM A CÂMARA MUNICIPAL DE MELGAÇO

Somos muitos a dever muito a este homem, e este ciclo e esta exposição surgem antes de mais para lembrar isso mesmo. “Somos muitos”, quem? Desengane-se quem leia isto apenas como “nós, portugueses”, pensando no amor que o homenageado tem por este país e parte das suas gentes – ele que já se autodefiniu como tendo “um estado de espírito eslavo, uma nacionalidade francesa e um coração português” – ou pelo património que aqui deixou, agora reunido em Melgaço. Não, não é de todo apenas isso aquilo em que estamos a pensar ou a que se resume este tributo. Cineastas de muitos cantos do mundo devem-lhe a rara divulgação dos seus filmes em centros de projeção internacional, e a cultura europeia deve-lhe obra vasta em que haverá sempre que referir, pelo menos, o trabalho desenvolvido no Festival de La Rochelle e no Centro Pompidou, o legado da secção “Caméra d’Or” do Festival de Cannes, o insubstituível Dicionário Larousse/Cinéma e muitas páginas de crítica em periódicos como Combat, Le Quotidien de Paris, Études Cinématographiques ou Jeune Cinéma. Mas, por outro lado, como poderíamos de facto esquecer essa viagem e essa viragem sem retorno que, entre vários périplos europeus e a partir do convívio com os imigrantes portugueses dos “bidonville” de Paris nos anos de 1968-70, trouxe Jean-Loup Passek a Portugal onde acabou por erguer duas casas e deixar todas as suas coleções? Se isto não é portanto o único objeto ou horizonte da iniciativa, é um bom ponto de partida para ela – um ponto de partida justo e lógico, também nascido do reconhecimento e da amizade. Passek escolheu-nos, e é mais do que tempo de a Cinemateca lhe prestar tributo, dividindo esse tributo – como única forma, aliás, de que tal faça sentido para o próprio homenageado – pela figura e pela obra, e tanto pela obra global como pelo repositório, pessoalíssimo e romanticíssimo, que é hoje o Museu de Melgaço. Entre a objetividade e o romantismo temos muito para escolher, e esta iniciativa nasce de tudo isso e é feita de tudo isso, com explícita vontade de nada separar.
Rebobinemos. Nascido em França em 1936 numa família de origem eslava (de pais “de origem polaca ou russa conforme as vicissitudes da história”), depois de um curso liceal em Paris e de uma licenciatura na Sorbonne em história e geografia, Jean-Loup Passek marcou o seu destino no exato dia em que faltou às provas do concurso de professorado para ir ver… CITIZEN KANE. A predisposição para isso tinha começado uns anos antes, especialmente quando conhecera a atividade do Studio de Montparnase e as “terças-feiras clássicas” aí animadas por Jean-Louis Chéray. Algures no seu percurso formativo ou pré-profissional, contam-se também estudos num mosteiro beneditino na região de Morvan e uma estada de dois anos na Argélia – referências soltas, respigadas de pontas de entrevistas que verdadeiramente nunca quis dar mas enquadráveis com óbvio sentido no seu trabalho futuro. Quanto ao percurso profissional, refira-se então antes de mais o trabalho nas edições Larousse, onde entrou em 1963 como responsável do departamento de espetáculos (assinando porém entradas na enciclopédia que extravasam esse campo), e onde, no seguimento de proposta sua, veio depois a dirigir a obra imensa que é o Dictionnaire du Cinéma, publicado até hoje em sete edições, entre 1985 e 2014. Em 1970 (agora pela mão de Jean-Louis Bory) foi a vez de entrar no mundo dos festivais, primeiro como colaborador em Royan, depois como fundador e diretor do Festival International du Film de La Rochelle (sucessor do primeiro), que animou de 1973 a 2001. Em 1978 tornou-se Conselheiro de Cinema do recém-inaugurado Centro Pompidou, em Paris, onde se manteve também até 2001 e onde veio a supervisionar (ou dirigir pessoalmente) três dezenas e meia de grandes retrospetivas e outros tantos catálogos, muitos dedicados a cinematografias nacionais menos conhecidas (cinema checo e eslovaco, húngaro, polaco, jugoslavo, português, turco, grego, arménio, georgiano, chinês, indiano, coreano, australiano, mexicano, cubano, da “Ásia central Soviética, etc., etc.). Pela mesma altura (1978) foi ainda convidado para coordenar a secção “Caméra d’or” do Festival de Cannes, destinada a impulsionar a carreira inicial de novos realizadores, onde se manteve até 2002.
Há nestas várias frentes uma óbvia coerência e duas ou três linhas de força. Dar a ver, dar a conhecer, contra cânones estabelecidos, gavetas ou fronteiras histórias (incluindo nisso a ideia, quase axiomática para a sua geração, de uma fronteira radical entre a Nouvelle Vague e muito cinema francês anterior), eis o que terá sido o traço unificador, marcado portanto pelas ideias de abertura e de desierarquização. Dentro dele, Jean-Loup Passek fez sua a missão de trazer aos centros da cinefilia os tais autores aí desconhecidos, ou vistos como periféricos, destacando ainda o que considerava criação genuína face à simples “moda” – missão de que bem podemos evocar os exemplos de Manoel de Oliveira e António Campos, Oliveira que teve em La Rochelle a sua primeira homenagem em França, em 1975, Campos que nunca se cansou de sublinhar que a retrospetiva nesse festival, em 1994, fora a única que lhe tinha sido dedicada fora do seu país. “Sou pela curiosidade total” (“Je suis pour la curiosité tout azimut”) disse a certo passo, ele que também teorizou sobre as vantagens do ecletismo, ou seja, “uma das grandes virtudes que mais faltam ao ‘honnête homme’ deste fim do século XX” (“Podem dizer que o ecletismo é a primeira etapa da superficialidade, eu acho pelo contrário que é o caminho mais curto para a lucidez, naturalmente na condição de sermos espectadores ativos do mundo e não testemunhas passivas que não param de vender a alma a toda a espécie de manipulação mediática”; “[O ecletismo] é também afirmar o nosso espírito de comparação para melhor rejeitar o de competição”). De la Rochelle ao Pompidou, foi isto que o moveu, defendendo uma independência programática identitária e idiossincrática: “Não a um festival competitivo, (…) não a um festival “sob influência”, “a nossa liberdade é total”… Junte-se a isso a sua lendária obsessão pelo rigor dos dados e a sua resistência à mecanização da escrita (todo o Dicionário Larousse era revisto e verificado pessoalmente, letra a letra, número a número, e tudo o que aí escreveu e reviu fê-lo manualmente, sem recurso a meios mecânicos) e teremos uma primeira aproximação à obra, senão já, obviamente, ao homem.
E Portugal? Como dito acima, tudo começa no período 1968-70 junto da comunidade imigrante da região parisiense. Aí entrando também pelo cinema (com eles realiza cinco ou seis filmes de média metragem, hoje considerados perdidos), acaba por ficar pelas pessoas, criando alguns dos laços de amizade mais perenes de toda a sua vida desde então. Por esses laços vem a aprender a língua e a descobrir o território, onde vem a construir duas casas, no Minho e na costa atlântica (“desconfio como da peste de ser visto como um estrangeiro que não conhece nem a língua nem o país”). Vive portanto uma história paralela num país de adoção, história que se desenrola autonomamente do exercício profissional mas que preserva como algo essencial, em muitos aspectos central, e que por isso mesmo vem a ter um corolário inesperado (ou, para quem o conhecia, expetável e sonhado) através da criação do “seu” museu de Melgaço. Dádiva de Jean-Loup Passek a uma região e uma vila, gesto (ele próprio admirável) de uma vila que correspondeu ao desafio, o Museu de Cinema de Melgaço alberga hoje todas as coleções de documentos, iconografia e objetos de cinema por ele reunidas ao longo de décadas, entre as quais se destacam o importante acervo de cartazes originais, o imenso acervo fotográfico e a coleção de pré-cinema. É o museu improvável no lugar perfeito, pequeno por vocação, remoto por vocação, a festejar um encontro com um território (nos precisos lugares em que esse encontro primeiramente se deu) e com pessoas concretas dentro dele.
A homenagem dupla que agora se leva a cabo – ao homem e ao museu – consta de um Ciclo de uma vintena de filmes e uma exposição de cartazes de cinema originais. Se nesta última optámos por exemplificar duas das áreas mais fortes da coleção (o cinema clássico francês e o cinema – e a escola gráfica de cartazes – da Polónia), o Ciclo, esse, procura justamente espelhar, não apenas um gosto mas a abertura e a diversidade que marcaram o trabalho difusor de Passek. Englobando prioritariamente títulos recolhidos da lista dos “cem filmes” preferidos por Jean-Loup Passek (feita para a Cinemateca Portuguesa nos anos noventa), acrescentando-lhes títulos pontuais representativos de cumplicidades várias (como a do produtor e distribuidor Marin Karmitz, que prontamente quis dar o seu apoio ao museu, tomando ele próprio a iniciativa de estar presente na inauguração desta mostra), procurámos combinar obras do cânone cinematográfico mais consolidado com obras muito menos conhecidas e, também, obras das cinematografias que Jean-Loup Passek mais terá contribuído para divulgar, com sejam as de países da Europa de Leste (Polónia, República Checa, Hungria, ex-União Soviética), ou asiáticos (neste caso Bangladesh). Uma viagem breve pelos continentes cinematográficos que Passek habitou, não deixando de evocar a relação especial que estabeleceu com algum cinema português através dos filmes de António Campos e Manoel de Oliveira.
Erguida a partir do mundo de Passek, a iniciativa é realizada com a inestimável colaboração da Câmara Municipal de Melgaço e contou também na sua preparação com a ajuda fundamental de Bernard Despomadères (ex-adido cultural junto do Instituto Francês de Portugal no Porto, adjunto de Jean-Loup Passek na direção científica do Museu e ele próprio figura central na história das relações culturais entre os dois países). Ao homenageado (no ano do seu octogésimo aniversário e numa altura em que razões de saúde não lhe permitem deslocar-se a Lisboa), aqui exprimimos o nosso profundo agradecimento e daqui enviamos a nossa calorosa saudação. À Câmara Municipal de Melgaço, nas pessoas do seu Presidente Manuel Batista Pombal, da Vereadora da Cultura Maria José Codesso e da Responsável pelos Serviços Culturais Angelina Esteves, agradecemos o pronto acolhimento da iniciativa e toda a cooperação necessária para a levar à prática. A Bernard Despomadères, aqui deixamos também o nosso grande obrigado.


Sala M. Félix Ribeiro | Sex. [9] 21:30
Sala M. Félix Ribeiro | Qua. [21] 15:30

MORTE A VENEZIA

Morte em Veneza
de Luchino Visconti
com Dirk Bogarde, Silvana Mangano, Bjorn Andressen, Mark Burns
Itália, 1970 – 131 min / legendado em espanhol | M/12

com a presença de Marin Karmitz, Bernard Despomadères

1-morte-a-venezia

Uma obra-prima de Visconti adaptada de uma novela de Thomas Mann. História de envelhecimento e decadência onde as pessoas morrem numa cidade também ela moribunda sob os efeitos da peste, e onde um chefe de orquestra envelhecido se apaixona pela imagem de um jovem efebo no luxuoso hotel de Veneza onde se encontra. “You must never smile like that. You must never smile like that to anyone. I love you.”


Sala M. Félix Ribeiro | Seg. [12] 19:00
Sala M. Félix Ribeiro | Seg. [19] 15:30

LE JOUR SE LÈVE

Foi uma Mulher que o Perdeu
de Marcel Carné
com Jean Gabin, Jules Berry, Arletty
França, 1939 – 89 min / legendado eletronicamente em português | M/12

2-JOUR-SE-LEVE

Esta obra amarga e desesperada marca o apogeu do chamado “realismo poético” francês. Carné lembrou-se nitidamente do cinema alemão mudo e de Sternberg para criar a atmosfera do filme, com extraordinários cenários de Alexandre Trauner e uma fotografia cheia de sombras e contrastes, num filme cuja ação se passa quase sempre à noite. Encurralado no seu quarto pela polícia, Jean Gabin, um honesto operário que matou um patife, revive a sua história, numa série de flashbacks. Quando o despertador toca de manhã à hora habitual, não marca o começo de um novo dia de trabalho, marca a hora da sua morte. Um dos grandes desempenhos deste ator “minimalista”, que explodia em bruscos acessos de cólera ou de revolta. A apresentar em cópia digital.


Sala M. Félix Ribeiro | Ter. [13] 19:00

VILARINHO DAS FURNAS

de António Campos
Portugal, 1971 – 77 minutos | M /12

3-vilarinho-das-furnas

“Morreu Vilarinho das Furnas sob o manto da água que lhe deu a vida”. Se, neste filme de António Campos, o rio não é presença constante, a água é a grande ameaça e é ela que mata a aldeia de Vilarinho das Furnas quando da construção da barragem que a submergiu inteiramente. “Um filme cruamente realista” (José Manuel Costa) que ultrapassa essa dimensão para “se transformar, por inteiro, numa gigantesca metáfora. Chegados ao fim… é impossível não pensar que António Campos está de facto a falar do afundamento de um país” (José Manuel Costa).


Sala M. Félix Ribeiro | Ter. [13] 21:30
Sala M. Félix Ribeiro | Qui. [22] 15:30

INTIMI OSVETLENI

“Luz Íntima”
de Ivan Passer
com Vera Forman, Zdenek Besuska, Karel Blazek
Checoslováquia, 1965 – 90 min / legendado eletronicamente em português | M/12

4-INTIMI SVETLENI

Ivan Passer foi o argumentista de dois dos filmes mais célebres da Nova Vaga checa, OS AMORES DE UMA LOIRA e O ÁS DE ESPADAS, ambos de Milos Forman, antes de se estrear na realização. “LUZ ÍNTIMA” impôs o seu nome como um dos cineastas mais importantes da sua geração na Europa Central. Esta história de um jovem que se lembra dos prazeres simples foi definida pelo realizador como “uma variação musical sobre a busca da felicidade”. Jean-Louis Bory viu neste filme “um cinema humilde, no mais belo sentido da palavra, em que a câmara anima a prosa do mundo”. A apresentar em cópia nova digital, correspondente a um restauro muito recentemente apresentado.


Sala M. Félix Ribeiro | Qua. [14] 19:00

I AM JOSH POLONSKY’S BROTHER

de Raphael Nadjari
com Richard Edson, Jeff Ware, Meg Hartig
Estados Unidos, 2001 – 87 min / legendado eletronicamente em português | M/12

5-I AM JOSH POLONSKY BROTHER

A segunda longa-metragem de Raphael Nadjari, realizador de origem franco-israelita, foi rodada nas ruas de Nova Iorque, em Super 8 mm. Pelo cenário, mas também pela escolha do suporte – que Nadjari justificou como “ideal” para a nostalgia dos anos setenta vivida pelas suas personagens – é uma visita ao coração do cinema independente americano, interpretada por um rosto (Richard Edson) bem conhecido dos filmes de Jarmusch, Sara Driver ou Kathryn Bigelow. Ambientado numa comunidade judaica novaiorquina, traça o percurso do “irmão de Josh Polonsky”, que quer perceber porque é que ele foi assassinado. Primeira exibição na Cinemateca.


Sala M. Félix Ribeiro | Qua. [14] 21:30

VALE ABRAÃO

de Manoel de Oliveira
com Leonor Silveira, Luis Miguel Cintra, Isabel Ruth
Portugal, 1993 – 203 min | M/12

6-Vale-Abraao

A versão integral de um dos mais célebres filmes de Manoel de Oliveira, inspirado na Madame Bovary de Flaubert, tal como foi recriada por Agustina Bessa-Luís no romance homónimo. VALE ABRAÃO é um filme “sensualista”, dominado pelas cores, os perfumes, as atmosferas, e pela presença majestosa do rio Douro. Seguindo-se a OS CANIBAIS, NON OU VÃ GLÓRIA DE MANDAR e A DIVINA COMÉDIA, a personagem de Ema, absolutamente central em VALE ABRAÃO, foi a quarta das múltiplas participações de Leonor Silveira em filmes de Oliveira.


Sala M. Félix Ribeiro | Qui. [15] 19:00

TIZEZER NAP

“Os Dez Mil Sois”
de Ferenc Kosa
com Tibor Molnar, Gyorgy Buros, János Koltai
Hungria, 1967 – 110 min / legendado em inglês e eletronicamente em português | M/12

7-tizezernap

A primeira longa-metragem do húngaro Ferenc Kosa, que através das personagens de dois camponeses traça um percurso por trinta anos de história da Hungria, dos anos vinte à sublevação de 1956, passando pela época da Segunda Guerra. Kosa deu especial atenção ao realismo cultural, nomeadamente através da seleção musical baseada em folclore húngaro, que levou alguns críticos a destacar em TIZEZER NAP um carácter de recolha etnográfica. “Como Dovjenko, Kosa está sempre um tom acima da realidade, trabalha no mármore, no alto-relevo”, escreveu Jean-Pierre Jeancolas. A apresentar em cópia digital.


Sala M. Félix Ribeiro | Qui. [15] 21:30

ROMA 

Roma de Fellini
de Federico Fellini
com Federico Fellini, Peter Gonzalez Falcon, Stefano Mayor
Itália, 1972 – 125 min / legendado em espanhol | M/14

8-ROMA

Um dos filmes mais amados de Fellini, canto de amor à capital italiana, que também é a cidade adotiva de Fellini. Com uma narrativa em mosaico típica do realizador, ROMA reúne lembranças de infância na escola sobre a Roma imperial, a chegada de um jovem provinciano à capital, visitas a um bordel, um desfile de modas eclesiástico, festas de rua, espetáculos em poeirentos teatros, discussões entre Fellini e estudantes e conta ainda com breves presenças de personalidades como Anna Magnani e Gore Vidal. Um filme sobre a memória e sobre o que foi vivido, que assinala uma depuração no estilo do realizador, que se acentuaria no seu filme seguinte, AMARCORD.


Sala M. Félix Ribeiro | Sex. [16] 19:00

MATIR MOINA

“O Pássaro de Barro”
de Tareque Masude
com Nurul Islam Babu, Russell Farazi, Jayanta Chattopadhyay
Bangladesh, 2002 – 98 min / legendado eletronicamente em português | M/12

9-matir-moyna

Vencedor do prémo FIPRESCI em Cannes 2002, MATIR MOINA teria ainda a honra de ser o primeiro filme do Bangladesh a integrar o lote final de cinco candidatos ao Óscar de melhor filme em língua estrangeira. Apesar do impacto internacional, o filme de Tareque Masud foi proibido no Bangladesh durante alguns anos, sob a justificação de lidar com assuntos suscetíveis de incomodar os religiosos. Filmado com atores não profissionais, MATIR MOINA baseia-se nas memórias de infância do realizador, evocando o tempo em que estudou numa madrassa em vésperas da guerra da Independência do Bangladesh. Primeira exibição na Cinemateca.


Sala M. Félix Ribeiro | Sex. [16] 21:30
Sala M. Félix Ribeiro | Ter. [20] 15:30

LE PLAISIR 

O Prazer
de Max Ophuls
com Jean Gabin, Madeleine Renaud, Danielle Darrieux, Simone Simon, Daniel Gélin
França, 1951 – 93 min / legendado em português | M/12

10-PLAISIR

Esta obra-prima de Ophuls divide-se em três episódios baseados em contos de Maupassant. No primeiro, estamos num baile de Carnaval, no segundo, a patroa de um bordel leva as suas raparigas para uma primeira comunhão na aldeia natal e, no terceiro, a modelo de um pintor passa de amante ocasional a mulher para a vida, ou para a morte. Moral da história: “O prazer não é alegre”. “Ophuls, o mais brilhante, o mais comovente, o mais ‘raro’ dos cineastas” (Jean-Loup Passek).


Sala M. Félix Ribeiro | Seg. [26] 19:00

OKRAINA

“Subúrbios”
de Boris Barnet
com Aleksandr Chisyakov, Sergei Komarov, Elena Kuzmina
URSS, 1933 – 98 min / legendado eletronicamente em português | M/12

11-OKRAINA

Primeiro filme sonoro de Barnet, situado em 1914, numa obscura e não identificada cidade russa. A ação consiste numa série de episódios, que vão do cómico ao soturno. Barnet funde diversos estilos praticados então na União Soviética, da vanguarda muda (Kulechov e Kozintsev, por exemplo) à comédia, numa síntese magistral e pessoal que parece anunciar o tom dos primeiros filmes de Godard. Barnet também utiliza em seu proveito, de modo magistral, as deficiências técnicas do sistema de som então utilizado na União Soviética.


Sala M. Félix Ribeiro | Seg. [26] 21:30

SULT

“Fome”
de Henning Carlsen
com Per Oscarsson, Gunnel Lindblom, Birgitte Federspiel
Noruega, 1966 – 141 minutos / legendado eletronicamente em português | M/12

12-sult

Uma adaptação de um clássico da literatura, o romance homónimo de Knut Hamsun, Prémio Nobel de Literatura em 1920. A ação, situada em fins do século XIX, narra alguns dias na vida de um escritor pobre e famélico em Cristiana (a atual Oslo). Isolado, desorientado, o protagonista não sofre apenas de fome física, mas também espiritual e já não consegue inserir-se na sociedade em que vive. Per Oscarsson recebeu o Prémio de Melhor Interpretação Masculina no Festival de Cannes pelo seu desempenho. Curiosamente, a história prenuncia de certa forma o destino do próprio Knut Hamsun, que, devido às suas posições pró-alemãs durante a guerra, teve os seus bens confiscados e morreu na miséria em 1952, sendo reabilitado postumamente. A apresentar em cópia digital.


Sala M. Félix Ribeiro | Ter. [27] 15:30
Sala M. Félix Ribeiro | Sex. [30] 19:00

DEKALOG 1 

“Amarás a Deus Sobre Todas as Coisas”
de Krzysztof Kieslowski
com Henryk Baranowski, Wojciech Klata, Maja Komorowska
Polónia, 1988 – 56 min / legendado eletronicamente em português

DEKALOG 5

“Não Matarás”
de Krzysztof Kieslowski
com Miroslav Baka, Zbigniew Zapasiewicz
Polónia, 1988 – 60 min / legendado eletronicamente em português
duração total da sessão: 116 min | M/12

DEKALOG 1
DEKALOG 1

O mais monumental projeto de Krzysztof Kieslowski: uma série de dez filmes, feitos para a televisão polaca, cada um “ilustrando” um dos Dez Mandamentos. O sucesso da série ultrapassou em muito os écrans da televisão polaca, e acabou por ser o principal momento de reconhecimento internacional de Kieslowski, abrindo caminho para a derradeira, e mais conhecida, fase da obra do cineasta. A incidência espiritual de Kieslowski, a sua relação com a religião, são obviamente temas em destaque no DEKALOG, mas o conjunto dos filmes também se vê hoje como um mosaico da vida na Polónia nos anos finais do regime comunista. Vamos ver nesta sessão dois dos melhores episódios, a título exemplificativo.


Sala M. Félix Ribeiro | Ter. [27] 19:00

VELIKY UTESHITEL

“O Grande Consolador”
de Lev Kulechov
com Konstantin Khoklov, Ivan Novoseltsev, Vasily Kovrigin
URSS, 1933 – 95 min / legendado eletronicamente em português | M/12

14-VELIKY UTESHITEL

Kulechov, o mais “americano” dos realizadores soviéticos da época revolucionária, que já realizara “AS AVENTURAS DE MR. WEST NA TERRA DOS BOLCHEVIQUES”, reconstitui aqui o Texas do final do século XIX, adaptando uma história do escritor O. Henry (também muito adaptado em Hollywood) sobre um escritor preso por desvio de fundos. Embora se trate de um filme sonoro, Kulechov não abandona o estilo sincopado da montagem típica dos anos vinte soviéticos, e polvilha VELIKY UTESHITEL de “denúncias” do aparato cinematográfico, de “filmes no filme” à presença do próprio operador dentro do plano. Para muitos comentadores desta época do cinema soviético, VELIKY UTESHITEL, com o seu ambiente prisional, é uma crítica velada à crescente opressão estalinista.


Sala M. Félix Ribeiro | Ter. [27] 21.30
Sala M. Félix Ribeiro | Qui. [29] 15:30

ODD MAN OUT

Casa Cercada
de Carol Reed
com James Mason, Robert Newton, Kathleen Ryan
Reino Unido, 1947 – 115 min / legendado eletronicamente em português | M/12

15-ODD MAN OUT

Com uma atmosfera expressionista que anuncia já o seu THE THIRD MAN, Carol Reed encena um verdadeiro “poema fúnebre” sobre a “solidão e o peso do destino”, nesta história de um chefe político do Sinn-Fein, ferido num assalto e alvo de uma gigantesca caça ao homem. O filme que catapultou James Mason para a glória.


Sala M. Félix Ribeiro | Qua. [28] 15:30
Sala M. Félix Ribeiro | Qui. [29] 21:30

ALLONSANFAN

Que Viva a Revolução
de Paolo e Vittorio Taviani
com Marcello Mastroianni, Lea Massari, Laura Betti
Itália, 1974 – 111 min / legendado eletronicamente em português | M/12

16-ALLONSANFAN

Um dos mais célebres filmes dos irmãos Taviani, ALLONSANFAN leva-nos à Itália pré-Garibaldi do princípio do século XIX, para contar a história, entre o pícaro e o dramático, de um aristocrata entusiasmado com as ideias revolucionárias vindas de França, mas no fim vítima delas. O título é uma corruptela de “allons enfants”, primeiras palavras da Marselhesa.


Sala M. Félix Ribeiro | Qua. [28] 19:00

POCIAG

“Comboio da Noite”
de Jerzy Kawalerowicz
com Zbigniew Cybulski, Helena Dabrowska, Michal Gazda
Polónia, 1959 – 101 min / legendado eletronicamente em português | M/12

17-POCIAG

Jerzy Kawalerowicz é conhecido sobretudo por um filme anticlerical (MADRE JOANA DOS ANJOS, premiado em Cannes em 1961) e por O FARAÓ, uma bizarríssima evocação do antigo Egito. Mas POCIAG também tem alguns elementos de absurdo, que porventura relevam tanto de uma alusão ao clima político como à vontade de homenagear o Hitchcock de STRANGERS ON A TRAIN. A história passa-se num comboio com destino marcado para algures na costa do Báltico, e centra-se no encontro a bordo entre dois passageiros ciosos dos seus segredos.


Sala M. Félix Ribeiro | Qua. [28] 21:30
Sala M. Félix Ribeiro | Sex. [30] 15:30

SATURDAY NIGHT AND SUNDAY MORNING

de Karel Reisz
com Albert Finney, Shirley Ann Field, Rachel Roberts, Hylda Baker, Colin Blakely
Reino Unido, 1960 – 89 min / legendado eletronicamente em português | M/12

18-saturday-night-and-sunday-morning

Filme charneira do novo cinema inglês. A primeira longa-metragem da geração dos “Angry Young Men”, SATURDAY NIGHT AND SUNDAY MORNING é a incorporação, pela ficção, de uma tradição britânica do cinema “realista”. Politizado e com fortes preocupações sociais. Primeiro grande papel no cinema de Albert Finney.


Sala M. Félix Ribeiro | Qui. [29] 19:00 

VILDFAGLAR

“Pássaros Selvagens”
de Alf Sjöberg
com Maj-Britt Nilsson, Per Oscarsson, Ulf Palme
Suécia, 1955 – 100 min / legendado eletronicamente em português | M/12

19-VIlDFAGLAR

Alf Sjöberg começou a filmar no final dos anos vinte e transportou sempre, até ao final da sua obra nos anos sessenta, um pouco do espírito da grande época do cinema mudo sueco. Também por isso, a sua obra faz figura de charneira entre o cinema sueco clássico (o de Sjöström ou Stiller) e os modernos como Ingmar Bergman (de quem Sjöberg foi, de resto, um mestre). VILDFAGLAR, filme dos anos finais da sua carreira, é descrito como uma obra influenciada pelo negrume existencial do cinema francês dos anos trinta (especialmente o Carné de LE JOUR SE LÈVE ou QUAI DES BRUMES), e narra a relação trágica entre uma prostituta e um jovem cadastrado e inadaptado. Primeira exibição na Cinemateca.


Sala M. Félix Ribeiro | Sex. [30] 21:30

GELOSIA

“Ciúme”
de Ferdinando Maria Poggioli
com Luisa Ferida, Roldano Lupi, Ruggero Ruggeri
Itália, 1942 – 88 min / legendado eletronicamente em português | M/12

8-ROMA

Ainda muito há por descobrir no grande cinema popular italiano da época fascista (e neste caso, um filme feito já durante a guerra). GELOSIA é um melodrama soberbo, ambientado entre aristocracia siciliana de meados do século XIX, fazendo um uso extraordinário das paisagens da Sicília duma maneira que parece antecipar a vocação “realista” que o cinema italiano descobriria nas décadas a seguir à Segunda Guerra. De notar, entre os argumentistas, a presença de Sergio Amidei e Vitaliano Brancati, futuros colaboradores de alguns dos mais célebres filmes de Roberto Rossellini.